1. Não é fácil perceber qual será o estado de espírito do presidente da república recentemente eleito. Decorre essa dificuldade da opacidade natural dos espíritos, ruins de serem compreendidos fora dos corpos que os abrigam – e esta é uma advertência pertinente sobre a utilidade da matéria, no rescaldo de várias semanas em que predominaram fantasmas, foram vistos anjos e testemunhadas conversões milagrosas. Mas decorre também e sobretudo da particular habilidade do Dr. António José Seguro em esconder a profundidade do seu pensamento. Estará naturalmente feliz com a dimensão da sua vitória, um estado inevitável para quem adquiriu o hábito de se contentar com pouco. Sentir-se-á confuso, em algum momento, se o atingir a surpresa de ter chegado tão alto e tão longe, surpreendentemente ele, a meio de um carreira trilhada à custa de cargos de secretário e de adjunto a que apenas falta, agora e pela ordem natural das coisas, encimar-se com a glória de qualquer coisa na ONU. Num intervalo mais reflexivo há-de interrogar-se porque mereceu ser escolhido pelo General Eanes, que é um homem sério, e por Catarina Martins; eleito por Paulo Portas, que é um tipo inteligente, e por Paulo Raimundo; votado por Cecília Meireles, uma senhora de espírito brilhante, e por Agir. É possível que dessa reflexão, eventualmente ajudada por alguém que o estime com segundas intenções, resulte concluir que é grande e é bom – e nessa conclusão se conterá todo o triste contrário da grandeza e da bondade.

Para lá de tudo o que interessa ao Dr. Seguro e a todos os que o elegeram, a pátria protagoniza alguns factos bastante mais espantosos do que o Dr. Seguro ele próprio. Raramente num país democrático e desenvolvido – ou seja, Portugal, para que não existam dúvidas de identificação – acontece uma votação tão desequilibrada e tão despida, na aparência, de razões ideológicas.

Em 2021, Marcelo Rebelo de Sousa tinha contado com o voto de 60.7% dos votantes, uma percentagem espantosa depois de ter assinalado um primeiro mandato com vários números de revista. A Covid acrescentara muitos abstencionistas a uma taxa de abstenção que era regularmente crescente desde há 50 anos e atingiu então o seu deplorável máximo de 60.8% dos eleitores. António José Seguro pulverizou esses e todos os melhores registos: recuperou para o voto vária e desaustinada gente, comprimiu a abstenção para menos de 50% e conseguiu 66.8% dos sufrágios, a maior percentagem de eleitores dedicados à admiração de um presidente. O seu distante camarada Mário Soares, com os difíceis 51.2% na segunda volta de 1986, fica remetido por Seguro para um pigmeu do mundo presidencial, poucochinho, sem nervo e apenas muito sofrível na luta que travou contra o fascismo do tempo dele.

É verdade que o Dr. António José Seguro não reuniu 97% dos votos que estariam ao seu alcance na Roménia de outro tempo. Também não se apoiou num pensamento tão sólido que suscitasse a adesão admirada do eleitorado esclarecido ou, pelo menos, a comparência entusiástica das massas populares levadas em autocarros. Não foi tão longe o Dr. Seguro, nem ele nem o eclesial ajuntamento que o elevou à presidência. Mas aproximou-se. E nos resultados da recente eleição encontra-se tudo o que não faz bem à saúde dos países e à prosperidade dos povos: a tolerância da mediocridade, a renúncia da inteligência e a resignação ao pasto.

As eleições de 8 de Fevereiro de 2026 hão-de ficar memoráveis, tal como outras do passado. Não pela vibração democrática de 1986, nem pela sonolência de 2021, mas porque foram um pre-apocalíptico e patético cortejo de penitentes – pela proveniência espúria dos que votaram o novo presidente e pelos propósitos com que se resignaram a fazê-lo.

A frente anti-fascista que elegeu o Dr.Seguro é obscurantista e medieval, replica a sujeição cega a que se entregaram, durante a Covid, as populações devidamente aterrorizadas. As almas que votaram o novo presidente são dadas a tremeliques, têm escrúpulos feminis. Têm ouvidos férteis como úteros, em breve serão convencidas a arranjarem um burro na feira de Março para enfrentarem o holocausto climático. Viverão com alegria todos os inconvenientes da burrice, durante algum tempo, e só demasiado tarde serão capazes de ver, alguns, que não existia holocausto nenhum e que serão obrigados a ficar com o burro.

O entremez em dois actos que foi a eleição para presidente – com quedas no palco e entrada em cena de espectadores histéricos – não deixa para trás um momento democrático bem sucedido. O que persiste de mais relevante e que mais preocupa, viçoso como um fungo no pé mal lavado da República, é outra coisa.

“O povo português é o melhor povo do mundo”. Esta declaração do Presidente Seguro é a mais notável de quantas foram proferidas no dia 8 de Fevereiro. Se foi dita na galhofa não tem graça nenhuma, se foi restituída a sério – restituída, segundo o léxico do Conselheiro Acácio – é de meter medo. Nessas palavras contém-se todo um protocolo e um programa. Atendendo ao protocolo o povo português deve manter o registo de tolice e dizer ao Dr. Seguro que ele é o melhor presidente do mundo. No que respeita ao programa é de esperar, sem esperança, o que já era esperado com dúvida – o país continuará a ser apascentado em vez de ser governado, continuará a comer a sua cenourazinha para não lhe doer o lombo magro.

