1 Macau tem sido um caso de sucesso no combate ao Covid-19. O governo da RAEM teve a capacidade de prever o que aí vinha, talvez devido à experiência muito sofrida com a SARS. E soube, com antecedência, apetrechar-se para os tempos difíceis, tendo vindo a ajustar medidas com a potencialidade de mitigar os efeitos do que iria acontecer.

Essas medidas centraram-se, basicamente, no seguinte: compra antecipada de milhões de máscaras, que foram distribuídas na base de uma máscara/dia pelos todos os residentes, a preços mínimos, e controlo de especulações e açambarcamentos. Dotação do hospital público de mecanismos eficazes para tratamento dos infetados. Implementação de uma política de rastreio de temperatura em todos os lugares de entrada de pessoas. Ampliando crescentemente o número de pessoas a serem testadas. Proibição de entrada de pessoas oriundas dos sítios críticos da China, aumentando a lista à medida que os números de infecções noutros países detonavam os alertas de potencial perigo.

2 É fácil de perceber, mesmo não se sendo especialista em saúde pública, que estamos a enfrentar uma crise sem precedentes. Afinal, também há cisnes negros, ao contrário do que aprendiam as crianças inglesas no séc. XVII, como provou Willem de Vlamingh nas suas expedições! O impacto está a ser brutal e terá efeitos ainda não mensuráveis nas estruturas económicas dos países, das empresas e das famílias.

Os números mostram a dimensão da tragédia. Muito em breve teremos um milhão de infectados em todo o mundo e trinta mil pessoas mortas. E esses serão, apenas, números em aberto de uma contabilidade impossível de fazer neste momento.

A China e, logo a seguir, a Ásia, sofreram a primeira onda de choque da propagação do coronavírus. Macau incluiu-se nesse primeiro lote, mas protegeu-se ao ponto de só ter tido inicialmente dez positivos, seguindo-se um período de 40 dias sem nenhum novo caso. Recentemente o número subiu para trinta, com vinte novos casos positivos, importados, devido ao regresso de dezenas de residentes de países com alta incidência, como o Reino Unido.

A Europa está a sentir o fluxo ascendente do vírus. Portugal, em especial, com o número de cadeias de transmissão actualmente activas e sem ter tomado as medidas iniciais adequadas, vai passar semanas muito críticas, com o aumento significativo do número de pessoas infectadas. Não se acautelou na despistagem precoce de positivos. (Eu próprio, em meados de Fevereiro, tentei em Portugal fazer o teste, e não consegui, mesmo com prescrição médica e tendo viajado de uma zona de risco). Não se fez prevenção em locais óbvios de risco como os lares de idosos. Desconhece-se o que está feito para proteger de forma efectiva as prisões, que são barris potenciais de pólvora. Adoptou-se um discurso suave do tipo “isto ainda não é grave, vamos todos manter a calma, depois cá estaremos para agir…”. Ainda não é dramática a nossa situação, mas poderia ser bem melhor se a prevenção tivesse funcionado.

Teria sido possível implementar o rastreio de temperatura em todos os locais de entrada em Portugal, medida que na Ásia tem vindo a identificar pessoas com temperatura superior a 37,3º (estranhamento os critérios da DGS são 38º!) e, consequentemente, ao despiste precoce de casos positivos.

Na verdade, prevenir significa tomar medidas para evitar a produção de um mal. Se a prevenção for eficaz, o mal não acontece; e, por isso, não se verificando o efeito, não se poderá avaliar com rigor se as medidas preventivas foram, ou não, adequadas ou excessivas. Mas se esse mal ocorrer e obrigar a medidas de reação, torna-se claro que as prevenções adoptadas foram insuficientes para o evitar.

3 A provar que esta é uma crise planetária, parece realista pensar que o pior ainda está para chegar, quando o coronavírus entrar em força em África e na América Latina e começar a devastar comunidades indefesas e impreparadas. Estamos a falar de enormes massas populacionais e de dezenas de países sem estruturas públicas de saúde a funcionar de forma precária e sem meios. De países carenciados, com grandes níveis de pobreza, sem possibilidade de confinamento e que, se não forem ajudados, não terão outra alternativa que não seja a de arranjarem imaginação para enterrarem os mortos. Apesar de virem a ser atingidos pela terceira vaga de infecções, e havendo já com muita experiência acumulada das duas vagas anteriores, a sua capacidade de prevenção é reduzida. Até mesmo a sua capacidade de reacção será muito deficiente, o que leva a temer o pior.

Claro que, e mais uma vez, na ausência de uma solidariedade europeia efectiva, iremos assistir à entrada da China, em força, a ajudar esses países, mantendo a sua política internacional de expansionismo tendo em vista a consolidação de uma posição estratégica privilegiada que lhe dará vantagem na exploração das matérias primas.

