Ainda vou encontrando muitas pessoas que não compreenderam as razões para a súbita ascenção de Gouveia e Melo ao estatuto de presidenciável e que, mais recentemente, não entendem a boa performance que o candidato vai apresentando nas sondagens.
Essas pessoas têm, nos dias que correm, um local que lhes explica o fenómeno: o aeroporto de Lisboa.
O que se está a passar há meses com o controlo de passaportes dos passageiros que chegam de fora do espaço Schengen é, a todos os títulos, inaceitável. São filas com uma demora que pode chegar às seis horas para passar a fronteira — em pé, sem condições, depois de voos que duram muitas horas e, muitas vezes, com crianças pequenas. Depois dessa prova, espera-os o caos na recolha de bagagens, onde as malas se amontoam nos tapetes à espera que o dono as leve.
É certo que o processo mudou. O novo sistema europeu Entry/Exit System (EES) substituiu o carimbo manual por um registo eletrónico e digital, supostamente mais eficiente e integrado com bases de dados europeias.
Mas era uma mudança prevista, supostamente planeada e, imaginávamos, testada. Afinal, nada disso foi feito. Ou, se foi, foi mal feito.
As dificuldades nos primeiros dias até podiam compreender-se. Há sistemas e processos logísticos que só podem ser verdadeiramente testados quando começam a funcionar em ambiente real.
Mas entretanto já passaram um, dois, três meses. E não só o problema se mantém como se tem agravado.
O embaraço dos membros do governo é óbvio. No Verão, Miguel Pinto Luz, que tutela os transportes, confiava que em duas semanas o problema estaria resolvido. Em Outubro, mais prudente, apontou para os “próximos meses”.
Esta semana, Maria Lúcia Amaral, ministra da Administração Interna, esteve no Parlamento. Reconheceu o óbvio — a mudança de sistema “correu mal, muito mal” –, invocou a habitual falta de meios — faltam elementos da PSP — e culpou a tecnologia — “o servidor, por momentos, pifou”. Por isso, distribuiu responsabilidades pelas várias capelinhas: polícia, ANA e empresas que fornecem a tecnologia.
Quanto a soluções, acabou por ser também o rosto da impotência: tem a “fundada esperança” que a situação fique resolvida “nos primeiros meses de 2026”.
O desleixo e o amadorismo são evidentes. Uma empresa que passasse pelo mesmo problema já estaria fora do mercado. Mas ali, que incentivos há para fazer as coisas bem feitas, planeadas, de forma eficaz e eficiente? Poucas ou nenhumas.
Corra bem ou corra mal, os “clientes” não podem ir embora para a concorrência. Têm mesmo que aguentar, três, seis, doze horas que sejam. E para os responsáveis e operacionais no terreno, também é um pouco indiferente. O salário será sempre o mesmo, o posto de trabalho estará sempre garantido e as promoções e progressão na carreira chegarão no calendário estabelecido.
Não havendo incentivos para fazer bem e cada vez melhor, o bom resultado fica entregue ao brio profissional de cada um. E o brio pode ser um bem escasso em pessoas que até podem ter capital de queixa do seu “patrão”, o Estado. E se o processo nem está bem planeado, como pode correr bem?
A incapacidade do Estado com processos e logística é evidente. A desastrada passagem do SEF para a AIMA é mais um exemplo. E quase todos os anos, quando os fogos florestais apertam, vamos sentido isso nas insuficiências do combate.
Não admira que o então vice-almirante Gouveia e Melo se tenha destacado por liderar a equipa que planeou e executou com profissionalismo e eficácia um processo logístico complexo como a vacinação da Covid.
Num país que funcionasse, Gouveia e Melo seria um normal cumpridor da tarefa que lhe estava atribuída. No meio da nossa incapacidade, muitos eleitores viram nele o líder que faz as coisas funcionar.
É a velha história da “terra de cegos”. Se isso pode fazer dele um bom Presidente da República isso já é outra história.