Mas nem isso é o mais importante. O Dr. António José Seguro cumprirá o seu mandato à maneira de um pelintra a quem todos emprestaram dinheiro para adquirir uma casa, alguns criados e uma fatiota. Vai ser assediado por reclamações de juros e retornos, os seus olhos tristes contemplarão das janelas escancaradas de Belém a chegada regular dos reclamantes – e vai, modestamente, desesperar. Não é crível que vá a um segundo mandato. Daqui a cinco anos, se não for antes, voltará ao seu natural e nunca mais ninguém o ouvirá. Portugal não sofrerá nenhum abalo, com ele ou na sua ausência. Portugal tem 50 anos de experiência na arte de estar por estar e não se mexer muito. Se fosse um doente, Portugal recusaria qualquer reabilitação e gostaria muito mais de permanecer acamado, com fralda e alimentado à colher.

2.O que aconteceu de penível nas eleições de 8 Fevereiro tem vindo a acontecer de há muito, em Portugal e por todo o lado. O caso português não tem qualquer originalidade, é apenas uma questão de escala. A diferença entre Donald Trump e António José Seguro não se encontra na ideologia, mas no tamanho. Aquilo que os assemelha não é o cargo onde estão, é a emersão que fizeram da mediocridade até lá chegarem. Também não é importante que o primeiro seja mal-educado, fazedor, imparável, relevante e estrepitoso, e que o segundo não seja nada disso. É pertinente, outrossim, que os dois são insuportáveis e que os tenham investido de enormes responsabilidades apenas porque não havia melhor. Não foram escolhidos, são o que restou depois de um trabalho de joeira – não são reconhecíveis como trigo, são o joio menos mau.

Nos países ditos democráticos verificou-se a ascensão generalizada à governação de tipos sem qualidade. Não são únicos o senhor Starmer, o senhor Lula e o senhor Sanchez – só merecem destaque porque calhou a Portugal ter um por aliado, o outro por irmão e o último por vizinho. Portugal não é diferente, há muitos anos que acentua o desprestígio institucional e o marasmo da governação. A eleição para PR de 2026, nas suas duas voltas, elegeu mais do que um presidente, consagrou a notável vocação da inteligentzia nacional em não mudar coisa nenhuma – a não ser mudar-se do facebook para o tiktok.

O entusiasmo virtuoso do momento é, assim, compreensível, porque é cada vez maior a congruência entre governantes e governados. Descontado isso, há perguntas que devem ser feitas.

? O que é que aconteceu para que uma enorme quantidade de cidadãos não tenham tido para escolher nada mais decente senão o Dr. Seguro ou o Dr. Ventura?

? O que é que vai acontecer quando uma eleição se tornar por norma uma escolha de recurso – seja determinada pelo oportunismo ou por considerações laterais à figura de um candidato – e os personagens elevados a uma qualquer proeminência sejam apenas as peças menos estragadas do refugo nacional?

? O que acontecerá quando for questionado o sistema que acolhe essa perversão e se encontrarem desqualificadas as sociedades que sustentam o sistema e a sua perversão?

3.São muito abundantes as teorias que procuram explicar a degradação da qualidade do voto e dos eleitos pelo voto. 

A fidelidade a modelos ideológicos, embora pervertida por um entendimento cada vez mais inconsistente da própria ideologia, continua a ser a motivação mais importante para o voto. Por isso, porque atrai um excesso de convicção, é também a origem de asneiras compenetradas por parte de quem vota e o campo de actuação preferencial dos políticos. Hoje, as ideologias e os seus afiliados encontram-se acossados, não porque a disputa ideológica se tenha tornado mais vigorosa mas porque as ideologias perderam romantismo. A escolha de um partido ou um homem já não pretende honrar a razão, evoluiu para um total pragmatismo: privilegia aquele que assegure ao votante a estabilidade de uma condição social adquirida e satisfatória. Os votos em partidos de média ideologia, aqueles que ocupam o centro do espectro político e alternam no poder, dependem dos interesses materiais de clientelas. Também os partidos emergentes, os que pretendem chegar ao poder, não se permitem ideologias rígidas – porque têm de oferecer um produto rentável e criar os seus clientes. Apenas os partidos que se mantém estoicamente comprometidos com ideologias históricas, que há décadas se encontram falidas, estão fora da discussão eleitoral – conseguem pequenos picos de adesão conjuntural quando, depois de se sujeitarem a mais uma penosa operação estética, deslumbram uma quantidade um pouco maior de ternos papalvos. António José Seguro representa os grandes interesses instalados e os pequenos interessados que se alimentam das suas migalhas. André Ventura ambicionava uns e outros, por ordem inversa.

