Vivemos num mundo ocidental onde qualquer um pode, em teoria, ser o que quiser. Queres ser vegan? Porque não? Queres meditar ao som de cantos tibetanos no cimo de uma montanha? Força! Queres viver como um socialista, longe do “opressor” e do capitalismo? Na verdade, nada te impede.

Nada te impede de te livrares do smart phone, da app premium para ouvir música ou do mocca latte. O capitalismo, esse mesmo sistema que tanto criticas e que retirou milhões de pessoas da pobreza, permite-te esse luxo.

Bem sei que o capitalismo assenta na concorrência que hoje em dia falta, mas, ironicamente, quando bradas pela igualdade social e pelo fim do capitalismo fico curioso porque não te dispões a viver fora dos confortos que este sistema te proporciona.

Há poucas coisas mais hipócritas do que o socialista moderno. Sim, tu que te recusas a admitir que ser socialista numa sociedade capitalista é muito confortável. Não tens de abdicar de nada enquanto criticas “o sistema”. Podes fazer uso dos avanços na qualidade de vida e liberdades sociais enquanto te achas moralmente superior e deslocar-te de carro a gasóleo para aquela manifestação pelo clima. Que luxo!

Afinal, bom bom, é reclamares sobre a desigualdade nas redes sociais, através do teu smart phone fabricado numa cadeia de valor global que reflete o oposto dos teus ideais socialistas. É mais fácil fazer um post do que efectivamente preocupares-te com o drama da exploração infantil nas fábricas asiáticas ou minas africanas, negando usar o seu produto.

Como socialista coerente podias largar tudo. É tão fácil. Podias ir viver numa quinta comunitária e partilhar as colheitas com os teus camaradas. Os terrenos são baratos, falta mão de obra e para cultivar só precisarias da tua enxada e de muito suor. Podias prescindir do Serviço Nacional de Saúde (financiado pela máquina produtiva capitalista) e procurar tratamento em práticas alternativas e não-capitalistas. Poder, podias. Mas não era a mesma coisa.

Bom, é viver dentro do sistema que abominas, ao mesmo tempo que te manifestas pelo aumento de impostos, pela regulação de tudo o que mexe, e por tornar a vida de quem realmente cria algo insuportável. Bom, é ignorar a miséria socialista Cubana, Boliviana ou Norte Coreana, porque, afinal, “o verdadeiro comunismo nunca foi aplicado”.

Quem empreende em Portugal (ou em qualquer país onde o socialismo ainda esteja em voga) conhece o peso da máquina estatal. Conhece a inércia do Estado e o peso da sua ultra regulação. Conhece o medo quando chega uma carta da Autoridade Tributária, pois bem sabe que o Estado não trata o indivíduo como contribuinte, mas como devedor e escravo contributivo.

Num país de mentalidade socialista, não basta ter uma ideia brilhante, criar ou construir algo do zero, ou dar emprego a dezenas ou centenas de pessoas. Tens de lidar com impostos absurdos, uma burocracia asfixiante, e ainda suportar o julgamento moral e a inveja crónica dos que não entendem – ou não querem entender – o esforço que é necessário para construir valor. Num ambiente regulado pelo teu “socialismo de sofá”, a maior parte das empresas não passam de ideias frustradas após três reuniões inúteis com a Autoridade Tributária ou da tentativa de obter licenças que demoram anos.

Tu, socialista moderno, queres redistribuir riqueza, mas raramente queres criá-la. É muito fácil exigir mais impostos sobre os “ricos”, asfixiando a classe média quando o dinheiro não sai do teu próprio bolso. Como disse Javier Milei: “Quando o Estado te dá algo, é porque tirou de alguém.” Acrescento eu que a única maneira de distribuir o que não se cria, é fazendo dívida pública que, mais tarde ou mais cedo, alguém vai ter de pagar. Talvez os teus filhos, mas isso também não é problema teu, não é verdade?

Gosto acima de tudo dos que confundem temas e clamam por “justiça social, climática, contra o patriarcado, feminista e morte aos senhorios”, tudo no mesmo cartaz. Se a ignorância pagasse imposto, tinhas aqui mais uma fonte de financiamento do Estado, como tanto gostas.

São giras estas contradições do dia a dia. Vivemos rodeados de exemplos que demonstram a incoerência nas palavras dos movimentos sociais woke que exigem igualdade e a abolição do capitalismo, mas que só conseguem financiamento através de plataformas capitalistas.

Uma das falácias mais comuns é a ideia de que o socialismo proporciona bens “gratuitos” como saúde e educação. Ora, o povo é soberano e diz há muitos anos: não há almoços grátis! A realidade é que nada é gratuito mas sim que tudo é pago por aqueles que produzem, geram riqueza e, como a palavra indica, contribuem (para o bem comum).

A liberdade de escolha é uma coisa muito bonita e hoje, ninguém te impede de viver como um socialista. Podes largar tudo, viver off-grid, partilhar o que tens e rejeitar os avanços da sociedade de consumo. O que não é aceitável é impedires os outros de criarem, inovarem e prosperarem, enquanto pregas igualdade e justiça social da boca para fora e deixas um rasto de ineficiência, impostos e regulações que sufocam quem quer construir algo maior. Há limites para a tua hipocrisia? Talvez não.

Sim, o capitalismo tem defeitos e precisa de ser refundado com missão social mas, na tua altivez, ignoras que foi o socialismo o responsável por 150 milhões de mortos (muitos deles de fome) e que o capitalismo é a razão pela qual tens escolha e conforto.

Por isso, da próxima vez que pensares que o capitalismo é o inimigo, pergunta a ti mesmo: ‘Estou eu disposto a abdicar de todos os meus benefícios para viver segundo os meus ideais? Ou prefiro continuar a pregar enquanto gozo  das regalias que critico?’”

No fim, fica claro: ninguém te impede de viver como quiseres. Só não nos impeças de criar, crescer e prosperar. Não nos impeças de ser livres.