Quando se fala em constante evolução do mundo global, não se fala somente na  mudança de ações políticas e paradigmas políticos de década em década ou de século em  século. O mundo global criou uma condição de mudança global instantânea, e a vitória  de Donald Trump, atrelada às suas esperadas consequências, é mais uma prova disso.

Com a mudança de poder na Casa Branca, os Estados Unidos da América estão  no centro das atenções. Em particular, Donald Trump e os seus fiéis seguidores estão no  centro das atenções, especialmente no que diz respeito à guerra na Ucrânia, que se arrasta há praticamente três anos.

Ainda antes das últimas eleições norte-americanas de 2024, o candidato  republicano à casa branca havia afirmado que acabaria com a guerra na Ucrânia em 24  horas, com um simples telefonema. Assumido o cargo, a conversa rapidamente mudou e  o prazo aumentou para os primeiros 100 dias do mandato, que também pareceram pouco  ao agora eleito presidente norte-americano, que passou a ver como necessários os  primeiros seis meses para pôr termo ao conflito no leste do território europeu. Disfarçando  a sua realpolitik no argumento de pôr termo às mortes na guerra, Donald Trump procura,  também aqui, uma forma de fortalecer os Estados Unidos da América e os seus interesses  na região. Para tal, já assumiu publicamente que a Ucrânia tem em falta o pagamento de  uma pequena “tarifa” que ronda os 500B US$, pagos através da exploração de terras raras em território ucraniano por parte dos norte-americanos.

Não é difícil perceber a razão pela qual o presidente norte-americano assume um  interesse estratégico nas terras raras ucranianas. 80% dos materiais raros usados na  indústria tecnológica pelos EUA são oriundos da China, o rival comercial dos norte americanos. O raciocínio de Donald Trump ter-lhe-á permitido concluir que a afirmação  do poder comercial norte-americano em detrimento dos chineses nunca poderá ser levado  avante quando prolongada e inalterada a dependência face aos rivais comerciais. Quanto  a Volodymyr Zelensky, é de lamentar a infeliz situação em que está o líder ucraniano. Os  russos invadem a Ucrânia na frente de leste, enquanto Donald Trump parece querer  transformar a dependência ucraniana do apoio ocidental numa oportunidade de afirmação de poder para os Estados Unidos, ao se tornar cada vez mais inequívoco afirmar que o  presidente norte-americano não está minimamente preocupado com a Ucrânia e a sua  independência e soberania, tampouco com a proteção das democracias ocidentais perante  o avanço das ditaduras inimigas da liberdade e dos direitos humanos. Com um presidente  norte-americano mais preocupado em garantir benefícios próprios do que em sustentar  uma defesa incondicional da Ucrânia contra um inimigo global das democracias liberais  ocidentais, Zelensky vê-se encurralado entre a agressão militar russa e as exigências  estratégicas de Washington. Trump não quer uma paz a qualquer custo, como se tem  ouvido. Trump quer uma paz que traga benefícios aos Estados Unidos da América. É esse  o seu único interesse.

A perspetiva de paz para o conflito em território ucraniano não deixa de ser uma  paz injusta e questionável. Pete Hegseth, Secretário de Defesa dos Estados Unidos,  deixou claro que pensar no regresso da Ucrânia às fronteiras de 2014, antes da invasão da  Crimeia pela Rússia, é um cenário irrealista. No seguimento destas afirmações, não só se  me parece indispensável refletir sobre quais seriam os territórios que os norte-americanos  cederiam de bom grado em caso de invasão do seu território, como é justo constatar que,  nas condições de paz que a administração Trump procura impor, não são as fronteiras  ucranianas pré-2014 que se tornam irrealistas de alcançar, mas sim as fronteiras de 2022.  A Ucrânia sai de um possível acordo de paz com a sua soberania cada vez mais  fragilizada, ao perder território atualmente ocupado que Putin não admite ceder, como  forma de acabar com a guerra, e ao ouvir Donald Trump afirmar que a entrada na NATO  não é uma realidade “prática”. Assim, a Ucrânia não só volta à estaca zero, sem uma  garantia de defesa futura perante as ambições imperialistas de Putin, como sai derrotada  e fragilizada do conflito.

É claro que a paz deve ser o objetivo final de qualquer guerra, mas não é por acaso  que alcançar a paz é sempre tão complexo em qualquer conflito entre países. Mais do que  estabelecer acordos de paz para a guerra da Ucrânia, importa que a paz alcançada seja  uma paz justa. Recorde-se o ano de 1938, não tão longínquo em termos de análise  histórica, aquando do Acordo de Munique, em que as potências europeias da época concordaram com a anexação da região dos Sudetas por parte da Alemanha Nazi. O  objetivo do acordo por parte da França e da Inglaterra foi precisamente o de manter a paz,  impedindo Adolf Hitler de começar uma guerra na Europa, poucas décadas depois do fim  da primeira grande guerra. A 1 de setembro de 1939, a Alemanha Nazi, liderada precisamente por Adolf Hitler, invade a Polónia, dando início a uma das guerras mais  devastadores da história, resultando em dezenas de milhões de mortos associados ao  conflito.

