Assistimos atualmente a uma possibilidade real de transição perigosa,  fortemente capaz de fazer abalar os alicerces que ao longo do século XXI e da  segunda metade do que a este antecedeu têm sustentado a ordem internacional.

Essa ordem internacional liberal, construída a partir do pós Segunda Guerra  Mundial, e que assistiu ao seu apogeu no pós Guerra Fria (Fukuyama chegou a  proclamá-la como o “fim da história”) começa a ceder sob o peso da sua própria  complacência e da ascensão metódica de potências autoritárias.

Um certo eixo que desafia os valores ocidentais demoliberais, marcado pela  agressividade sistemática, não esconde a sua intenção. Aproveitando uma certa  decadência dos principais líderes da ordem internacional liberal, nomeadamente  os Estados Unidos da América e uma União Europeia complacente, Rússia, China,  Irão e Coreia do Norte procuram desconstruir o edifício demoliberal que há décadas  sustenta a paz, a cooperação e a liberdade no sistema internacional. Este é um  avanço claro e preocupante que obriga a uma reflexão responsável e séria do  mundo ocidental liberal.

A ascensão metódica deste eixo tem como base a reintrodução da guerra  como instrumento de um tipo de diplomacia, de coação e de fortalecimento do  poder. Na Ucrânia, não está apenas em jogo a integridade territorial de um Estado  soberano, estando mais profundamente em causa o princípio de que as fronteiras  não se definem pela força, mas sim pelo respeito mútuo e pela cooperação  multilateral. Este é um conjunto de países que deixa evidente a sua pretensão de  reintroduzir na base da ordem internacional a lógica da força como fator  determinante do poder.

De forma eficaz, a China aprendeu com os erros cometidos pelos soviéticos  do século passado, que na tentativa de corromper a ordem internacional liberal  nascida no pós segunda guerra mundial, se corromperam a si por dentro,  derrotados pela imponente força demoliberal. Ao contrário da União Soviética, a  China não assume uma postura radical de oposição à ordem atual. Infiltra-se, adaptando-se consoante a geografia da sua intervenção, procurando moldar o  sistema por dentro, a seu favor, qual lobo em pele de cordeiro. Em África,  aproveitando-se do vazio de liderança que hoje caracteriza o frágil Ocidente, a  China envia milhões em investimentos estratégicos, instala bases militares e  cultiva dependência, tudo sob o disfarce de cooperação.

Imprevisíveis, mas profundamente eficazes na desestabilização, tanto o  Irão, envolto em misteriosos programas nucleares e, mais recentemente, num  conflito armado direto com Israel, como a Coreia do Norte, profundamente  militarizada, não obstante as fragilidades de formação do seu exército, como ficou demonstrado com o envio de tropas para a Ucrânia, afiguram-se como potenciais  mobilizadores de uma força realista pura e dura contra os alicerces da ordem liberal  internacional.

A força demoliberal parece ter-se esvoaçado com o tempo, e com os erros  repetidos sem qualquer respeito por aqueles que com eles sofreram no passado.

Vivemos num tempo em que os cenários alarmantes se tornam cada vez  mais próximos da realidade. Do lado das democracias liberais, é agora  absolutamente indispensável que assumam uma força inabalável na defesa dos  valores ameaçados, aprendendo com os erros do passado que permitiram os  avanços a que hoje assistimos, envoltos numa impunidade internacional quase  humilhante.

No entanto, os sinais são preocupantes. Como se não bastasse o avanço  muito pouco desejável dos autoritarismos agressivos, os recuos das democracias  liberais são quase evidentes. Os Estados Unidos, sob a presidência de Donald  Trump, iniciaram um processo de desinvestimento ideológico no papel de  guardiões da ordem internacional. O isolacionismo não é uma anomalia  momentânea, mas sim o reflexo da fadiga que se espalhou pela sociedade  americana e que ameaça transformar-se em doutrina permanente, expandindo-se pelo mundo e, de forma quase natural e incontestada, pela Europa.

Seria expectável que num vazio de liderança que se cria, a União Europeia se afirmasse como garante da ordem liberal. A realidade é, no entanto, diferente.

Nas últimas décadas a União foi conduzida no sentido errado, tornando-se uma  espécie de super agência regulatória e burocrática, mais preocupada com a  elaboração de diretivas sobre aquecedores do que propriamente em influenciar de  forma direta o xadrez global. Fosse Bruxelas tão rápida a tomar decisões e avançar  no sentido da sua autonomia, por exemplo, energética face aos russos, como o é  em elaborar regulações para tudo o que se move, e provavelmente os sinais seriam  mais animadores. Infelizmente, o caminho escolhido foi outro.

O Liberalismo já provou no passado, sob a liderança de pulsos firmes de  líderes intransigentes na defesa de valores inegociáveis, saber manter-se firme,  adaptando-se aos desafios e, acima de tudo, oferecendo sempre uma visão  gloriosa e vitoriosa perante a ascensão de regimes totalitários e autoritários, do  nazismo, do fascismo e do comunismo. Pelos líderes liberais do passado, a  liberdade individual, a dignidade humana, o Estado de Direito, a democracia, nunca  foram valores negociados ou relativizados. Foram, sobretudo, honrados e  defendidos, protegidos com convicção.

Hoje, o Ocidente parece mais frágil, hesitante e, por vezes, envergonhado da  sua própria herança moral e política. No entanto, seria um erro fatal ceder ao  pessimismo. O Liberalismo, mais do que um sistema político, é uma ideia gloriosa,  universal, profundamente enraizada na essência do ser humano. Mesmo  momentaneamente ameaçada, jamais será extinta. Onde existir alguém que deseje  ser livre, haverá sempre Liberalismo. E isso, por si só, é suficiente para alimentar  uma esperança realista e firme num futuro livre e próspero.