1st July 2020

Qual vítima de tortura medieval, sinto-me miseravelmente aprisionado numa masmorra húmida, povoada de ratos esfomeados, algemado nos pulsos, nos tornozelos e no pescoço, com as repectivas correntes pregadas a uma parede de pedra por onde escorre água acastanhada vinda de esgotos a céu aberto! Mas olhe que é mesmo isso, e as sombras não são de grey, e muito menos sexuais: são as trevas!

Sim, por que apesar de o meu universo estar essencialmente ligado ao Royal & Ancient Gof Club of St Andrews (agora até fui eleito para o Wine Committee!), tenho de estar informado, e ler os media credíveis. Os media americanos, esqueça: aquilo oscila entre o mau e o péssimo. Tem o Avante dos trogloditas comunistas lusitanos espelhado na CNN e no New York Times, e tem os Bandarra (a que o Chega lusitano não chega aos calcanhares em matéria extremista), que são a Fox News e o Breitbart, de direita.

Mas todos estão a desinformar, a manipular, a radicalizar e a criar um ambiente bélico extremado que se estende dos EUA, à China, passando pela Europa, Rússia e Índia, ameaça bem mais poderosa que o terrorismo jihiadista que tem vindo a tentar abalar a cultura ocidental. Como resultado, as redes anti-sociais (há quem lhes chame redes sociais) tornaram-se num caldo de cultivo onde lavra o primarismo mais aberrante, a ignorância mais absurda, e o ódio mais abjecto, situações de agitação anarca, na maioria protegidas pelo mais infame e cobarde anonimato.

Se não, repare, meu caro Hans, na identidade dos ratos desta masmorra, e que enumero: 1: os do caso das estátuas que derrubam ideais e história; 2: os do anti-racismo gerador do mais atroz racismo (onde até há o paradoxo de calhaus sem olhos, que querem introduzir  o racismo a qualquer preço na Lusitânia, onde a ideia da sua existência generalizada é uma miserável afronta); 3: os do sexo ou a falta dele, ratazanos e ratazanas destinatários de patrocínios financeiros poderosíssimos ligados ao tráfico de pessoas, de droga, pornografia dura e de branqueamento de capitais; 4: os do colonialismo, ratões ignorantes que face a um facto histórico milenar, não percebem que tem perfil idêntico aos seus próprios, vítimas desses activistas de colonialismo ideológico e de muitos outros; 5: os da escravidão, que os roedores da nossa sanidade mental relacionam hoje apenas com a raça negra, quando sempre houve e há centenas de milhares de escravos em todos os continentes, incluindo brancos, amarelos, castanhos, you name it, e ninguém tosse, salvo minorias activistas insignificantes que despudoradamente acham que a escravatura é e foi apenas negra.

Mas, falando de racismo, a liderança da Igreja Anglicana há muito que passa o risco vermelho nas causas fracturantes, aliando-se a elas, e estimulando divisões. Resultado: a alegria das minorias activistas, e a deserção em massa dos seus fiéis. Imagine que agora, na Catedral de St Albans que remonta ao seéculo XI, mas hoje é Protestante, resolveram instalar um painel da última ceia no altar mor em que Jesus é preto, em sinal de apoio do Black Lives Matter. Nenhum Cristão, ou sem ser, atribui uma “cor” a Jesus Cristo, Deus feito homem, judeu com um parecer físico à semelhança dos de Israel e Palestina actual. O Hans acha normal que uma Igreja venha acicatar assim as guerras anti racistas que sabemos são racistas? Como pode imaginar, a prática religiosa em St Albans está a atingir os mínimos. Um dia destes não terão mais remédio do que dar um destino diferente àquele “espaço” (!): night club, salão de bingo? Já há muitos outros templos anglicanos que encerraram por falta de fiéis, e que têm esse tipo de utilização… O arcebispo de Canterbury anda a repensar na raça de Jesus: o homem vai precisar de ir ao psiquiatra!

Estou a jogar golf de maravilha, pois não tenho mais nada para fazer. E estas minhas cartas para si são um muro de lamentações, que me maçam. Comecei a escrever um livro, por isso não se admire se a minha correspondência lhe começar a faltar: nisso e na bolinha, é no que estou focado. F… the world!

Saudoso hug do

4 Juli 2020

É verdade! Você está a ficar neurótico com tanta choradeira, e eu a aturá-lo. Olhe que também estou a ponderar suspender ou espaçar este meu confessionário consigo. Acho que o William está escrever pior, mete a foice em searas que não me animam, as suas cartas estão a ficar para trás, está prolixo, e parece alheado do fascinante mundo que lhe é próximo.