As causas identitárias, muitas vezes confluentes com os interesses anteriores, são uma segunda via de acesso facilitado para políticos sem qualidade. Alardear simpatia por comunidades autodefinidas por géneros, com gostos bizarros, de cores alternativas, praticantes de viagens à vela no Mediterrâneo ou de outra qualquer religião, garantem votos seguros e lugares no céu mediático. E, se a cedência a um qualquer populismo chic puder ser apresentada como humanista, solidária e respeitadora da diferença, até uma senhora bondosa mas com cataratas poderá votar a favor.

As redes sociais são uma terceira modalidade de ascensão para pequenos políticos, nem sempre directamente mas através da vulgarização de ideologias susceptíveis de agrupar convictos. São ideologias que circulam em bolhas informativas, permitem a mediatização de um protagonista e a sua progressão no universo político. As redes sociais permitem veicular mensagens unilaterais e sem contraditório, apresentam uma informação simplificada que legitima as convicções de grupos cognitivamente distorcidos – pouco exigentes e menos esclarecidos ou, no outro extremo, prisioneiros de uma hiperinformação que usam como armadura autoidentitária. Quando os media, particularmente as televisões, adoptam o mesmo estilo informativo simplificado e comprometido, o potencial de disseminação de ideias peregrinas é extraordinário. Tornam-se fake trends, perdem a sua bizarria ou perigo originais e, como aconteceu insidiosamente com a degenerescência woke, são admitidas nas alternativas de pensamento inteligentes.

Uma definitiva causa de aviltamento do ambiente político é imputável à profissionalização dos seus actores. Existe hoje uma carreira política solidamente estruturada, com curricula tipificados – é possível escolher ser político desde os bancos do liceu, começar numa juventude partidária e chegar aos sofás de Bruxelas antes dos 30 anos. Ao mesmo tempo, uma evolução em sentido contrário danou a qualidade educativa geral. Disciplinas como a filosofia, a história ou a literatura foram preteridas em favor da sociologia e das ciências da informação. As primeiras respondiam à necessidade de compreender o homem no seu mundo, uma aptidão que passou a ser ornamental e não competitiva com a utilidade das segundas para a manipulação de massas humanas em grande. O tipo de exigência para um político nas etapas culminantes de uma carreira, por hipótese quando lhe sussurram que pode ser presidente da república, não se refere às suas competências e só marginalmente se preocupa com as suas ideias, quando as tem. Basta que não tenha uma empresa suspeita, que não se tenha esquecido de nenhuma declaração de rendimentos e se sinta solidário com todos os cães e gatos que desfilam nos becos.

Em concorrência com o voto afirmativo estão em crescimento os votos de protesto e de recurso. Não pretendem escolher ninguém, apenas que alguém não seja escolhido ou, numa perspectiva mais radical, como contestação da legitimidade do acto eleitoral. O facto de estarem a ser acolhidos pela teoria política, de ganharem cidadania e serem normalizados, retira-lhes qualquer potencial reformador. O voto negativo deixou de questionar, está a ser absorvido para a normalidade. Está a ser desactivado e transformado numa forma enviesada de garantir a todos os políticos o seu lugar no espectro eleitoral. Não é necessário desqualificá-los. Ficam e, com sorte e sem pressa, ainda um dia terão o seu dia. Também isso ficou demonstrado em 8 de Fevereiro.

4.Quando as eleições se tornarem uma escolha de recurso, quando as sociedades aceitarem que para um cargo público já não existem disponíveis homens bons, quando as sociedades se resignarem a que a causa da república fique ao cuidado de figuras secundárias – remanescentes no espaço mediático pela persistência e descaramento ou apelativas pelo discurso fracturante – quando as sociedades se alhearem da qualidade, desistirem da exigência e se conformarem com o pouco e o plástico, então, a liberdade estará ameaçada.

A filiação das democracias modernas na democracia ateniense é destituída de sentido. Mas revisitar o século V de Atenas é um útil exercício de entendimento dos fluxos e refluxos de grupos sociais numa sociedade de contrastes. A sociedade ateniense nunca foi democrática no sentido europeu e contemporâneo. Foi uma sociedade profundamente clivada, governada por um escol intelectual e económico que praticava entre si a livre disputa de ideias e decidia desse modo sobre os destinos da cidade. Quem achar bem pode considerar esse um período de ouro, e foi, para uma minoria. A democracia ateniense não celebra a cidadania, é um exemplo mediano de como uma elite de gente educada se conseguia entender sobre casos e assuntos que, algumas vezes, nem os afectavam directamente. O percurso ateniense no sentido de uma democracia semelhante à do democrático Portugal não foi glorioso, foi conturbado. A incorporação de círculos populacionais progressivamente mais externos à aristocracia ateniense abriu as portas aos demagogos e à manipulação. Depois de Péricles, que ainda foi capaz de restituir algum ordenamento à cidade, nunca mais a sociedade ateniense foi exemplar como hoje se pensa que foi nem a fertilidade cultural voltou a ser o que era. Quando Filipe II, o macedónico, absorveu as cidades gregas só aproveitou a cultura. Os gregos tinham-se tornado um povo doente e descaracterizado. A democracia acabava minada pela mediocridade e desrespeitada pelo invasor.