Terminada mais uma edição da Web Summit, tida como um dos eventos tecnológicos mais importantes a nível mundial, aproveita-se esta ocasião para chamar a atenção para um outro país, o Portugal real.

Segundo o Professor Klaus Schwab, fundador do World Economic Forum (WEF), o mundo atravessou três revoluções industriais: a primeira entre 1760 e 1840, impulsionada pela invenção e massificação do uso do motor a vapor; a segunda que se prolongou entre o final do século XIX e o princípio do século XX, caracterizada pela invenção da eletricidade e implementação de linhas de montagem; e a revolução digital, a terceira, que surgiu com os processadores e o uso generalizado de computadores, desde a década de sessenta do século passado até ao início deste século. De acordo com o WEF estamos agora a entrar na chamada quarta revolução industrial. Esta, irá caracterizar-se pela utilização massiva de plataformas de internet móvel, pela inteligência artificial e pela análise de grandes volumes de dados de maneira a melhorar o desempenho económico.

Assim, se por um lado é de louvar o esforço das inúmeras empresas e Governos na promoção destes eventos, por outro, é relevante assinalar que tentarmos dar o salto para a versão beta da economia 4.0 sem termos instalado correctamente as versões anteriores pode não ser a melhor solução para evitar eventuais crashes da nossa máquina económica.

Entenda-se que este não é, de todo, um ataque a estes novos meios produtivos, até porque o avanço tecnológico deve ser sempre bem acolhido. Pretende-se sim, chamar a atenção para as verdadeiras causas da prosperidade das sociedades a nível internacional, sugerindo seguir o seu modelo para a criação de um Portugal mais rico.

Ora veja-se. Ao olharmos para os Estados Unidos da América, a economia mais avançada do planeta, notamos que, apesar de todos os biliões investidos em novas tecnologias, seja em Houston ou em Silicon Valley, o maior contribuidor para o seu PIB ainda é o tradicional Real Estate and rental and leasing que, no primeiro semestre de 2019, perfez 13.4% do produto. Numa análise de riqueza relativa, o primeiro lugar vai para o Luxemburgo dominado por serviços financeiros e governamentais, seguido da Suíça, com uma economia tradicional alicerçada em indústrias como a mineira, a produção alimentar, a engenharia, a farmacêutica, a relojoaria, entre outras. Ou seja, as economias mais ricas ainda são maioritariamente impulsionadas por “businesses as usual”.

Nos últimos dois séculos e meio, Portugal nunca se apaixonou verdadeiramente por esta economia real. Tenha sido pela aversão ao protestantismo, pelo medo que Salazar tinha de fábricas – que com elas vinham os sindicatos e a maré vermelha – ou na perseguição no pós-25 de Abril aos detentores dos meios de produção, da esquerda revolucionária à direita conservadora, em Portugal nunca se apreciou muito a indústria, as fábricas, os capitalistas, a riqueza ou o desenvolvimento económico em geral.

Existiu alguma esperança numa possível aproximação a estes sectores tradicionais da economia com a explosão de empreendedorismo, fruto da crise que vivemos no início desta década, reflectido num espírito mais inovador dos jovens portugueses (muitos deles altamente qualificados); contudo, esta não se materializou já que estes novos empreendedores raramente se focaram nestes sectores tradicionais, como é o caso da da manufactura ou dos transportes e armazenagem. Desta forma, estes sectores vão continuar a envelhecer, a não evoluir, e a consequentemente perder competitividade face aos seus pares.

A realidade é que em Portugal não se consegue atrair talentos para sectores mais tradicionais, quanto mais pedir-lhes que invistam neles. Depois de obterem uma formação de excelência que lhes permite trabalhar em países com remunerações superiores, numa sucursal de uma multinacional de prestígio, ou mesmo fundarem uma start-up tecnológica que, apesar de disruptiva e vanguardista, pouca riqueza deixa na nossa sociedade, quem é que vai querer fundar uma fábrica, investir em escavadoras ou começar um estaleiro para fazer reparação naval?

A verdadeira riqueza de um país não se mede pelo número de iPhones que se vêem nas ruas, mas sim pelo número de camiões nas auto-estradas, de gruas no horizonte e de cargueiros que esperam à entrada dos portos para atracar.

A solução para esta falta de empenho no investimento na economia tradicional pode passar pela adoção através dos nossos atuais e futuros empresários, de um modelo de capitalismo italiano, à semelhança do Norte daquele país.

Isto é, empresas com estrutura accionista estável e focada no longo prazo, ao contrário do modelo anglo-saxónico que culturalmente nos é estranho e que é cada vez mais dominado por múltiplos de EBITDA e visões a sete anos.

Contudo, neste modelo societário que muitas vezes é de capitalismo familiar, que dificulta a meritocracia, deve-se, à semelhança de Itália, privilegiar a formação e as capacidades individuais na gestão, acima das ligações de sangue. Estas, aliadas à paixão, ênfase no crescimento de longo prazo e na investigação de novas técnicas produtivas, resultarão em produtos de alta qualidade que podem ser exportados para os quatro cantos do planeta.

Ou seja, uma solução para Portugal pode ter inspiração no sorpasso italiano, quando a nação transalpina, após ser assolada pelo caos provocado pelas Brigadas Vermelhas da década de setenta do século passado, se ergueu impulsionada por empresários da economia real, como Gianni Agnelli ou Leonardo del Vecchio, e ultrapassou Inglaterra como potência económica, tornando-se a quarta a nível global.

Mas para isso precisamos de empresários, novos ou velhos, que invistam no que realmente impulsiona o país como um todo, que pensem a longo prazo e que invistam em empresas que adicionem riqueza à economia nacional. Por fim, é também preciso uma sociedade que lhes reconheça mérito pelo sacrifício ao arriscarem o que é seu, em prol de algo que beneficia a todos. Só depois de sedimentarmos as primeiras revoluções industriais é que teremos as bases para implementarmos correctamente esta tão promissora quarta versão que se avizinha.

Duarte Gouveia é licenciado em Economia pela Nova School of Business and Economics e Mestre em Gestão pelo Imperial College London. Trabalhou no Grupo Alibaba em Singapura e foi Blue Book da Comissão Europeia em Bruxelas. Hoje é administrador de empresas nas áreas de gestão de activos, indústria automóvel, construção marítima e turismo. Juntou-se aos Global Shapers em 2018.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo sobre como os Global Shapers têm procurado melhorar a sociedade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.