Rádio Observador

Terrorismo

O melro de Rushdie /premium

Autor
  • Luis Teixeira

Foi há 30 anos e Khomeini tinha uma razão mesquinha para lançar a fatwa que condenava Rushdie à morte: precisava de congregar à sua volta as multidões desiludidas com o fiasco da guerra com o Iraque.

1. Uma jornalista idiota telefonou-lhe a perguntar: “Qual é a sensação de saber que se foi condenado à morte pelo ayatollah Khomeini?” Ele respondeu: “Não é boa.” E pensou: “Sou um homem morto.” Foi assim que ele soube. Isto foi no mesmo dia em que Bruce Chatwin, que era amigo dele, foi a enterrar.

2. Ele não faltou ao funeral. Depois, quando chegou a casa da mãe do seu filho, a polícia britânica já estava lá. Da mesma forma aparentemente desorganizada mas firme com que resistiu a tantas outras ameaças, o país tomou conta dele. Dois pais que exigiram que o filho dele saísse da escola onde estavam os seus próprios filhos foram repreendidos pelo director da escola e o filho dele ficou. Os editores americanos dos seus livros também ficaram resolutamente do lado dele, apesar das ameaças de boicote. Amigos como Edward Said ficaram do lado dele.

3. Muitos outros afastaram-se dele. Editores adiaram edições. Jornais cancelaram entrevistas. Intelectuais manifestaram dúvidas: talvez ele devesse ter tido mais cuidado, mais respeito, porque quem era ele para ofender outras pessoas, etc. No fundo era um arrivista, um tipo a aproveitar-se da polémica para ganhar dinheiro, etc. O mundo está cheio de cobardes, prontos a pedir desculpa por serem pisados.

4. Khomeini tinha uma razão mesquinha para lançar a fatwa que condenava Rushdie à morte: precisava de congregar à sua volta as multidões desiludidas com o fiasco da guerra com o Iraque, doridas com a morte inútil dos seus filhos. Isso tornava-o humano e compreensível na sua crueldade brutal. Mas a gente que encheu as ruas de Londres e de dezenas de cidades muçulmanas pelo mundo para gritar contra ele, para rezar pela sua morte e para glorificar quem o matasse – essa gente não tinha nenhum motivo razoável, apenas cérebros cheios de ódio e estupidez.

5. “Quando [a mãe] Neguin Rushdie morreu, um jornal paquistanês [escreveu] que todos os que tinham estado no funeral dela deviam implorar perdão a Deus porque ela era mãe do autor apóstata.” Isto não foi dito numa conversa de café nem escrito nas redes sociais. Foi escrito num jornal.

6. Foi no dia 14 de fevereiro de 1989.

7. “Mais tarde, depois de iniciada a praga, é fácil às pessoas verem o primeiro melro como um prenúncio. Ao pousar nas barras, porém, é apenas um pássaro. Nos anos vindouros ele [compreenderá] que a sua história é … o momento em que o primeiro melro poisa. … Passar-se-ão mais doze anos até a história se ampliar e cobrir o céu … como um par de aviões a colidirem com edifícios altos.”

Todas as citações são de “Joseph Anton”, a autobiografia de Salman Rushdie. Que continua vivo, graças à polícia britânica.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Aquecimento Global

Uma terra sem amos

Luis Teixeira

Confesso. Não tenho nada contra campanhas pelo ambiente mas tenho contra os movimentos de “jovens”. A última vez que o Ocidente conheceu grandes movimentos de jovens os resultados não foram brilhantes

Extremismo

Fascismo nunca mais!

Luis Teixeira
1.410

A nossa esquerda radical cultiva abundantemente traços claramente fascistas. O ódio à burguesia. O amor pelos movimentos de massas. A criminalização dos comportamentos. A defesa despudorada da censura

ADSE

A saúde é um negócio

Luis Teixeira
205

Não há nenhuma evidência de que impedir organizações privadas na saúde melhore os cuidados. Pelo contrário: o monopólio estatal traduz-se geralmente em iniquidade, desperdício e nepotismo.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)