Meio século depois (1975-2025), o neoliberalismo e a globalização revelam-nos duas alterações de grande alcance, a mundialização dos mercados e das cadeias de valor, por um lado, a desinstitucionalização das mediações e a individualização das relações sociais, por outro. Estas duas alterações de fundo contribuem para cinco grandes mudanças estruturais que informam o último meio século, a saber:
- Uma mudança estrutural na esfera política democrática, ou seja, uma enorme perturbação dos checks and balances do regime democrático;
- Uma mudança estrutural na esfera pública e comunicacional, induzida pelo regime tecno-digital, com mais rastreabilidade pessoal e maior vigilância dos cidadãos;
- Uma mudança estrutural na base territorial da soberania política, a economia é extraterritorial e global e respeita cada vez menos os territórios nacionais;
- Uma mudança estrutural na esfera da relação social e cultural, o individualismo egoísta conduz-nos até ao cripto-cidadão;
- Uma mudança estrutural no pensamento histórico-antropológico, a crise do pensamento crítico, a eliminação da sete do tempo deixa-nos prisioneiros do aqui e agora, já.
Comecemos pelos factos históricos. A década de 70 do século passado começa com o fim do padrão-ouro (1971) e logo depois com o acordo de Bretton Woods (1973). É a década de dois grandes choques petrolíferos, da estagflação e da instabilidade monetário-cambial (câmbios flexíveis). Em 1979, com a revolução chinesa iniciada por Deng Xiaoping designada de um Estado e dois sistemas, tem lugar um movimento de desindustrialização nos países ocidentais que deslocalizam para a China e o sudeste asiático. O neoliberalismo e a globalização fazem-se ao caminho. O processo acelera nos anos oitenta com a desregulamentação e desregulação dos mercados e, muito em especial, com a globalização dos mercados financeiros que são alimentados pelas injeções de liquidez das autoridades financeiras e pelo défice corrente norte-americano. Na transição para os anos noventa a geopolítica contribui, ela também, para esta aceleração do neoliberalismo e a globalização, pois em 1989 cai o muro de Berlim, em 1990 tem lugar a reunificação alemã e em 1991 é o fim da URSS. A estes factos históricos junta-se a inovação tecnológica e digital e começa a tomar forma a santa aliança que irá explodir mais tarde em 2008, ou seja, a associação entre especulação imobiliária, especulação financeira e especulação tecnológica, todas elas com mercados inflamados e inflacionados. No ano de 2001 a entrada da China na Organização Mundial de Comércio (OMC) é outro facto histórico digno de nota. Em 2007/2008 a santa aliança da economia da especulação explode e alastra até às dívidas bancárias e dívidas soberanas. Nesta altura entram em ação, mais uma vez, as autoridades financeiras e estaduais, com mais empréstimos (FMI), compra de dívida pública e privada (bancos centrais) e nacionalizações (Estados), para salvar bancos, estados e fundos à beira da bancarrota. É também neste contexto e neste período que, aproveitando a liquidez existente, os grandes investidores aproveitam para sair da economia real e entrar na economia tecno-digital, no universo do capital de risco, das start-up e das grandes companhias tecnológicas. E assim chegamos à 2ª década do século XXI, com os acordos da Troika, o referendo ao Brexit e a primeira eleição de Donald Trump. Estamos, finalmente, na terceira década, o Brexit é um facto, a guerra da Ucrânia e da Palestina, dois factos históricos muito graves e de consequência imprevisíveis e, por fim, a 2ª eleição de Donald Trump para a presidência americana que ninguém é capaz de prever como irá acabar.
Aqui chegados, façamos, então, uma digressão muito breve pelas cinco grandes mudanças estruturais que aconteceram e acontecem ainda neste período de 50 anos, com a promessa de voltar a elas mais tarde.
