Na semana passada escrevi acerca da dificuldade que tenho com o assunto da política. No meu caso, quero educar os meus filhos no assunto e nada nele é fácil. Acabo a ensiná-los a acreditar na política e a não acreditar na política. Num primeiro momento acho-me conservador, num segundo iconoclasta. Tomo partido e logo de seguida rio-me de toda a encenação à minha frente. Dou com uma mão e tiro com a outra.

Não posso dizer que me dediquei profundamente à política. Li uns livros, comprei umas revistas, vi uns programas. Mas anualmente não me livro de uma análise antiga: a das páginas da Bíblia. Como ando agora de volta dos livros dos Reis no Velho Testamento, deixo uma breve nota. A pessoa que lê as Escrituras topa que há nelas uma ambivalência quanto aos sistemas políticos no geral e quanto à monarquia no particular. Não há um regime puramente divino, ainda que a linguagem de um Reino se vá tornando prevalecente.

Há um encadeamento específico: depois do livro dos Juízes, o povo judeu, recém-chegado à Terra Prometida, sente necessidade de um sistema mais centralizado, capaz de juntar as tribos diferentes e rivalizar com as nações vizinhas. É desta ânsia, e sublinho a palavra ânsia porque é precisamente um ímpeto e não uma convicção amadurecida, que virá a pressão que os judeus colocam sobre o sacerdote Samuel para ele lhes desencantar um rei. E o texto bíblico oferece-nos igualmente um contexto com as suas ambivalências.

Por um lado, Deus vai atender o povo que quer um rei e mete o sacerdote Samuel a ungir Saul (1 Samuel 10). Mas antes tinha avisado que um rei teria um poder perigosamente desproporcional em relação ao povo (1 Samuel 8). Ou seja, a Bíblia não tem uma perspectiva abstracta acerca das exigências da vida em sociedade mas também tem espaço para duvidar dos méritos dos sistemas políticos mais imediatos. Nessa medida, as Escrituras ensinam-me a viver preocupado com a política ao mesmo tempo em que não lhe dedico tanta esperança assim.

Com dois milénios de reflexão cristã sobre a política, não faltam tradições distintas e até opostas sob a mesma inspiração. Há cristãos que triunfalmente procuram aproximações à teocracia e há cristãos que em nome de Deus se refugiam em regimes libertários — a maioria talvez vai olhando para a democracia como Churchill, achando-a o pior sistema com a excepção de todos os outros. Ou seja, a ambivalência bíblica permanece.

Por causa da tradição onde nasci, reconheço especialmente as virtudes da separação da Igreja do Estado. Os Baptistas defenderam isto logo na Inglaterra do início do Século XVII, muito antes de se tornar um valor consensual. Mas também não devo ser cego às consequências da religião no espaço público. O laicismo clássico parece-me padecer de um tipo de idealização em que nunca a Bíblia, com toda a tua fé em Deus, cai. Nessa medida, é revelador que as coisas são mais complicadas para o cristão do que para este tipo de laico tranquilo.

A complicação que se encontra na realidade, deve encontrar-se também em quem quer realmente compreendê-la. No fundo, também é por isso que é preciso ter fé. Se a competência humana fosse politicamente excelente, os governantes suscitariam a nossa adoração. Ainda bem que não.