Não terá a escola, desde sempre, estimulado a inteligência artificial, quando foi supondo que as crianças aprendiam do zero, da parte para o todo, da mesma forma e à mesma velocidade, dum modo sobretudo repetitivo e reproduzindo conhecimentos duma maneira mais ou menos mecânica?

Não continuará a escola a reproduzir estes vícios de forma quando avalia, ajudando a criar a ideia que melhores notas são, por inerência, mais inteligência (mesmo quando algumas delas têm pó de arroz, nem sempre correspondem a mais sabedoria ou à competência de pensar um conhecimento e ao engenho de o tornar mais simples e mais útil)?

E não estará a escola a ser displicente com práticas generalizadas dessa inteligência artificial através do copiar digital, quando o livro se vai tornando obsoleto e, duma turma para a outra, se fotografa um teste, e ele se partilha com outros colegas e, no entretanto, se põe a verdadeira inteligência artificial a “resolvê-lo”, de modo igual? E quando os trabalhos – individuais ou de grupo – são feitos por ela, sem que ninguém se perca entre conhecimentos que “não encaixam” e sem que, de síntese em síntese, se realize uma aprendizagem que contribua para a construção de algoritmos pessoais, únicos e irrepetíveis, com que, à parte das notas, se veja mais longe?

A inteligência artificial está, felizmente, a interpelar-nos para a necessidade de conversarmos sobre a inteligência. Inteligência requer memória e atenção. Mas, também, sensibilidade, intuição, afectividade e criatividade. Inteligência pressupõe juntar conhecimentos, discorrer sobre eles, olhá-los em perspectiva mas, também, transformá-los em dúvidas e em perguntas. Inteligência pressupõe conviver com o erro, com a frustração e com a paciência. Inteligência requer que se vá do conhecimento à palavra e que, de forma simples, cada coisa que se aprenda se transforme numa história que se conte. Inteligência pressupõe o sonho e a fantasia. O brincar e a ironia. A autonomia, a empatia e a escuta. O trabalho de grupo e a “solidão criativa”. A surpresa e o espanto. A pluralidade e a bondade. Inteligência pressupõe a amabilidade e a simpatia. A humildade, o espanto e a surpresa. A construção da beleza. Com o espaço, o tempo, o movimento e a história a conviver em nós. A capacidade de interpelar o sentido daquilo que somos. E a audácia de procurar um caminho para sermos melhores.

Talvez a inteligência artificial nos convide a perceber que, com os recursos que temos, fazemos inúmeras coisas melhor que ela. E talvez a escola, com o seu auxílio, reabilite a inteligência e a discuta sem medo. E, de erro em erro, a reinvente e a torne maior.