- Uma mudança estrutural na esfera política democrática
A esfera política democrática é demasiado lenta para os dispositivos tecno-digitais que circulam pelas nossas estradas ou, dito de outro modo, a velocidade imprimida pelos dispositivos tecno-digitais pode colidir com o vagar das instituições convencionais que precisam de mais tempo para reconsiderar e reformar os checks and balances da esfera política democrática. Acertar o passo e coabitar é o mote, pelo menos para já. - Uma mudança estrutural na esfera pública e comunicacional
Constatamos uma regressão política na esfera pública que é devida à sua digitalização e fragmentação, à desintermediação da comunicação social, cada vez menos operada pelos profissionais do jornalismo, à proliferação de desinformação e notícias falsas e, sobretudo, pela formação de esferas públicas concorrentes, sob a forma de bolhas e ilhas de intersubjetividade e outras tantas câmaras de ressonância. - Uma mudança estrutural na base territorial da soberania política
O neoliberalismo como doutrina política, a globalização como doutrina comercial das cadeias de valor e a tecnologia das redes digitais como instrumento de interconexão virtual, não reduzem as funções do Estado, mas limitam a eficácia, a eficiência e a efetividade da sua ação política se ficar contida nas fronteiras territoriais convencionais e não procurar a cooperação descentralizada e a governança multiníveis e multiterritorial, isto é, o networking state.
- Uma mudança estrutural na esfera sociocultural
Os processos de virtualização em curso nas áreas da informação, conhecimento, comunicação e cultura que estão, agora, a ser operados pela digitalização, automação e artificialização (IA) transportam-nos para um ambiente operativo muito diferenciado onde se assiste à desconstrução dos anteriores protocolos de relação socioinstitucional e sociocultural. Falamos de processos de desmaterialização, desintermediação, desinstitucionalização, desvinculação, desinformação, desigualdade, desconfiança e despolitização. Um desses processos reporta-se ao risco de desinstitucionalização das humanidades – educação, ciência e cultura – uma desvinculação estrutural induzida pela disrupção tecno-digital e capturada pelos mercados, as redes e plataformas. - Uma mudança estrutural no pensamento histórico-antropológico
A dúvida sistemática está de volta. Os mercados, as redes e plataformas tomam conta das instituições de intermediação e mediação — políticas, sociais, culturais e cívicas — que eram, até agora, as guardiãs das memórias do nosso passado e das promessas do nosso futuro. O presente instantâneo das redes e plataformas engoliu a seta do tempo, promoveu os desvios da atenção e outros tantos vieses cognitivos. O grande desafio para as ciências humanas é o de esclarecer rapidamente esta ideologia dos desvios de atenção e vieses cognitivos trazida até nós pela erupção da sociedade tecno-digital e o oportunismo populista de índole nacionalista. O pensamento crítico de alcance histórico, antropológico e humanista está em risco, o desvio de atenção, o viés cognitivo, a dúvida existencial, a saúde mental, são os grandes desafios do nosso tempo.
Notas Finais
Duas notas finais em jeito de interrogação que têm muito a ver com as mudanças estruturais que abordámos. A primeira é especialmente visível nos chamados aparelhos ideológicos de Estado ou, mais simplesmente, nas grandes funções do Estado-administração e seus serviços públicos à população. Com a digitalização, automação e artificialização de serviços, como será a próxima interface socioinstitucional e socio-administrativa com as populações, assim como o espaço público do agir comunicacional e simbólico onde o pensamento crítico, histórico e antropológico, também tenha o seu lugar?
A segunda interrogação tem a ver com a sociedade automática, algorítmica, artificial e imersiva para a qual nos dirigimos e que, como vimos, está cheia de desvios de atenção, distrações e vieses cognitivos. Doravante, como vamos distinguir entre o reflexo e a reflexão, a correlação e a causalidade, a justificação e a explicação, a suspeição e a culpa, os dados e os conceitos, os factos e as perceções, a emergência e a recorrência, nas várias camadas de realidade que a realidade tem?
Teremos de voltar ao assunto.