Luís Montenegro chamou “populista juvenil” a André Ventura e “populista militarizado” a Henrique Gouveia e Melo. Pediu ativamente para que os eleitores da AD não votassem em António José Seguro e João Cotrim Figueiredo. Hugo Soares, o verdadeiro número dois do PSD, disse de António José Seguro que “foi o candidato do PS porque não havia mais nenhum”. Sugeriu que Cotrim andava a “brincar” às eleições. Também alegou que o almirante é uma “desilusão”, incapaz de afirmar “uma ideia”, mas especializado em lançar “lama para toda a gente”.
Paulo Rangel disse que João Cotrim Figueiredo não passa de uma “aventura liberal” e que Seguro e Gouveia Melo representavam um “voto em branco” porque ninguém sabe o que verdadeiramente pensam. Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado, referiu-se indiferenciadamente aos adversários de Luís Marques Mendes como candidatos a um mero “estágio” no Palácio de Belém.
Manuel Castro Almeida, ministro Adjunto e da Coesão Territorial, fez algo de semelhante e falou nos rivais do social-democratas como “vedetas” e candidatos do “experimentalismo”. Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e da Habitação, disse que todos os outros que não Mendes significam “improviso, barulho e ruído de Estado”. Nuno Melo, ministro da Defesa e líder de um partido que decidiu esperar até ao fim para lá se decidir por Mendes, não carregou tanto nos adjetivos, mas visou igualmente João Cotrim Figueiredo e André Ventura.
Todos os membros do Executivo que se juntaram à campanha de Mendes insistiram num ponto: qualquer outro Presidente que não o social-democrata é um perigo para a “estabilidade” do Governo. Como tal, devem ser combatidos e travados, sob pena de na Presidência da República haver alguém instável e irresponsável, capaz de “dissolver a Assembleia à segunda e convocar eleições à quinta, e depois dissolver passado um mês e convocar novas eleições”.
É um dilema difícil de resolver. Por um lado, é evidente que os ministros do atual Governo são, para todos os efeitos, as principais figuras da AD. É natural que Mendes precise deles como totens, como ativos eleitorais. Por outro lado, há uma questão que pode e deve ser colocada: e se Luís Marques Mendes não passar à segunda volta ou, mesmo passando, não ganhar as presidenciais? O que farão eles?
Em que termos, com que cara, com que lealdade institucional, é que o Governo, a começar pelo primeiro-ministro, conseguirá dialogar com um Presidente da República “populista juvenil” (Ventura), viciado em “lama” (Gouveia e Melo), um “aventureiro” que anda a “brincar” às eleições (Cotrim) ou alguém a quem não se conhece um único pensamento e que está a soldo do PS (Seguro)? Fica difícil imaginar.
Ninguém, nem mesmo um ministro ou um primeiro-ministro, pode ser condicionado na sua participação política. Acontece que uma coisa é aparecer em campanha para apoiar um determinado candidato; outra coisa é aparecer em campanha para atacar um adversário e dizer, basicamente, que não serve para Presidente da República. No dia seguinte, se o resultado não for aquele pelo qual legitimamente anseiam, continuarão a pertencer ao Governo ou a representar o PSD ao mais alto nível.
A menos que… A menos que a ameaça de instabilidade seja uma profecia à espera de ser concretizada. Mesmo que Luís Marques Mendes venha a vencer as presidenciais — e essa hipótese, apesar das tracking poll, continua bem viva — a matemática parlamentar não muda: depois do dia 8 de fevereiro, a AD continuará sem ter maioria parlamentar. E não há Presidente algum que possa governar pelo Governo, negociar pela oposição e votar para que a legislatura se cumpra pelos deputados.
Numa leitura mais cínica, a determinada altura, se o próximo Presidente da República for de facto uma “força de bloqueio” ao Governo, essa dialética muito própria até pode servir para que a AD venha a pedir a maioria absoluta que escapou nas últimas legislativas. Afinal, Montenegro já habituou todos a encontrar saídas para as situações mais difíceis. Bem vistas as coisas, não correu nada mal a Aníbal Cavaco Silva: também ele se atravessou por Freitas do Amaral; também ele viu o adversário que politicamente odiava vencer — Mário Soares; e também ele atingiu a maioria absoluta um ano depois.
São uns quantos passos à frente e todos no Governo estarão genuinamente empenhados na eleição de Marques Mendes, a saída mais fácil e mais evidente. Mas os ataques aos rivais têm sido tantos e tão intensos que começa a faltar margem de manobra para reagir a uma segunda volta que não conte com o social-democrata. Nesse cenário, será perfeitamente legítimo perguntar a Montenegro e companhia em quem votarão: preferem Seguro a Ventura? Ventura a Gouveia e Melo? Cotrim a Seguro? Vai ser difícil evitar uma situação embaraçosa se isso vier a acontecer. Aconselhava-se, por isso, uma outra prudência.