Era um avô daqueles que todos ambicionamos ter: figura paternal de sorriso perene, dicção  melíflua e uma habilidade diplomática para desarmar conflitos que, na sua ótica, não  ultrapassavam a efemeridade de guerras de recreio. Observava dois netos em fricção no quintal  — um, autoproclamado demiurgo do relvado, ditando com autoridade de oligarca quem  chutava, quem arbitrava, quem pagava o preço da exclusão; o outro, herdeiro de um universo  desportivo paralelo onde a bola é mera coadjuvante em modalidades de suor e estratégia,  revoltado contra o monopólio do irmão.

A querela ascendeu em tom. O primeiro, inflamado pela retórica do mérito capitalista, brandia  argumentos de patrocínios e audiências, como se o desporto se resumisse a merchandising e  minutos de ecrã. O segundo contra-atacava com a ética do amadorismo, lembrando que glória  não se mede em decibéis de claques nem em cifrões de bilheteira. O avô, leitor de Sun Tzu em  edição de bolso, interpôs-se. Mãos calejadas nos ombros dos gladiadores mirins, sussurrou-lhes  a litania dos laços sanguíneos: “Paz, meninos. Somos família.” E eis que, por milagre etário, a  trégua surgiu. As espadas verbais embainharam-se, as mãos uniram-se, o quintal reencontrou a  harmonia.

Mas eis a parábola moderna: quando a disputa migrou para a sala de jantar, onde outros netos  — os da governação — esgrimiam acusações em vez de bolas, o patriarca metamorfoseou-se.  Ali, entre promessas quebradas e castelos de areia orçamental, o avô ausentou-se. Fingiu-se  absorto num jornal, distraído com a meteorologia ou o horóscopo, alheio ao vendaval  institucional. Talvez julgasse que a política, ao contrário do futebol, exige laissez-faire geriátrico.  Talvez presumisse que netos de gravata e pasta executiva já não carecem de lições de  convivência. Ou talvez, numa sabedoria cínica, calculasse que mediador de clubismos  ideológicos não aufere aplausos, apenas cicatrizes.

Enquanto os desportistas reconciliados partilhavam um sumo de laranja, os netos-políticos  entrincheiravam-se em trincheiras de soundbites, cada qual a rebocar a sua utopia. A casa,  outrora quente de risos, transformara-se em câmara fria de incompreensão mútua. O avô, génio  tático em microconflitos, revelava-se pacifista passivo em macrocontendas. Distribuía colinhos  fotogénicos, evitando o campo minado das discordâncias nacionais.

Ficamos a interrogar-nos: por que razão um homem capaz de desarmar uma guerra de penáltis  com uma anedota falha redondamente quando a pátria se despedaça em fações? Será a política  demasiado visceral para intervenções de avozice? Ou será que, no fundo, é mais cómodo  apaziguar birras de balneário do que enfrentar o labirinto das desavenças de Estado?

A moral, amarga, ressoa: há netos que exigem palmadinhas nas costas e outros que mereceriam  puxões de orelha — ou, quiçá, uma suspensão no Banco de Portugal ou até outras semelhantes  tão imparciais como tal. Enquanto o avô cultiva a neutralidade de estátua, o país joga um derby  sem árbitro, onde o apito final soa a crise. E nós, plateia resignada, perguntamo-nos quantas  gerações de desentendimentos cabem num só lanche de domingo.