Fala-se há algum tempo de uma “esquerda governamental” mas em Portugal nunca houve tal coisa desde o 25 de Abril; nem aliás uma “direita”. O que tem havido é um “centrão”. A verdade é que tudo tem estado subordinado aos interesses dos partidos com vocação de governo, ou seja, o PS e o PSD. Foi assim que a evolução do país redundou na paralisia política e na crescente abstenção eleitoral. A aproximação da eleição presidencial mostrou, entretanto, que há uma “esquerda” que pretende continuar a governar contra o acordo supra-constitucional que garantiu o poder, até final de 2015, ao partido ou à coligação mais votados e excluía alianças espúrias feitas depois das eleições.

Tal pacto vigorou até ao dia funesto em que o PS levou a “extrema-esquerda” para o poder a fim de evitar a derrota que sofrera perante a coligação PSD+CDS… Constâncio tentara fazer o mesmo contra Cavaco em 1986 mas Soares – recém-eleito Presidente – não deixou! O certo é que, cinco anos após o “golpe” de 2015, a actual política governamental não é de “esquerda” nem de “direita”. No presente momento, reduz-se à promessa europeia de dinheiro a rodos para evitar uma crise ainda pior à da pandemia que se arriscaria, por sua vez, a abrir espaço a uma “extrema-direita” cada vez mais acirrada. Trata-se unicamente de os partidos de governo da UE não perderem o poder…

No que respeita a Portugal, o primeiro-ministro visa apenas a sobrevivência política garantindo o apoio que o Presidente da República lhe tem dado. Foi por isso que António Costa promoveu, para surpresa de um PS boquiaberto, há cerca de 4 meses, em directo na televisão, a reeleição do Presidente eleito pela “direita”… Há quem diga que o PR foi eleito por mais de metade dos portugueses mas não é exacto: teve apenas o voto de 48% dos eleitores enquanto os quatro candidatos de “esquerda” tiveram cerca de 40%….

Ora, hoje é improvável que o actual PR seja eleito à primeira volta perante um candidato de “direita” como André Ventura e pelo menos três de “esquerda”. Foi nisto que deu o “centrão” entre o PS e o PR. Caso Cavaco Silva e Passos Coelho tivessem treino político anterior ao 25 de Abril, talvez conseguissem ter dado a volta ao oportunismo de António Costa, mas não tinham… Em contrapartida, hoje que o ocupante da Presidência se arrisca a ser espremido à primeira volta entre as tenazes da “direita” e da “esquerda”, talvez o eleitorado tenha oportunidade de ver os “donos do poder” — estou a falar do PR e do PM — sem saber para onde se virar. Depois do novo “golpe” cometido durante a ida à Autoeuropa, Costa ficou sem PR garantido e sem PS domesticado… É difícil calcular o que irá passar-se daqui até ao ano que vem mas é muito improvável que a conjuntura sócio-económica melhore!

Tendo em conta o voluntarismo de alguém como a embaixadora Ana Gomes, membro do PS oriundo da “extrema-esquerda”, bem como os candidatos do BE e do PCP, não está excluído que o actual Presidente, manifestamente em queda junto dos eleitores de “direita” por se ter mancomunado com o PS, como no caso de Tancos e tantos outros, venha a ficar atrás do conjunto dos outros candidatos e, portanto, condenado a uma segunda volta que dependerá de quem ficar em segundo lugar. Estamos ansiosos por ver a cara do PR e do primeiro-ministro perante tal cenário com o PS fora da corrida!

Não é que eu esteja a propor ou deixar de propor o voto numa das figuras de “esquerda” que se apresentarão contra um PR que mais não fez, neste tempo todo, do que pôr a mão por baixo do actual primeiro-ministro, incluindo a trapalhada pegada que tem sido a gestão socialista da pandemia. Seja como for, o que não se admite é um Presidente pretensamente de “direita” e o líder do PS continuarem juntos a mistificar os cidadãos com promessas impossíveis, compromissos financeiros insustentáveis e redes clientelares espalhadas pelo país inteiro, para não falar da falta de competência da tribo governamental que persiste em desbaratar as últimas reservas do país.

A sociedade portuguesa chegou a um ponto em que já não se trata de ideologia – de “esquerda” ou de “direita”, muito menos de “género” ou de “cidadania” – mas sim de clareza quanto aos objectivos da governação e honestidade quanto aos métodos, ou seja, algo que tem faltado desde o primeiro dia em que o PS tomou o poder em 2015, mentiu sem hesitar acerca do governo anterior (PSD+CDS) e continua sem julgar definitivamente os responsáveis pela falência do Estado, como Sócrates e o BES, que levaram a banca à ruína e a dívida aos píncaros!