4 Era tarefa impossível evitar a entrada do vírus em Portugal. Mas devido à nossa periferia e ao facto de termos sido um dos últimos países da Europa a sentir o tsunami, teria sido possível fazer muito mais numa primeira fase do que aquilo que (não) foi feito. Nomeadamente teria sido possível implementar o rastreio de temperatura em todos os locais de entrada em Portugal, medida que na Ásia tem vindo a identificar pessoas com temperatura superior a 37,3º (estranhamento os critérios da DGS são 38º!) e, consequentemente, ao despiste precoce de casos positivos.

Assim se tem controlado na origem muitos casos positivos que, se tivessem passado esse primeiro controlo, estariam na linha da frente da disseminação comunitária da doença. Teria sido possível provisionar stocks significativos de material de protecção, de modo a evitar as carências generalizadas que têm sido tornadas públicas pelos profissionais de saúde. E não se andava com esse discurso redutor em relação à utilidade das máscaras na prevenção da doença.  Ou será que estão erradas todas as autoridades de saúde dos países asiáticos que colocam as máscaras como um dos elementos importantes na sua estratégia de combate à doença?  O que criou um falso sentimento de segurança foi o discurso inicial das autoridades públicas (Governo e DGS) que não tiveram a coragem de dizer aos portugueses: temos de nos preparar porque vai calhar a nossa vez e quando o Covid-19 chegar vai bater forte e sem contemplações! O discurso foi sempre de relativização, nada preventivo, do género que “avaliaremos a situação dia a dia”. E no dia a dia os portugueses foram vivendo, na maior, sem cautelas nem contenção!

5 Estamos a ser submersos pela onda e não adianta, agora, invocar o que se fez de mal no início. Essas contas deverão fazer-se no fim. O que importa mesmo é a coragem para se tomarem medidas fortes e de contenção, não numa base do “dia a dia”, mas tendo sempre em vista que a pandemia está aí e vai ficar o tempo suficiente para fazer um grande rombo. E, por favor, evitem-se os momentos zen de negação da realidade como aquele que foi protagonizado pelo primeiro-ministro ao dizer na televisão que não havia carência de equipamentos de protecção nos hospitais! Não há necessidade!…

Em Portugal, ultrapassada as imprevidências iniciais, estamos longe das irresponsabilidades de Itália e, mesmo, de Espanha. Mas não é preciso ser-se especialista em políticas públicas de saúde para se perceber que é necessário acentuar de forma enérgica as medidas preventivas.

Macau, mais uma vez, é um bom exemplo do que se pode fazer, ainda que a realidade da cidade não seja integralmente transponível para Portugal.

Neste momento estão impostas medidas drásticas tendo em vista evitar a criação de cadeias de transmissão locais. Em Macau não entra ninguém que não tenha o estatuto de residente. E os residentes de Macau, imediatamente após a entrada, são obrigados a fazer uma quarentena obrigatória em hotéis da cidade afectos a esse efeito (neste momento há 9 hotéis na cidade destinados a quarentenas). A todos, mas mesmo a todos, são feitos testes de despistagem e quem acusar positivo é imediatamente internado no hospital. A cidade retomou alguma normalidade, com excepção das escolas que se mantém fechadas sem data de abertura no horizonte. Há controlo de temperatura à entrada de todos os serviços públicos, equipamentos sociais, casinos e outros espaços frequentados pelos residentes de Macau. E a entrada nos serviços públicos obriga ao preenchimento de uma declaração de saúde online, diariamente, para controlo. Todas as pessoas andam de máscara e há algum distanciamento e contenção social. Mas impera um clima generalizado de confiança e de segurança.

6 Em Portugal, ultrapassada as imprevidências iniciais, estamos longe das irresponsabilidades de Itália e, mesmo, de Espanha.

Mas não é preciso ser-se especialista em políticas públicas de saúde para se perceber que é necessário acentuar de forma enérgica as medidas preventivas. Máscaras (e outro material) com prioridade a todos os profissionais de saúde. Máscaras, a preços controlados e acessíveis, para venda sem especulação a todas as pessoas. Uma campanha persistente de propaganda (já nem se trata de informação!) para a lavagem das mãos e que potencie o confinamento social. Rastreios de temperatura em espaços públicos, com sujeição a testes de despistagem de todos os que acusem temperatura. Medidas preventivas, mas efectivas, para o caso de o Covid-19 entrar em zonas de especial risco bairros sociais e como as prisões, já que elas não foram atempadas para proteger adequadamente os idosos. E testes. Uma política de testes alargada, e não economicista como aquela que tem vindo a ser praticada. O apelo é para que a protecção da saúde pública esteja em primeiro lugar e que não haja quebras de convicção nessa luta, nem receio de endurecer as medidas a adoptar.

Do mesmo modo que está imposta a contenção e distanciamento social é fundamental não permitir a entrada livre em Portugal, obrigando a quem chegue de países de risco a sujeição a testes de controlo e/ou de quarentenas obrigatórias, sobe pena de se criarem focos de transmissão comunitária que vão gerar mais perigo social e mais mortos.  Não vamos lá com meias medidas!…

Sobreviver é um imperativo para que, depois, a economia possa, paulatinamente, vir a ser recuperada.