Calculo que, como eu, o leitor tenha ficado perturbado ao ler esta notícia: “Homem suspeito de decapitar outro em Lisboa fica em prisão preventiva”. Choca-me que, em todos os jornais que tenho visto, o homicida seja invariavelmente referido como “suspeito”, apesar de se ter apresentado no Hospital de São José com a cabeça da vítima e ter relatado à polícia, com pormenores muito concretos, a forma como efectuou o crime. Ou, se calhar para alguns repórteres, o suposto crime.

É escandaloso que, face a isto, a comunicação social continue a tratar um assassino confesso como um mero suspeito, desconfiando da sua palavra e pondo em causa a sua honestidade. No fundo, os jornalistas chamam-lhe mentiroso, imputando-lhe uma falha moral e uma mancha reputacional que se espalha até aos pais e comunidade de origem, que é quem ensina, desde crianças, que é feio mentir. Uma coisa é ser assassino, acontece, pode ser pontual, para a próxima tem-se mais cuidado; outra é ser aldrabão, um traço de carácter e uma fama de que já não nos livramos. Ao usar “suspeito” para evitar melindrar o matador, acabam por o ofender ainda mais. Não é por nada, mas suspeito que é uma estupidez.

A leveza com que se difama assim uma pessoa é assustadora. O homem devolveu a cabeça, descreveu os acontecimentos pré e pós decapitação, facultou a faca com que efectuou o desmanche . O que é que os jornalistas querem mais para deixar de lhe chamar, desdenhosamente, “o suspeito”? Que ele mostre um vídeo da execução? Aposto que, mesmo assim, vão torcer o nariz e dizer que foi feito por IA. Isto é gente que lê os Evangelhos e é capaz de dizer: “Suspeito que Herodes mandou cortar a cabeça a João Baptista”.

O jornalismo português tem um prurido muito grande com suspeitas. Se um facto não for registado em papel de 25 linhas e assinado com certificação digital, é uma mera suspeição. E enquanto o certificado não liquidar o Imposto de Selo, é apenas uma alegação.

Como é evidente, há situações em que a falta de provas remete a uma cuidadosa utilização da expressão “suspeito”. Esta não é uma dessas situações: há provas, fornecidas pelo próprio aquando da confissão. Vejamos: se cheirar a queimado na rua, é possível dizer “suspeito que possa estar a haver um fogo”. É até sinal de alguma argúcia. Mas se o cheiro for no meio do incêndio de Pedrógão Grande, já não faz muito sentido. Geralmente, é de bom tom dar-se o benefício da dúvida. Neste caso, deu-se o prejuízo da dúvida.

Se me é permitido uma sugestão, julgo que do ponto de vista jornalístico era mais interessante que, em vez de pôr em causa a idoneidade do homicida, se dedicasse mais tempo a investigar as incertezas que subsistem e que têm um real impacto na comunidade. Falo, como é óbvio, do facto de ainda não se saber a marca da faca com que o magarefe improvisado fez o serviço. Cortar um pescoço humano requer uma lâmina robusta de aço temperado (de preferência de alto carbono, por exemplo o Sandvik 14C28N ou o 440C), com a rigidez apropriada, afiamento de precisão, peso adequado e bom balanço, pega ergonómica e anti-derrapante para melhor execução do corte. É impressionante a resistência das vértebras cervicais junto ao occipital. Mais: não são só os ossos, são também os músculos e tendões: é preciso não esquecer que a vítima conheceu o homicida através de uma aplicação de encontros gay, o que significa que, com grande probabilidade, era alguém que ia ao ginásio regularmente. Devia ter um cachaço poderoso. A indústria cuteleira portuguesa tem passado por grandes dificuldades, que começaram nos anos 90 com as televendas que impingiam as facas japonesas Ginsu, e precisavam de uma boa notícia. Para fazer face a facas que cortam botas de borracha como se fosse manteiga, nada melhor que facas que cortam pescoços como se fosse manteiga. É fundamental que a lâmina que decapitou a vítima seja da ICEL ou de algum dos vários fabricantes de grande qualidade que, felizmente, ainda abundam. A notícia que eu gostaria de ler é: “Faca usada em decapitação era portuguesa”. Se a deontologia vos impede, escrevam antes: “Suspeita-se que faca usada em decapitação era portuguesa”. O efeito é o mesmo.