Crónica

Nos desenhos animados é raro chover

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É quase meia-noite e eu de regresso a Lisboa, sob chuva intensa na autoestrada deserta. No banco de trás levo 76 graus de temperatura, se somarmos a febre das 2 crianças que dormem ao som do ben-ur-on

É quase meia-noite e eu a caminho do Porto, debaixo de chuva intensa numa autoestrada deserta. No banco de trás levo 76 graus de temperatura, se somarmos a febre das duas crianças que dormem ao som do ben-ur-on. A minha mulher também dorme mas dirá mais tarde que não, que isso nunca acontece. Vamos a caminho de um concerto do Miguel Araújo e do António Zambujo, ainda sem saber que temos os piores bilhetes de todo o Coliseu.

Vou a trautear a música dos “heróis na cidade” e a pensar há quantos anos atrás é que me começaram a doer as costas e se a culpa é dos filhos ou da idade. Nessa altura ainda estou longe de imaginar a cara do meu filho, quando, mais tarde, se apercebe que o hotel não pôs uma cama extra e que vai dormir na cama dos pais. Por momentos a sua expressão de felicidade faz-me esquecer, mas apenas por momentos, que quem ficou sem cama fui eu.

Vamos muitas vezes ao Porto visitar a família e já temos a logística afinada, o que não quer dizer que não tenha de fazer quatro “piscinas” para levar as tralhas do 2.º andar de nossa casa (sem elevador) até ao carro (sem garagem), sendo que se há dia em que chove todo o ano é sexta-feira à noite.

Depois de uma noite a dormir entre o meu filho e o precipício do fim da cama e em que às 3 da manhã tropecei descalço no berço da minha filha, quando ia buscar o xarope, que a regra do “de 8h em 8h” não tem clemência pelas madrugadas, eis que chega – ainda antes de o sol nascer – o dia do concerto.

Ao fim do dia, deixamos as crianças nos avós e abalamos para jantar com o inevitável “casal amigo”, que é uma instituição tão portuguesa como o défice estrutural. Temos pouco tempo e por isso evitamos a tentação de resumir o jantar a falar de crianças e de empregadas e de colégios e de como o ranho atrai a tosse, que atrai o nariz entupido e chegaram as sobremesas sem que ainda tivéssemos dito a palavra neosinefrina.

Saímos do restaurante atrasados e depois da sequência táxi-engarrafamento-chuva-é-melhor-irmos-a-pé, lá chegamos. Após a correria e a molha pensei que a partir daí seria sempre a subir e estava bem certo, pois a frisa dos nossos lugares ficava colada ao teto. Entramos e vemos porque é que ficámos com os dois últimos bilhetes disponíveis, quando os comprámos no verão. A frisa fica encostada ao palco, é certo, mas vários andares em cima, a ponto de dar vertigens olhar para baixo. De qualquer modo, não terei essa visão, pois dos seis lugares, apenas quatro são encostados ao varandim.

Escusado será dizer que esses quatro lugares já estavam tomados e foi só nessa altura que percebi porque é que o restaurante onde jantámos se chamava “Cruel”. É que quem lá vai jantar, em vez de ir para o Coliseu com horas de antecedência, percebe bem a crueldade de ir a um concerto e não conseguir sequer confirmar que estava lá o Araújo e o Zambujo e não o Fernando Pereira, a imitar as vozes dos dois.

Enquanto cantava baixinho, de olhos fechados (para olhos abertos já tinha bastado a noite anterior) gizava o plano de, no intervalo, irmos lá para baixo arranjar um lugar clandestino perto do palco, nem que fosse sentados no chão. Guardei este pensamento como um trunfo perante o quarteto que se tinha alapado ao varandim e só o abandonei quando percebi que o concerto não ia ter intervalo.

Nessa noite, dormi a pensar nas músicas e nos meus filhos e aí a minha mulher não nega que também dormiu. Enquanto pensava qual das músicas gostava mais, percebi que as boas músicas são como a vida, quando se gosta, gosta-se de todas em conjunto e até parece que umas só fazem sentido com as outras, como se a “Balada Astral” se ligasse à “Recantiga”, que nos faz ver a vida da frente para trás e de trás para a frente, a pensar no “José” e na “Laurinha”.

No dia seguinte acordei, mesmo sem querer, outra vez a tempo de ser o primeiro no pequeno-almoço, apesar de estarmos sem os miúdos e de podermos aproveitar uma manhã de domingo no quentinho do hotel. A “Laurinha” e o “José” estavam espera, todos destemidos e fui a correr ter com eles, para ainda irmos ver os aviões antes de recolhermos de volta ao novelo.

É quase meia-noite e eu de regresso a Lisboa, debaixo de chuva intensa numa autoestrada deserta. No banco de trás levo 76 graus de temperatura, se somarmos a febre das duas crianças que dormem ao som do ben-ur-on. A minha mulher também dorme mas dirá mais tarde que não, que isso nunca acontece. Viemos de um concerto do Miguel Araújo e do António Zambujo e agora já sei que fiquei com os melhores bilhetes de todo o Coliseu. Os mais perto do céu.

Advogado


[1] Extrato da letra “Nos desenhos animados (nunca acaba mal)” de Os Azeitonas, com letra de Miguel Araújo
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