O meu desejo não é falar sobre o que já se sabe. Que temos uma abstenção que tende para ganhar em maioria absoluta nos próximos anos, com uns estrondosos 44,1% nas legislativas de 2015, isso já se sabe. Que temos de controlar as faltas no parlamento – o nosso órgão representativo por excelência – porque os nossos representantes têm uma aparente macabra indiferença ante o seu papel de Deputados, isso também já se sabe. Que temos um ex-primeiro-ministro, ao lado de outros grandes nomes da sociedade portuguesa como Armando Vara, num julgamento com contornos milionários, também isso já se sabe.

Mas não é disso que procuro opinar.

Sem opinião inflamada, primeiro um par de factos:

  • Tivemos 25 debates presidenciais na televisão, nas eleições de 2016
  • O programa da Cristina já foi visitado pelo primeiro-ministro, por um dos maiores nomes da oposição, Assunção Cristas, e ainda arrecadou a proeza de receber um telefonema do Presidente da República no seu dia de estreia

Agora, com isso fora do caminho, o que descobri após pesquisar “Cristina Marcelo Populismo” foram 466.000 resultados em 0,32 segundos, entre os quais surgem questões como:

  • “A chamada do Presidente para Cristina Ferreira foi populista ou popularucha?” (Visão)
  • «Marcelo. Populista “fofinho”» (Vice)
  • «Marcelo é o maior populista que existe em Portugal» (Manuela Moura Guedes)

Por esta hora, já é sabido que foi a 7 de janeiro que o Presidente ligou em direito para a Cristina a dar-lhe os parabéns pelo programa.

Bem, mas também é caso para dizer que a 16 de janeiro, Assunção Cristas foi fazer arroz de atum ao mesmo programa. Já menos comentários a pairar, além de uns ruídos mais à esquerda do hemiciclo.

Contudo, o facto é que, a 5 de março, um rosto mais próximo do lado ruidoso do hemiciclo decidiu ir pelo mesmo caminho, e seria o próprio chefe do Governo; e agora, além de uns sumários comentários sobre quem cozinhou melhor ou pior o arroz ou a cataplana, respetivamente, o populismo fantasma deixou de esvoaçar pelas bocas das opiniões mais inflamadas.

E para quê a referência anterior aos 25 debates presidenciais na televisão?

Por mero rigor estatístico, vem a preceito falar dos 745 mil espectadores de António Costa no programa de Cristina, assim como dos 493 mil de Assunção Cristas. Ou seja:

  • Ainda 10 debates presidenciais ultrapassaram as visualizações de Assunção Cristas a fazer arroz de atum
  • Apenas 3 debates presidenciais ultrapassaram as visualizações de António Costa e da sua cataplana de peixe

Mas a questão não se resume a tempo de antena na cozinha – e aí é que os contornos disto ficam mais complexos. A verdadeira questão são artigos como o da Flash: “Primeiro-Ministro dá resposta a Assunção Cristas na cozinha de Cristina Ferreira”. Mais do que isso, são as menções no Público, no i e no Observador sobre os comentários oportunos de Fernanda Tadeu acerca da libertação da mulher (que não foram ao acaso) e acerca das repostas de António Costa à questão dos donativos a Pedrogão, em plena reality TV.

Podem até pretender negligenciar o impacto político disto tudo, mas foi assim que, em menos de dois meses, voámos desde uma chamada presidencial “populista ou popularucha” até uma visita do executivo, uma cataplana e alguns comentários seus de teor político e de amplo alcance. O “fantasma do populismo”, seja lá o que isso for, deve-se ter dissolvido.

Agora, como disse, não é de mim fazer uma opinião inflamada sobre o rumo das coisas, até porque já há muita gente a fazer isso; mas não consigo evitar um certo sentimento de confusão. Se todos os meus adversários vão à reality TV ter tempo de antena, falar sobre política e cozinhar com a Cristina, eu só tenho a perder a não fazer isso, certo? Se não for, menos audiências tenho, e mais me afeta a abstenção, correto?

Com essa nota, e embora tenha um certo desejo de ver Rui Rio a preparar uma francesinha ou Jerónimo de Sousa a preparar um goulash com um avental da Cristina, não foi isto, creio, que o constituinte planeou ao garantir constitucionalmente aos partidos políticos “tempo de antena no serviço público de rádio e de televisão”.

Quais são os limites da propaganda política? A dois meses de eleições europeias, devíamos estar num cenário em que julgamos os nossos representantes pela qualidade do que cozinham? Devia o programa da Cristina estar constitucionalmente previsto? A estas duas últimas, talvez não. Já os limites não deixam de ser uma questão a pensar.

Pois, no fundo, a política é o que vamos fazendo dela.