1 Entre as inúmeras (vulgares) peripécias que nos chegam diariamente da (vulgar) administração do Presidente Trump, uma de particular gravidade tem passado despercebida entre nós: o (não eleito) sr. Musk cancelou na semana passada o apoio estatal ao National Endowment for Democracy (NED). Trata-se, em meu entender, de um dos mais graves atentados simbólicos contra a herança política e intelectual liberal-democrática e anti-autocrática de Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
2 O NED foi criado formalmente em 1983 pelo Congresso norte-americano como uma instituição independente e apoio bi-partidário, dedicada à defesa da democracia e dos valores democráticos no mundo. Mas a sua inspiração intelectual tinha sido antes disso sugerida por Ronald Reagan no Parlamento britânico, em 1982, na presença da Primeira-Ministra Margaret Thacther, no discurso que ficou conhecido por “Westminster Addres”.
Nesse discurso, Reagan apelou a “uma nova iniciativa que promova a infraestrutura da democracia no mundo – um sistema de imprensa livre, sindicatos, partidos políticos, universidades – que permita às pessoas escolherem o seu caminho, desenvolverem as suas culturas, reconciliarem as suas diferenças através de meios pacíficos.”
3 Na sua biografia (em 3 volumes) de Margaret Thatcher (autorizada, mas não oficial, dado que Thatcher, que pediu a Charles Moore para a escrever, fez questão de não ler a obra antes de ser publicada), o nosso amigo Charles Moore dedica um inteiro capítulo a este discurso de Reagan em Westminster (“Volume One, Chapter 20: Russia … and Reagan”, pp. 522-587):
“Com uma frase que conscientemente evocava o discurso de Winston Churchill sobre a ‘Cortina de Ferro’ em Fulton, Missouri (1946), — disse Reagan que ‘desde Stetlin no Báltico até Varna no Mar Negro, não houve eleições livres em 30 anos.’ (…) Reagan então apelou a uma ‘cruzada pela liberdade’, para estabelecer ‘a infraestrutura da democracia e enfrentar a tirania soviética que está a tentar subverter a liberdade ocidental.” (p.581).
4 Vale a pena recordar que no primeiro parágrafo daquele capítulo sobre “Russia and …Reagan”, Charles Moore escreveu:
“Apesar de a ‘política económica’ ter assumido o lugar central nos primeiros anos do governo da Sra.Thatcher, isso era apenas parte do que ela entendia como a batalha para restaurar a força e a liberdade do mundo ocidental.” (p. 552).
Post-scriptum: Escrevi as linhas acima na sexta-feira, sem conhecer os desenvolvimentos ulteriores. Mas não posso deixar de referir que, no passado sábado, o meu amigo Charles Moore, amplamente citado acima, escreveu a sua crónica semanal no (conservador) The Telegraph sob o título (a seis colunas): “So much for the art of the deal. Trump’s call to Putin threatens disaster for Western security”.
Nesse mesmo sábado, a manchete do FT Weekend era sobre o discurso de JD Vance, vice-presidente norte-americano, na Conferência de Segurança de Munique – em que ele chegou ao ponto de dizer que “a ameaça que me preocupa mais acerca da Europa não é a Rússia, não é a China, não é qualquer outro ator externo. O que me preocupa mais é a ameaça que vem de dentro, a retirada da Europa em relação a alguns dos seus valores fundamentais.” O jornal britânico dedica depois inúmeros artigos de crítica ao discurso de Vance, designadamente um longo ensaio, também anunciado em manchete, intitulado “Quem defenderá a Europa? O perigo para a democracia é maior do que há 90 anos.”
Em suma, como dizia o Editorial do FT já a 5 de Fevereiro, “Uma das mais marcantes características da segunda administração de Donald Trump é a sua vontade de destruir décadas de soft power americano”.