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O futuro é de quem o planeia /premium

Autor
  • Duarte Gouveia

Ao longo da nossa história temos tido uma enorme dificuldade em pensarmos onde queremos estar daqui a 20-30 anos e em fazer caminhar o país numa determinada direção. A ênfase nunca é no longo-prazo.

Ralph Waldo Emerson escreveu que os homens fracos acreditam na sorte, mas que homens fortes se regem pela causa e efeito. O sucesso tanto dos homens como de países não é o resultado da arbitrariedade, mas sim de fatores e de uma organização da sociedade que é definida por todos e por cada um.

No brilhante Porque falham as Nações, Acemoglu e Robinson deitaram definitivamente por terra a crença popular de que a riqueza e o sucesso dos países são resultado das suas circunstâncias geográficas, ambientais, da existência de recursos naturais ou mesmo das características genéticas dos seus cidadãos. São inúmeros os contraexemplos que desfazem esta teoria, como Singapura vs. Malásia; EUA (Novo México) vs. México; Chile vs. Bolívia, ou mesmo o gritante caso da Coreia do Sul vs. Coreia do Norte. Isto apenas prova que o sucesso não é uma questão de acaso, mas de como vivemos, de como nos organizamos e de como planeamos o futuro.

Se por um lado esta verdade nua e crua nos põe o enorme peso da responsabilidade dos nossos sucessos e insucessos sobre os ombros, por outro, dá-nos a esperança de que nada está fora do nosso alcance.

Quando olhamos para o caso da Europa, podemos pegar nas palavras do entrepreneur e investidor Peter Thiel e dizermos que o velho continente vive hoje um sentimento de pessimismo indefinido. Indefinido, porque ninguém tem a menor ideia para onde quer ir; pessimismo, porque assumimos que o melhor já passou e, façamos o que fizermos, “fica tudo na mesma”, por isso mais vale meter umas férias, ver futebol ou ir para a praia em dia de eleições.

Em Portugal, o problema da falta de planeamento não é uma novidade. Ao longo da nossa história temos tido uma enorme dificuldade em pensarmos onde queremos estar daqui a 20-30 anos e em fazer caminhar o país numa determinada direção. O modelo de desenvolvimento muda consoante as modas ou as cores políticas e desta forma torna-se difícil obter uma vantagem competitiva, sólida e duradoura, que permita diferenciarmo-nos e singrar. Somos vítimas das circunstâncias, sejam elas boas ou más e tentamos apenas sobreviver, reagindo, se possível a tempo, sempre que algo ameaça piorar.

A ênfase nunca é sobre o longo-prazo. Dos políticos à comunicação social, desperdiçamos o nosso tempo em discussões sobre se o défice ou o crescimento são 0.1% acima ou 0.2% abaixo. Sem querer parafrasear o Professor Eduardo Catroga, isso não é o “cerne” da questão, nem o que realmente irá diferenciar se os nossos filhos e netos vão viver ao nível da Suíça ou se ao nível do Burundi. A performance dos países analisa-se em função de horizontes temporais alargados e o que conta é a tendência de desenvolvimento ao longo de décadas, pois é essa que mostra o sucesso ou insucesso de como estruturamos Portugal.

Não é fácil descortinarmos que futuro ambicionamos para o nosso país. Será que o nosso foco foi sempre sermos um país turístico? Efetivamente 13% do nosso PIB vem actualmente deste sector, mas é difícil acreditar que tal tenha alguma vez sido planeado, quando o aeroporto da nossa capital se encontra no meio da cidade, transportou 29 milhões de passageiros em 2018 utilizando apenas uma pista e foi recentemente considerado o pior do mundo.

Ou será que o futuro está na economia do mar e é nele que devemos investir? Portugal tem uma longa tradição marítima e vai passar a deter a 10ª maior zona exclusiva do planeta, com cerca de 4 milhões de quilómetros quadrados. Contudo, isto também não aparenta ser fruto de um plano nacional pré-estruturado. Até há pouco tempo, Portugal tinha apenas 2 porta-contentores com o seu pavilhão e projectos portuários essenciais para o desenvolvimento do país são recebidos com cepticismo e protesto que nos atrasam e ameaçam colocar fora das grandes rotas de comércio internacional.

Ou será Portugal um país de start-ups tecnológicas? Ou de imobiliário para reformados “ricos”? Ou… Enfim.

O melhor será talvez assumirmos que enquanto país, tal como é escrito por Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas, se não sabemos para onde queremos ir, é indiferente que caminho escolhemos ou dizemos que vamos escolher.

E o problema da incapacidade em definir e seguir um rumo não parece estar a melhorar. Um pouco por todo o mundo desenvolvido, a “geração millennial” encara a vida com uma visão de curto-prazo e com incerteza em relação ao futuro. Foca-se em “experiências”, no aqui e agora, porque o futuro é incerto e também não interessa. A moda tornou-se rápida, a política instantânea e a maneira como comunicamos através das redes sociais incide sobre as 24 horas do presente. Os “millennials” são encorajados a tornarem-se polivalentes, a fazerem actividades extracurriculares, a terem experiências diversas e a prepararem-se para um futuro incerto. Assim, venha o que vier, eles estão profundamente preparados – para nada em particular.

Um dia abri um jornal em Singapura e fiquei estupefacto com o nível de detalhe de um caderno que apresentava os objetivos do país para os próximos dez anos na área do tráfego aéreo, da logística marítima e da competitividade no comércio internacional, com números e metas específicas a atingir. Se calhar a comparação é injusta, mas não deixa de ser importante constatar que países como Singapura, Noruega, Suíça, ou Japão, que se regem por critérios de planeamento e de desenvolvimento bem delineados, são dos mais bem sucedidos a nível mundial.

Está na altura de pormos as nossas divergências internas de lado e perguntarmos para onde queremos ir, todos, juntos, enquanto país. De outra forma, como diria Churchill, nunca chegaremos a lado nenhum, porque continuaremos sempre a atirar pedras a todos os cães que ladram.

Duarte Gouveia é licenciado em Economia pelo Nova School of Business and Economics e Mestre em Gestão pelo Imperial College London. Trabalhou no Grupo Alibaba em Singapura e foi Blue Book da Comissão Europeia em Bruxelas. Hoje é administrador de empresas nas áreas de gestão de activos, indústria automóvel, construção marítima e turismo.

 O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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