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Evguenia Vassilieva ocupava o cargo de chefe do departamento de imobiliário do Ministério da Defesa da Rússia e, ao mesmo tempo, diz-se que mantinha uma relação amorosa com o então ministro Anatoli Serdiukov. Em 2012 foi detida e ficou em prisão prisão domiciliária por se ver envolvida num escândalo de corrupção com a venda de imobiliários pertencentes às Forças Armadas russas. Há poucos meses, em Maio de 2015, acabou condenada a cinco anos de prisão efectiva, tendo o tribunal provado que ela e os seus compinchas roubaram ao Estado cerca de 3 mil milhões de rublos (cerca de 800 milhões de euros segundo a cotação do euro em 2012).

Sucede que durante o período de prisão domiciliária, Vassilieva dedicava-se à poesia, a passear nas ruas da capital russa e a fazer compras nas suas lojas preferidas. Mesmo assim os cerca de dois anos e meio que passou na sua casa luxuosa do centro de Moscovo foram-lhe descontados da pena, mas não evitou ser enviada para uma prisão a algumas centenas de quilómetros da capital a fim de cumprir a restante condenação. Calma: passados apenas 34 dias foi libertada por “bom comportamento” e por ter sido sujeita a um tratamento “contra a avareza e falta de confiança interna no seu próprio valor como personalidade e como membro da sociedade”.

A libertação da beldade Evguenia foi de tal forma cínica e demonstrativa que levou Ella Pamfilova, comissária para os  Direitos Humanos junto do Presidente Putin, a comentar: “a divisão da investigação e da justiça em dois níveis, uma ‘para a elite’ e outra ‘para o restante povo’, mina o prestígio do sistema jurídico e de segurança, bem como a fé dos cidadãos do país na Justiça”.

Entretanto, o Tribunal Militar do Cáucaso do Norte condenou o realizador de cinema ucraniano, Oleg Sentsov, a 20 anos de prisão por “organização de atentados terroristas”. Sentsov foi acusado de incendiar a sede da Rússia Unida na Crimeia e de tencionar fazer explodir uma estátua de Vladimir Lénine, fundador da União Soviética.

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A acusação baseou-se em declarações de duas pessoas que foram acusadas de participar nos mesmos actos, mas que depois se retrataram desses testemunhos, afirmando que tinham sido conseguidas à custa de “pressões”, nomeadamente torturas. De nada valeram os protestos de organizações como a Amnistia Internacional ou de realizadores de cinema mundialmente famosos como Mike Leigh, Andrjei Wajda e até Nikita Mikhailkov, apoiante entusiasta de Putin e do seu regime.

Um outro caso foi o de Denis Lutzkevitch, condenado a três anos e meia de prisão por participar em “desordens” depois de uma manifestação organizada pela oposição russa em Maio de 2012. Com ele o tribunal recusou deixá-lo sair em liberdade condicional a três meses do fim da pena.

Estas sentenças evidenciam uma vez mais aspectos importantes da política do Presidente Putin. Primeiro, a luta contra a corrupção não passa de uma farsa para distrair atenções: o principal não é roubar, é ser fiel. A propósito, o antigo ministro da Defesa, sem a anuência do qual seria impossível roubar tanto dinheiro, já trabalha noutro organismo público, pois pertence ao clube dos amigos de São Peterburgo de Putin.

As outras duas sentenças são, por sua vez, mais um sinal claro de que o Kremlin não admite qualquer tipo de oposição e tenta, com esses e outros exemplos, criar um estado de medo na sociedade russa, o que está a conseguir com êxito.