Quando ler esta crónica, estarei a mil e quinhentos quilómetros de distância. Regressei à minha terra.

Estou a passar o Natal em Inglaterra, como faço de dois em dois anos.

Não sou grande fã do Natal, mas há algo de mágico que me toca ao entrar na casa dos meus pais, na aldeia onde cresci, dias antes do Natal. Fico “nataliciada”. Faz frio, mas a casa está aquecida, com a lareira acesa a assar-nos vivos. Há uma oferta constante de “mince pies” e bolo inglês do Natal, numa versão densa e escura feita semanas antes, e a sensação de que, lá fora, tudo está fechado.

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Normalmente, todos os membros da família já estão em casa na véspera de Natal e o serão é passado a embrulhar as últimas prendas. A minha mãe prepara as refeições que vai cozinhar no dia seguinte e põe a cobertura num segundo bolo de Natal, porque o primeiro já se acabou. Ouvimos o coro de King’s College (Cambridge) na rádio e os sinos da igreja da aldeia, que assinalam a missa da meia noite. Lembramo-nos de quando eu e a minha irmã passávamos a véspera de Natal completamente embriagadas, e o meu pai franze o sobrolho e vai à missa, não para desculpar os nossos pecados, mas para fazer parte da aldeia. As crianças mais velhas vão para a cama, e as mais pequenas já lá estão.

No dia seguinte, é Natal. Um grande pequeno-almoço, e depois as prendas. A seguir, brincamos com as prendas, ou lemos as instruções das prendas, ou procuramos pilhas para as prendas. Tentamos ajudar a minha mãe na cozinha, mas somos sempre expulsos, porque ela tem o sistema dela, muito rigoroso. Vamos buscar mais lenha, porque talvez haja visitas, ou talvez não. Somos capazes de fazer uma caminhada pelo campo, mas provavelmente não. O almoço é muito tarde, com peru ou ganso assado e acompanhamentos diversos e complicados de mais para explicar. Há “Christmas Pudding” com natas “clotted” e manteiga de brandy, e há “crackers” com anedotas terríveis e coroas estúpidas em papel. Finalmente, temos jogos ou filmes na televisão, e caímos todos no sofá, cansados e cheios.

O dia seguinte é outro feriado (“Boxing Day”), que funciona como ressaca do dia anterior. Comemos sandes de peru e vemos filmes de James Bond na televisão.

Entre dois Natais ingleses, passo um Natal em Portugal… onde tudo que diz respeito ao Natal está errado. Não tão errado como na Austrália, onde o Natal é festejado na praia, mas ainda assim muito errado.

Deixem-me começar pelo bacalhau da consoada. Adoro bacalhau de qualquer maneira, mas não no Natal. O bacalhau não tem a ver com o Natal. Nem sequer vem com acompanhamentos interessantes ou diferentes. Não há “crackers” ou coroas estúpidas de papel. Os bolos estão todos errados: rabanadas e azevias e bolo-reis.

Ninguém consegue decidir se é o menino Jesus ou o Pai Natal quem traz as prendas. Ele (Jesus ou Pai Natal) não as traz quando estamos a dormir, mas entrega-as de qualquer maneira à meia noite, sem o trenó com veados, enquanto toda a gente ainda está a pé, as crianças com açúcar a mais e os outros cansados ou bêbedos de mais para prestar atenção.

Depois, o Natal acaba. Começa na véspera de Natal com a viagem para casa depois do trabalho e acaba quando somos autorizados pelas crianças a ir para a cama, nessa mesma noite. O Dia de Natal parece só mais um feriado normal, nada de especial. É capaz de haver almoço com a família, mas os elementos mais divertidos do dia de Natal em Inglaterra — as prendas, os jogos, o não-fazer-nada, a sensação de que tudo está fechado — não existem aqui.

Já tentei criar uma espécie de Natal inglês em Portugal, mas o resto da família resiste. Eles querem o Natal à maneira deles, à portuguesa.

Como deviam querer. O Natal é uma invenção nossa, e cada um de nós prefere o Natal como começou a festejá-lo. Detesto o Natal português só porque não desperta em mim qualquer nostalgia, não me lembra nada. E é demasiado breve.

