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A marquise de Ronaldo. O país culto e de bom gosto tremeu horrorizado perante a marquise da casa lisboeta de Ronaldo. Curiosamente o edifício ele mesmo tem um jeito amarquisado, como se fosse constituído por várias marquises sobrepostas. Claro que se em vez de se lhe chamar marquise se designasse o cubo em questão com uma designação mais socialmente correcta tipo “pérgola bioclimática”, as condenações esmoreciam.

A marquise de Ronaldo foi o último pretexto para o exercício higiénico de um país de cidadania paralisada: estas indignações fáceis e consensuais com detalhes particulares funcionam como simulacros do escrutínio ao poder. Por exemplo, indignamo-nos com a marquise do Ronaldo mas encolhemos os ombros perante o processo de licenciamento da Torre das Picoas, cujo terreno o proprietário acabou a entregar ao BES por a CML não lhe autorizar construção superior a 12 mil metros quadrados. Só que um ano depois de o vereador Manuel Salgado ter assinado um documento a declarar que naquele terreno só se poderia construir até 12 mil metros quadrados para escritórios ou até 14 mil para habitação, o mesmo vereador Manuel Salgado aprovava 24 mil metros quadrados de construção ao Banco Espírito Santo, então dirigido pelo seu primo Ricardo Salgado. Mas o que é a Torre das Picoas ao pé da marquise do Ronaldo? Uma ninharia!

De qualquer modo há que aproveitar esta onda de interesse pelo desfigurar da cidade de Lisboa. Assim peço aos indignados cidadãos, activistas, jornalistas e, de caminho, aos condóminos, ao arquitecto responsável pelas obras no apartamento mais caro da cidade e, se possível, ao próprio Ronaldo, que desçam os seus olhos do 14º piso do edifício Castilho 203 e venham até ao Largo do Andaluz que, segundo me informa o google, é coisa que se faz a pé em 18 minutos. No Largo do Andaluz a escala não é a do dinheiro mas sim a da História: no Largo do Andaluz fica um dos mais antigos chafarizes da cidade. O Chafariz do Andaluz tem no seu espaldar um brasão de armas de D. Afonso IV e uma lápide dividida em duas partes onde se pode ler: “NA ERA DE 1374, O CONCELHO DE LISBOA MANDOU FAZER ESTA FONTE A SERVIÇO DE DEUS E DO NOSSO SENHOR REI DOM AFONSO. POR GIL ESTEVES, TESOUREIRO DA DITA CIDADE E AFONSO SOARES ESCRIVÃO, A DEUS GRAÇAS” (Esta data, 1374, corresponde hoje ao ano de 1336 porque à data da colocação da placa a era de César ainda não tinha sido substituída pela era de Cristo, o que só aconteceu no reinado de D. João I). Na metade esquerda da lápide está um brasão com aquela que é provavelmente uma das mais antigas senão a mais antiga representação das armas da cidade.

Pois vós que tremeis com a marquise do Ronaldo num terraço imaginem o que colocaram os poderes municipais junto a este monumento? Sim, a juntar ao parque de estacionamento que o rodeia, ao barraco de uma obra que não se percebe quando sairá de lá, à penumbra resultante da falta de iluminação e ao sequeiro a que o chafariz está condenado (ao contrário do que acontece no resto do mundo, em Lisboa o local mais improvável para encontrar água são as fontes e chafarizes), os poderes municipais acharam por bem colocar depósitos para lixo. Sim, diante de um dos mais antigos chafarizes da cidade de Lisboa estão estes depósitos para plástico, papel, vidro…

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