O conhecimento da história desempenha um papel fundamental para que os erros  cometidos no passado não voltem a ser cometidos no presente, sob prejuízo do futuro não  ser em perspetiva melhor do que aquilo que vivemos no passado. Tal como Adolf Hitler em 1938, Vladimir Putin está somente a jogar com o tempo, não se importando de adiar  os seus objetivos por uns anos para suceder por fim quando Trump abandonar as funções  de presidente. Ao contrário do que acontece nas democracias ocidentais, Vladimir Putin  está perpetuado no poder, e cuidadosamente tratado para durar ainda bons anos à frente  da federação russa. Daqui a 4 anos, Donald Trump cessará funções, e Vladimir Putin terá  novamente uma oportunidade não só de voltar a atacar, mas de voltar mais forte,  aproveitando esta “paz” para assegurar o fortalecimento das capacidades armamentistas  russas para a sua próxima investida. Pensemos, por isso, no que será da Europa, que  durante anos se focou nas questões erradas (mas isso daria tema para todo um outro artigo) quando Putin perceber que pela frente nada mais tem que uma autoestrada livre de  portagens.

Não ter em especial atenção e tratamento as ações e as ambições de Vladimir Putin  no passado trouxe-nos até onde estamos hoje. A inércia dos membros da União Europeia  e da NATO ao acolher a Ucrânia nos seus órgãos, perante condições excecionais em que  os ucranianos se viam ameaçados por uma possível invasão russa, que se veio a  concretizar, trouxeram-nos até um ponto em que o mundo, e em especial o desfecho do  conflito em si, está dependente de um lunático focado única e exclusivamente no  pragmatismo das ações políticas e nos interesses americanos, mesmo que para isso a  Ucrânia fique entregue às vontades de Putin.

Resta, por último, refletir sobre o papel da União Europeia no desfecho do conflito  e na conjuntura que dele resultar, e a resposta que os parceiros europeus possam vir a dar  perante uma descredibilização da NATO por parte do seu maior financiador.

Primeiramente, importa recordar que a NATO, desde a sua criação, tem sido o  garante de paz, estabilidade e segurança dos países parceiros relativamente a possíveis  ameaças. Países membros da NATO são países mais seguros. Prova disso foi a prioridade  dada por parte do mais recente país membro da NATO, a Finlândia, em aderir à organização, como forma de assegurar a paz, num contexto de insegurança, com longos  quilómetros de fronteiras compartilhadas com a Rússia de Putin, potência invasora e  causadora de instabilidade no leste europeu.

No entanto, o papel da NATO está a ser enfraquecido pela administração de  Trump. O presidente norte-americano já várias vezes se manifestou em desacordo para  com a dependência dos países da NATO face ao investimento norte-americano, tendo  recentemente, num discurso por videoconferência aquando do Fórum Económico  Mundial em Davos, referido que no seu segundo mandato não pretende abrandar a  posição também face ao investimento em defesa, ao realçar que os parceiros europeus da  NATO devem rapidamente aumentar para 5% os investimentos em defesa. Embora Trump  seja imprevisível e seja um grande desafio desvendar a veracidade das suas afirmações,  importa recordar que em agosto de 2024, ainda em campanha eleitoral, Donald Trump  prometeu tirar os Estados Unidos da América da NATO se os aliados não aumentassem a  despesa em defesa.

Perante este cenário, ainda que para bem do debate seja preferível não assumir  posições sem antes ser debatido o assunto de forma séria e longe de populismos, importa  refletir sobre o papel da União Europeia e a força que os seus estados-membros poderão  juntos representar.

Em 2023, Emmanuel Macron, presidente francês, afirmou, e bem, que “A Europa  não pode seguir cegamente os Estados Unidos da América”, fazendo de forma implícita  referência ao projeto lançado já na década de 50 do século passado, pelo general Charles  De Gaulle, que nunca se chegou a concretizar: a criação de um exército europeu comum.

Perante a clara descredibilização do papel da NATO no cenário internacional, e o  isolacionismo de Donald Trump em questões ligadas à defesa, com a ameaça de fazer sair  os Estados Unidos da NATO, cabe aos estados-membros da União Europeia empenhados  na defesa das fronteiras do mundo livre, os 26 + 1 (A Hungria é um problema no seio da  UE), chegar a um consenso e avançar com uma solução prática e funcional na defesa dos  direitos dos cidadãos europeus. Em termos de investimento em defesa, são os Estados  Unidos que lideram o pódio. No entanto, os países europeus no seu conjunto gastam mais  em defesa do que a China, e mesmo com a guerra infligida pelos russos, os europeus no  total gastam mais em defesa do que a Rússia.

A criação de um exército europeu comum pode, de certa forma, representar uma  solução para uma União Europeia mais independente, capaz de se afirmar no cenário  global sem depender de decisões e investimentos externos. No entanto, não deixará de ser  um processo de discussão intenso, exigindo um consenso político e um equilíbrio entre  os interesses de mais de duas dezenas de estados-membros europeus.

Em última análise, a discussão sobre um exército europeu comum é um tema  complexo, mas visionário, que merece a atenção dos aliados europeus, com as crescentes  dúvidas em torno de organizações, acordos e da estabilidade global que até aqui foi tida  como certa e inquebrável, de forma ingénua, pelos líderes europeus ao longo das décadas,  num período histórico instável e de viragem nas abordagens dos líderes perante as  relações internacionais.