O regime autoritário do Estado Novo, montado pelo António de Oliveira Salazar, era fascista e da esquerda. A origem etimológica de “fascismo” é fasci, ou feixe de trabalhadores. E o que é um feixe de trabalhadores? Um sindicato. E não é que as raízes genealógicas do fascismo residem no socialismo italiano? O socialismo marxista prega a luta das classes e a defesa do proletariado.

Já Marcello Caetano defendia as iniciativas legislativas para proteger os trabalhadores contra a suposta concorrência desvairada introduzida pela industrialização, escrevendo: “O Estado liberal considerava as relações de trabalho questão de interesse privado. Foi mérito dos primeiros socialistas – e dos primeiros católicos-sociais – mostrar que não era assim; é que não podia nem devia o poder público alhear-se dos problemas do mundo do trabalho” (p. 125, Depoimento). Uma citação que irá chocar os progressistas que leem isto.

Tanto na Itália como em Portugal havia centenas de sindicatos e grémios, muitas vezes obrigatórios, aglomerados em federações e uniões representando várias profissões, indústrias e ofícios, cuja função era supervisionada por corporações, arbitradas, em última instância, pelo governo para fomentar a harmonização entre o trabalho e o capital. Por harmonização, quero dizer homogeneização, já que toda a produção nacional era regulada pelo estado.

Na Itália, uma organização corporativista foi construída ao longo dessas linhas também, o que não é surpreendente, dada a influência da Carta del Lavoro (a carta do trabalho) no Estatuto Nacional do Trabalho (1933), que garantia o salário mínimo, limitava as horas de trabalho, concedia férias totalmente pagas, todas ideias tão caras aos igualitaristas de hoje. Então, a grande questão é: o Estado Novo era fascista? Sim, e também socialista, que explicarei – mas anticomunista.

O peso do Estado na economia era menor em 1974 do que é hoje? Inequivocamente, sim. Mas os tentáculos do estado também se estenderam com as governanças de Salazar e Caetano. O Estado possuía uma participação maioritária em todas as empresas de refinaria e em múltiplos bancos (na prática “nacionalizar” o setor bancário e a petrolífera), controlar a TAP e os Comboios de Portugal, a energia e distribuição através da Companhia Nacional de Eletricidade; a manutenção de estradas, portos e aeroportos; impor controlo de preços sobre bens essenciais e congelar rendas em Lisboa e Porto – um sonho utópico com o qual Mortágua e Rui Tavares babam.

Fazer uma comparação entre o maior e o menor mal é irrelevante, porque o povo é sempre oprimido por taxas e teias burocráticas. Em Portugal, a liberdade é relativa, não absoluta.

Como é então que a casta intelectual tem negligenciado o seu dever de educar as futuras gerações? Contudo, a sua perversão da educação distorce o mais elementar ensino dos factos históricos e objetivos sobre a ditadura. E este artigo constitui um pequeno documento escrito que não recebeu subsídios, produzido com recursos limitados, envergonhando todos os professores doutrinadores da evangélica vermelha.

Já antes de 1974, Portugal tinha planeamento económico, com duas influências importantes destacadas por Marcello Caetano:

  1. União Soviética – a pátria do marxismo;
  2. John Maynard Keynes – o apóstolo do défice público e da inflação.

Os democratas ampliaram o controle económico que o Estado tinha, mantendo e exacerbando problemas existentes. No entanto, o planeamento central está para além da engenhosidade humana. O que deve ser sempre lembrado também é a convergência entre os ensinamentos sociais da igreja e o socialismo democrático; veja-se a homenagem centenária de Mário Soares a Padre Américo Monteiro de Aguiar e a sua luta contra a pobreza pela solidariedade comunal (novamente, o foco está na coletividade do grupo para redistribuir riqueza de forma coerciva).

Por isso, os fascistas não estão no CHEGA, eles residem nos mosteiros secularizados do PS, Bloco, Livre e, acima de tudo, no Partido Comunista, nos sindicatos politicamente conectados da CGT e UGT. Nós vivemos na nova Idade Média. A maior parte do Parlamento está cheia de partidos autoritários e de tendências fascistas, então não deveriam, por princípio, ser ilegalizados pelo artigo 37 da Constituição? Sim, e o povo português ficaria muito grato com essa medida.