Já o escrevi noutras crónicas e volto a repeti-lo: sou liberal e conservador. Liberal porque acredito na liberdade individual, no valor que é a vida de cada um e que cada um de nós deve respeitar; conservador porque essa liberdade individual precisa (depende mesmo) dos núcleos sociais nos quais os indivíduos se integram e interagem: família, amigos, as relações entre colegas e dentro das empresas, mais as instituições de todo o género que proliferam, sejam de carácter social, político, económico, cultural, religioso e de solidariedade social. Liberal e conservador porque não há liberdade sem cultura, sem o nosso desejo por entendermos o mundo, o que foi e o que vai ser, as nossas tradições e a melhor maneira de as passarmos para os nossos filhos. Estas protegem-nos da massificação social e, dessa forma, protegem a nossa liberdade individual. As primeiras democracias surgiram em sociedades religiosas e foi a religião que as fez vingar, ao contrário do que dizem os que apregoam a dita massificação social. A história conta-nos como a liberdade individual depende do passado, como o liberalismo se interliga com o conservadorismo assim que este coloca o indivíduo acima do Estado e demais poderes.

Naturalmente, refiro-me a um conservadorismo que coloca o indivíduo acima do Estado e não o usa para condicionar as liberdades individuais. Um conservadorismo que não cede à tentação de impor aos outros a vontade de alguns em nome da ordem e de valores caducos que não dizem respeito às pessoas mas se devem ao medo da mudança. O conservadorismo a que me refiro nasceu nas sociedades comerciais, depende do comércio, vive dos comerciantes, não tem medo destes, mas protege-os. E ao fazê-lo torna-se no maior adversário do socialismo. Liberal e conservador nesta medida porque um depende do outro. Esta é a minha visão política e julgo que não estou assim tão sozinho. Na verdade, foi o respeito por esta visão que permitiu os poucos anos de razoável crescimento económico que Portugal já teve. No entanto, e de forma impressionante, esta visão deixou de estar representada no PSD de Rui Rio e parece ter desaparecido de cena dentro do CDS, no congresso que teve lugar neste último fim-de-semana.

Rui Rio diz-se de centro, equidistante tanto da esquerda como da direita (onde é que já ouvimos isto?), pronto a negociar pactos com o socialismo que visam mais defender o Estado que as pessoas. Precisamente o contrário do papel que devia caber a um político, alguém que represente os cidadãos perante o Estado e não o Estado entre os cidadãos. Já Francisco Rodrigues dos Santos apresenta-se como sendo de direita, uma nova direita pejada de rostos do passado. Posso estar redondamente enganado, mas do que tenho acompanhado do percurso político do actual líder do CDS há mais preocupação em tornar públicos valores que são privados que em libertar o indivíduo dos ditames particulares que alguns querem tornar públicos com a força do Estado. Vejo neste CDS um medo da mudança que a liberdade económica acarreta. Dir-me-ão que a política é mais que a economia. É verdade, mas para que tal suceda é preciso que os políticos interfiram menos na economia, sejam menos socialistas, mesmo quando se afirmam de direita.

As perspectivas políticas não são boas e pioram quando olhamos para o estado em que se encontra o Estado: com uma dívida que não deixou de crescer, contas públicas equilibradas à custa de impostos que não podem subir mais e de cativações que não se conseguem repetir, sob o risco de colapso. O Estado está preso por arames e quando cair vai exigir dos cidadãos um novo esforço, mais sacrifícios. Ainda mais austeridade. Aí veremos o tempo que se perdeu, como se camuflou uma realidade com vista a que o essencial do socialismo (um sistema público que depende do esforço desmesurado das pessoas) se mantém intacto, apesar de ineficaz e sem futuro.

Não há ninguém que represente os que criam riqueza e emprego? Os que não se deixam condicionar pelo paternalismo socialista? Não há um político que não denigra os negócios? Não há um político que não receie que as pessoas escolham a educação dos seus filhos, planeiem as suas reformas, gostem de trabalhar por conta própria, de mudar de emprego, de casa ou de cidade? Não há um político que fomente a poupança? Um que defenda o capital como algo indispensável para que o investimento não implique dívida? Não há um político que não tenha medo da liberdade individual? Um que não esteja na política para limitar o poder público, essa que deveria ser a sua função essencial no quadro de uma democracia liberal? Tornaram-se todos defensores do poder público e esqueceram-se dos interesses dos cidadãos que, depreciativamente, apelidam de ‘privado’? Enfim, não há quem me represente? Renderam-se todos à ilusão do fácil? É este o novo fim da história?