O William deve estar ansioso e acho-o sem graça. Deve ser por não conseguir regressar à nossa querida Lusitânia. E nota-se, pois não fala do descalabro da TAP, da zombiíce de S. Bento, do país ter ficado no índex do turismo por falta de qualquer ideia de como gerir a CV19, sobre a transformação do PSD em sucursal do PS, etc, etc. Acho que é por estar confinado nessa aldeola escocesa, agora parada no tempo, a ter as suas reuniões que, em vez de o levarem aos quatro cantos do mundo do golf, o deixam agora contentinho e sentadinho à secretária, em Zoom, tendo como único horizonte o green do 17 do Old Course (deserto!), e a ver o seu mausoléu/clubhouse ao fundo fechado a sete chaves! Sabe, os mentideros que o rodeavam estão a fazer-lhe muita falta, eram uma fonte inesgotável de coisas saborosas e interessantes que não saem nos jornais, e de que o William me dava útil e divertida nota!

Eu estava a pensar enviar-lhe hoje a fabulosa apresentação do novo logo da Woschiems AG. Mas de castigo, não o faço! Creio que lhe disse que é da autoria de um génio que ganha todos os prémios de criatividade no mundo inteiro, um compatriota meu que se chama Tom Mayer Henkel, que sem o seu misterioso inspirador Jupp Bravwetter não teria ido longe. Daqui a quinze dias o novo logo da Woschiems será objecto de uma apresentação de grande impacto mediático em todo o mundo. Nesse dia, já vai estar estampado no exterior do meu avião, nas pás das ventoinhas dos nossos campos de energia eólica, nos nossos contentores que aos milhares circulam pelo globo, nos chips dos micro-processadores que saem da Woschiems em Sillicon Valley, nas fardas dos empregados das nossas 111 fábricas, e até se sai muito bem quando aparece ao lado dos logos da Apple, da Tesla, da Amazon e da Google.

Por essa falta de borbulha de que o William padece, vou esquecê-lo, não o vou sequer convidar para a espectacular apresentação mundial por Zoom, etc, que vou fazer a partir de Berlim, e talvez nem lhe escrever! E vai ficar a zero, tal como a zero ficou hoje, pois nesta carta não lhe mando nada sobre isso. E se, em vez dessas lamentações, não me passar a animar, espere pela demora!

Mas vou-lhe dar conta de uma decisão fortíssima do meu Vorstand, que avalizei: a Woschiems AG suspendeu a  inserção de qualquer tipo de publicidade nas redes sociais, nomeadamente no Facebook, no Instagram, no Twitter, entre outras.  Logo a seguir a Unilever, a Coca Cola, a Procter & Gamble, a Honda e outras fizeram o mesmo. Durante um ano vamos deixá-los a pão e água!

E vou abundar nas cinco lamentações que faz na sua carta, e que subscrevo a 100%. Dou-lhe apenas uma das muitas razões que me levaram a apoiar os meus colegas de Administração: trata-se da palavra “cultura”. Numa visita relâmpago que tive de fazer a NY, assisti alucinado a um programa da FOX intitulado “Labor of Love”, que até tenho vergonha de lho referir. Mas não resisto em contar. No reality show, 15 homens concorrem para fecundar uma “working girl” (metáfora para prostituta) de 41 anos. E ela vai escolher um dos candidatos para a fecundar. E o prémio é… um ser de carne e osso. A comunicação entre ela e eles é apenas “lúdica”, resultando que parceiros e bébé são considerados produtos. A apresentadora é Kristin Davis, do Sex and the City… E as redes sociais ignaras babam-se com isto. Cultura em movimento!

Se calhar não sabe que nos USA há um mercado para a geração de crianças em que, por exemplo, dois homens (em geral casais homossexuais), primeiro misturam o seu esperma, depois vão a um primeiro catálogo escolher criteriosamente uma mulher com cor de pele e dos olhos, raça, inteligência, saúde mental e física, origem cultural e religiosa, que permitam identificar genes à vontade do freguês nos óvulos que ela coloca à venda para fertilização. Uma vez adquiridos estes, vão a um segundo catálogo escolher uma barriga de aluguer com características sanitárias que ofereçam garantias, e onde mandam alojar os óvulos fertilizados. Finalmente, um ser humano nasce, gerada “graças” à intervenção biológica de quatro pessoas diferentes.  Com as redes sociais ao rubro, mais cultura em movimento!

No dia da decisão dos major, incluindo a Woschiems, a fortuna do Zuckerberg baixou em US$7biliões, as acções caíram 9%! Fora os outros.

E veja lá se me escreve coisas que interessam e divirtam!

Freundliche Umarmung, e muita amizade do

Palavras Cruzadas é o título de uma série de cartas íntimas trocadas entre dois amigos. Um é alemão (Hans Hoffmann), residente em Krefeld, perto de Dusseldorf, e outro escocês (William Archibald), residente em St Andrews, na Escócia, mas ambos com casa em Portugal, país que os apaixonou. A correspondência tende a revelar um Portugal e um mundo vistos por Hoffmann na perspectiva da floresta, mas mais como árvore nas cartas de Archibald. Misturam nessa correspondência acontecimentos políticos, sociais culturais e económicos tanto portugueses como internacionais, revelando o seu cosmopolitismo. Usam de ocasional ironia em factos por vezes semi-ficcionados.