Além de paz para todos os homens de boa vontade — e falando a sério, isso já não é grande coisa para a maior parte da gente —, o único sentido do Natal é nostalgia e prendas. A minha nostalgia e a vossa. Uma rabanada faz-vos lembrar um Natal em família quando eram crianças. Um “mince pie” tem o mesmo efeito para mim. E agora, estou na Inglaterra, a desfrutar duplamente o meu Natal, porque só vem de dois em dois anos.

Tenham um Natal fabuloso, seja qual for a vossa espécie de Natal.

 

(traduzido do original inglês pela autora)

 

 

My Christmas isn’t yours

 

By the time you read this I will be a thousand miles away. I’ve gone back to where I came from.

I’m going home for Christmas, as I do every two years.

I’m not the biggest fan of the whole Christmas thing, but something magical happens to me when I walk into my parents’ house in the days leading up to Christmas. I get Christmassy. The weather is briskly cold, and the house is gloriously warm, the fire lit and roasting us all alive. There is a constant supply of mince pies and Christmas cake, the proper heavy dark one made weeks and weeks in advance, and a general sense of lockdown.

Usually, everyone is home by Christmas Eve and the evening is spent preparing the children’s stockings, wrapping last minute presents, my mother preparing food to cook the next day and icing a second Christmas cake because the first one has been eaten already.  We listen to carols from King’s College on the radio, and then the village church bells for midnight mass, and reminisce about when my sister and I were young and used to go into town and get horribly drunk every Christmas eve and my father rolls his eyes and heads up the road in the dark to the church, not to atone for our sins, but to be neighbourly. The older children are sent to bed and the younger children have been asleep for hours.

Then it’s Christmas Day. A big late breakfast, then presents, then playing with our presents or reading our presents’ instructions and hunting for batteries, then attempting to help my mother in the kitchen, but being shooed out, because she knows what she’s doing. Then collecting more logs for the fire, then there may be some visitors or maybe not, then maybe a walk, but probably not. Then a very late lunch with a turkey or goose with trimmings that would take too long to explain but which make for a lot of wind. Then Christmas pudding with clotted cream and brandy butter and we pull crackers with horrendous jokes and stupid paper crowns. Then games or a film then we all collapse, tired and full.

And then Boxing Day, which is just a lovely relaxed Christmas hangover for eating turkey sandwiches and watching James Bond movies on TV.

Every other year, Christmas is spent Portugal…. and it is all wrong. It’s not as wrong as Australian Christmas on the beach, but it’s still all wrong.

There’s bacalhau for dinner, for starters. I love bacalhau however you want to make it, but it isn’t Christmas. No stuffing nor any other trimmings. There are no crackers or paper crowns. The cakes are all wrong. Rabanadas and azevias and bolo reis everywhere. All horribly wrong and unChristmassy.

No one can decide whether it’s the baby Jesus or Santa Claus who’s bringing the presents. He doesn’t bring presents when we’re asleep, whether we’ve been bad or good, whether there’s a chimney or not. He (baby Jesus or Santa) somehow delivers presents at midnight, sans reindeer or anything, invisibly, while everyone is standing about, to people either strung out on lack of sleep and sugar (the kids) or already too tired or too drunk to care (the older kids).

Then Christmas is over. It begins with the journey home from work on Christmas Eve and ends when you’re finally allowed to go to bed after the kids have calmed down a bit on the same day. Christmas Day is just another bank holiday, nothing special. Maybe there’ll be lunch or dinner with some relatives, but the fun bits are all gone, no presents, no games, no sitting round in a heap, no sense of lockdown.

I’ve tried and failed to create my own kind of Christmas here, but the rest of the family resists. They want Christmas their Portuguese way.

Which is entirely what they should do, because Christmas is just our own huge invention, whoever we are and wherever we started doing it. I hate Portuguese Christmas only because it holds no nostalgia for me, presses no buttons, reminds me of nothing. And it’s too damned short.

Apart from goodwill to all men and all that, and let’s face it, most of that went out of the window, the only point to Christmas is nostalgia and presents. Your nostalgia, my nostalgia. An azevia reminds you of loving family Christmases when you were a child. A mince pie does that for me. So, right now, I’m in England, doubly enjoying my Christmas, because it only comes once every two years.

Have a wonderful Christmas, however your Christmas is.