Imagine-se um governo que morre de morte súbita. Não caiu num escândalo, nem foi derrubado por uma moção. Simplesmente…colapsou. Como um organismo velho que deixa de responder aos estímulos. Parou de respirar inovação, deixou de circular confiança e o coração da liderança, bateu pela última vez algures entre um anúncio vazio e uma promessa adiada.
A certidão de óbito foi assinada pela realidade. A causa: falência múltipla de credibilidade.
Não houve luto oficial. Só um suspiro colectivo: “Já era tempo,” disseram alguns.
Sucedeu-lhe, sem aviso prévio, o Governo dos Desconhecidos. Um novo executivo composto por gente que ninguém conhecia de lado nenhum. Sem pedigree político. Sem histórico de comícios. Sem carreira em debates da tv, comissões parlamentares de inquérito ou tiques de bancada do parlamento. Apenas seres humanos — veja-se o escândalo — todos com experiência empresarial e formação em gestão, economia e engenharia.
Os jornais entraram em colapso.
“Mas quem são?”, perguntavam, de microfone em punho e sobrancelha em arco.
“Como ousam ser ministros sem serem conhecidos?”
Ninguém sabia ao certo como tinham chegado ali. Apenas se soube que, entre os requisitos de entrada, constava:
• Experiência em liderar equipas reais.
• Saber o que é um P&L (Profit and Loss, ou seja, Demonstração de Resultados).
• Ter falhado e aprendido.
• E, de preferência, nunca ter citado Rousseau num debate televisivo.
O novo Primeiro-Ministro — ex-CEO de uma empresa industrial no interior do país — descia do eléctrico 28 que vinha de Campo de Ourique e entrava na Assembelia da República com uma mochila às costas e um caderno quadriculado.
“Viemos para executar”, disse, num tom que pareceu ofensivo a quem estava habituado a ver governos a falar em vez de fazer.
A Ministra da Justiça, a única jurista deste executivo, com anos de experiência a gerir litígios internacionais, começou por extinguir três departamentos redundantes e apresentou, em PowerPoint, um plano de metas com prazos e KPIs.
A da Educação trocou o discurso ideológico por uma frase simples:
“Vamos copiar o que funciona. E adaptar o que não funciona.”
Os sindicatos não sabiam onde morder.
A oposição dizia que “ninguém votou neles” — esquecendo-se que o país também não votara nos incompetentes que tinham acabado de falecer politicamente.
A imprensa teve de improvisar: começaram a entrevistar professores de faculdade e antigos colegas de MBA dos ministros, à procura de deslizes, festas com drogas e álcool em Erasmus ou opiniões pouco progressistas em fóruns de 2009.
Mas o povo?
O povo começou a notar coisas estranhas. Os serviços públicos respondiam a emails. Os processos administrativos estavam mais rápidos. Havia, estranhamente, um plano.
E, mais estranho ainda, alguém estava a executá-lo. E estas novas caras desconhecidas nunca tinham aparecido numa tv, em nenhum jornal, nem numa notícia sobre um escândalo de um jornal mais sensacionalista.
Não havia discursos inflamados, nem gestos teatrais.
A governação deixara de ser espectáculo — e começava a parecer… um trabalho.
E o país, habituado a circo, começava a experimentar a sobriedade da gestão.
Os desconhecidos não prometiam “mudar tudo”. Apenas mudar o que estivesse comprovadamente mal. E melhorar o que estivesse apenas mais ou menos. O objectivo?
Excelência silenciosa.
O tipo de coisa que, num país ruidoso, parece provocação.
Sim, o governo anterior morreu.
Mas talvez — só talvez — esse tenha sido o seu único acto verdadeiramente útil.
Porque ao cair, abriu espaço para uma nova geração.
Gente que não precisa de palcos, apenas de uma missão: governar como quem sabe o que está a fazer, tal e qual aqueles governantes, daquele longínquo norte da Europa.
E assim, num país habituado a aplausos por intenções e lágrimas por desastres, surgiu um novo medo colectivo: e se isto pegava? E se outros sectores começassem a seguir o exemplo? E se, um dia, o futebol fosse gerido por gente que percebe de futebol, os hospitais por quem já esteve numa urgência, e as câmaras municipais por quem sabe o preço de uma pá? Haveria revolta, claro. Porque a verdadeira tradição nacional não é o fado — é o improviso com pose de estratégia.