O Brasil vive um divórcio profundo. Não entre esquerda e direita — essa é uma simplificação antiga —, mas sim entre a elite política e a realidade da população. Esta semana, três sondagens distintas (Datafolha, Quaest e Atlas) pintaram o retrato de um país que já não se importa com as motivações dos seus líderes, apenas com os resultados.

O epicentro desta rutura é a segurança pública. E a corrida presidencial de 2026 será decidida por quem entender este facto.

Primeiro, o evento que expôs o nervo: a Operação Contenção no Rio de Janeiro. Esta semana, uma sondagem do Instituto Datafolha (divulgada a 11 de novembro) trouxe o dado mais paradoxal e revelador do Brasil moderno.

Facto 1: 79% dos moradores da cidade do Rio de Janeiro aprovaram a operação policial, que resultou em 121 mortos.

Facto 2: 53% (a maioria) acreditam que o Governador Cláudio Castro (de direita) agiu por “motivação política” — ou seja, por puro oportunismo para ganhar popularidade.

Estes dois dados, juntos, são uma bomba. O cidadão carioca está a dizer o seguinte: “Sim, eu sei que ele é um oportunista. E não, não me importo.”

A população, refém do crime organizado, chegou a um ponto de rutura em que prefere um governador “cínico” que age, a um idealista que se omite. O morador da favela, que a imprensa internacional e as ONGs pintam como vítima da polícia, já tinha dito (via sondagem do AtlasIntel) que 87% deles apoiavam a operação.

Agora, o Datafolha confirma que o cidadão não é ingénuo; ele é pragmático ao ponto do cinismo. Ele chancela (apoia) o oportunismo, desde que o resultado seja a ordem.

É aqui que entra o segundo ato do divórcio: o Governo Federal.

Enquanto 79% dos cariocas aplaudiam a ação, o Presidente Lula classificou-a, dias antes, como uma “matança” e “desastrosa”. A posição do seu governo foi a de criticar a operação, alinhando-se com a narrativa de que o problema era o método policial, e não o domínio territorial de fuzis (espingardas) em poder de criminosos.

O eleitorado parece ter notado o descompasso.

Uma nova sondagem Genial/Quaest, divulgada esta quarta-feira (12 de novembro), mostra que a desaprovação ao governo Lula subiu para 49%, empatando tecnicamente com os 50% de aprovação. Esta é a sua pior avaliação desde o início do mandato.

A mesma sondagem mostra que a área de “Segurança Pública” é uma das piores avaliadas da sua administração. É difícil não correlacionar: no exato momento em que o Presidente critica uma operação de segurança que a vasta maioria da população local (e nacional, segundo sondagens anteriores) apoia, a sua popularidade deteriora-se.

O divórcio é claro: o governo fala em “matança”, a população vê “ordem”.

Isto leva-nos ao terceiro ato: a corrida presidencial de 2026. A segurança pública deixou de ser um tema de nicho; tornou-se o campo de batalha central.

A mesma sondagem Quaest de ontem, e uma outra do Instituto AtlasIntel (divulgada em 13 de novembro), testaram cenários para 2026. Em ambos os levantamentos, o Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (um ex-ministro de Bolsonaro), vê a sua popularidade crescer e surge como o nome mais competitivo da direita para enfrentar Lula.

Porquê Tarcísio? Porque, tal como Cláudio Castro no Rio, ele baseia a sua plataforma política inteiramente na promessa de “ordem”, confronto e uso da força policial (com um programa de câmaras corporais muito contestado pela esquerda).

As novas sondagens mostram um eleitorado (o brasileiro) que pune o Presidente (Lula) por se opor a uma ação de força no Rio, ao mesmo tempo que recompensa os governadores (Castro e Tarcísio) que a promovem.

O Brasil de 2025 está a sinalizar, de forma clara, que a sua paciência com o crime acabou. E que, na ausência de soluções complexas, irá abraçar a solução mais simples e dura que lhe for oferecida. A esquerda brasileira, ao chamar os 79% de “fascistas” ou “enganados”, assina o seu divórcio da realidade. O oportunismo, no Brasil de hoje, parece ser a única política que gera resultados — tanto nas favelas como nas sondagens