No rescaldo da primeira volta das eleições presidenciais, emergiu um discurso dominante prontamente assumido por um sem número de protagonistas da causa pública, difundindo uma mensagem com propósito quase vinculativo à ideia de uma segunda volta do ato eleitoral circunscrita a duas opções – votar António José Seguro ou votar André Ventura.

Na linha de uma cultura ideologicamente impositiva enraizada nas últimas décadas e, aparentemente, de difícil desabituação, decidiram uns quantos ir ainda mais além, construindo uma narrativa arrasadora para os não votantes em António José Seguro que, no mínimo, seriam indignos da democracia liberal.  A primeira fase da inverdade das duas opções, evoluía para um conceito iliberal de opção única, engalanado com uma presumida superioridade moral   que nunca desmerece nestas ocasiões.

Votar António José Seguro e anunciá-lo publicamente, tornou-se no “mainstream” político do momento, onde todos fazem questão de aparecer. O futuro o dirá, se a contraproducência da forma e da substância da causa, no consolidar de uma via para o crescimento de André Ventura, não se revelará mais eficaz que a própria causa que o pretende derrubar.

À margem da grandeza deste movimento coletivo, permitam-me discordar da superlativa sabedoria que por aí corre e proteger a autonomia do pensamento critico e da liberdade de escolha.

Não voto André Ventura na 2.ª volta das eleições presidenciais. Ventura é um populista provocador, com comportamentos iliberais para além da linha que se admite como suportável, e mesmo não sendo o “bicho papão”, tal e qual como insistem em estigmatizá-lo num persistente erro que contribui para o seu crescimento, está a léguas do pensamento liberal que norteia o modelo político, económico e social em que acredito.

Não voto António José Seguro na 2ª volta das eleições presidenciais. Seguro é um socialista, um “low profile” sem rasgo, que pautou toda a sua carreira política por um modelo económico e social responsável pelo atraso estrutural do país e que está nos antípodas do liberalismo. Uma vez eleito, e acredito que o será, personificará uma força de bloqueio a um sem número de reformas nos mais alicerçantes setores da sociedade portuguesa, absolutamente necessárias, mas que esbarrarão no perfil conformista e com deficit reformador que o caracteriza. Fiel à sua linha ideológica, será o veículo para a reabilitação do partido da rosa.

É entendível, neste enquadramento de opções, a posição assumida por Luís Montenegro, pela generalidade dos membros do governo e pela direção do PSD,  na rejeição a um futuro ónus induzido pela cumplicidade na criação de uma substancial resistência ao desenvolvimento do país, que agravaria o erro  cometido na primeira volta. É uma questão de pragmatismo! “Realpolitik” na defesa da legitimidade das intervenções no futuro combate político. Uma proteção intencional daqueles que têm de dar a cara no debate diário, e que sabem, que quando os atritos entre o futuro Presidente Seguro e o governo constituírem uma face da realidade, e os vetos às propostas reformadoras se sucederem em torrente, um ónus de apoio a António José Seguro, hoje,  seria omnipresente na retórica de ataque adversária e de responsabilização futura. Uma estratégia sensata, mitigando os riscos de perda de eleitorado que resvalaria para o partido de André Ventura, num quadro de erosão política para o centro-direita, que não se esgotaria num único momento e perduraria perigosamente no tempo até às próximas legislativas.

Do mesmo modo e por idênticos motivos, não se adequava outra alternativa à  Iniciativa Liberal, senão assumir a posição de neutralidade que tornou pública,    na proteção da sua liberdade de intervenção e que lhe permite a desoneração de compromissos e de enviesamentos ideológicos, absolutamente essencial no confronto político do próximo futuro.

A não opção por nenhum dos dois candidatos surge, legitmamente, como uma alternativa a considerar, não se aceitando lições morais de quem recorrentemente procura novos “politicamente corretos”, cedendo aos mesmos erros de um passado demasiado recente, ou daqueles que se assumem como guardiões da democracia liberal, quando na primeira oportunidade estabelecem linhas de pensamento único, rotulando de iliberais todos os que não os sigam.

Circunscrever a eleição presidencial a duas alternativas, é um conceito redutor do processo democrático e de menorização da própria democracia.

O ato eleitoral do próximo dia 8 de fevereiro constituí uma  oportunidade maior de afirmação de uma terceira via.

Não a de um papel abstencionista, porque o voto é uma conquista demasiado grande para que nos permitamos não marcar posição ativa, negando a democracia.

Não a de um voto nulo, consubstanciado numa qualquer criancice desrespeitadora de todo o processo.

Uma via que poderá afirmar o voto em Branco com todo o seu potencial de força no marcar de uma posição!

É possível dizer a André Ventura que não nos revemos  no seu modelo nem nos seus atos e que estaremos vigilantes!

É possível dizer a António José Seguro que não nos revemos no seu modelo nem no seu conformismo e que estaremos vigilantes!

É possível dizer a ambos, que não abdicamos das nossas convicções por um mal menor, que somos e seremos democratas, liberais, humanistas, participativos, atentos, vigilantes!

Há um exercício de liberdade na decisão de ser neutral nestas eleições e na legítima escolha de uma terceira via pela força do voto em Branco.

O centro-direita liberal e humanista, assumidamente não representado neste ato, e ainda assim a dizer presente.