De vez em quando é assim. Descobrimos que este país tem uma traseiras. Que há uns cantos escuros onde se acumula o lixo que não queremos ver. Que há uma realidade com que vivemos paredes meias mas que ignoramos ou fazemos por ignorar.

A mãe que colocou o filho naquele contentor do lixo não vivia num buraco – vivia paredes meias com alguns bares da moda e restaurantes de luxo. Ela e outros sem-abrigo. As tendas ainda lá estão. E estarão.

Aquela mãe cometeu um acto monstruoso? Sem dúvida. Mas eu nem quero imaginar o que ela passou nos anos – cinco anos – que passaram desde que aterrou em Portugal e acabou ali, como um pedaço de lixo descartável. Não consigo também imaginar como conseguiu esconder a gravidez, como viveu com ela, como sobreviveu com ela naquele ambiente hostil. Mas sobretudo aquilo em que nem sequer quero pensar é nas condições em que teve a criança, sozinha, ao frio, sem higiene, com medo, com sangue, com dor.

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