A fábula de Esopo “O Pastorzinho e o Lobo” conta-nos a história de um jovem pastor que, por diversão, grita sucessivamente “Lobo!” para alarmar os aldeões. Depois de repetidas falsas chamadas de atenção, quando o perigo se torna real, ninguém o leva a sério. O lobo ataca, e a tragédia consuma-se. Esta narrativa milenar tem hoje uma ressonância particular no discurso político, especialmente no modo como certos sectores da esquerda usam, de forma recorrente e leviana, o rótulo de “fascista” para atacar qualquer pensamento divergente do seu. Como o pastorzinho, ao banalizar o alarme, correm o risco de torná-lo irrelevante quando ele for, de fato, necessário.

Desde o 25 de Abril de 1974, Portugal é uma democracia consolidada, onde diferentes visões do mundo coexistem em liberdade. No entanto, ao longo dos anos, alguns partidos à esquerda do espectro político têm feito do termo “fascista” uma arma retórica, muitas vezes aplicada sem critério. Um dos exemplos mais evidentes ocorreu nos anos 1980, quando o PCP acusou o PSD de promover políticas “fascizantes”, sobretudo durante o governo de Cavaco Silva. Qualquer tentativa de reforma laboral, contenção orçamental ou aproximação ao setor privado era denunciada como um regresso ao fascismo — ignorando que se tratava de um governo democraticamente eleito, operando dentro dos limites constitucionais.

Mais à esquerda, o mesmo padrão repetiu-se. Ainda nos anos 1990, membros do então PSR— antecessor do Bloco de Esquerda — acusaram o PS de “conivência com o fascismo económico” por causa da sua adesão a políticas de privatização e à disciplina orçamental imposta por Bruxelas. Neste caso, o PS, fundado por Mário Soares como partido claramente antifascista, era apresentado como cúmplice de uma suposta lógica autoritária — uma acusação absurda, mas que refletia uma tendência retórica em que o “fascismo” deixou de ser um regime político bem definido para se tornar sinónimo de qualquer decisão contrária à ortodoxia da esquerda radical.

Este uso abusivo da palavra “fascista” teve, ao longo das décadas, um efeito perverso: banalizou o conceito e fez com que muitos deixassem de o levar a sério. Tal como na fábula de Esopo, quando tudo é “fascismo”, nada o é realmente. E, um dia, se surgir uma ameaça concreta à democracia — com vontade real de limitar liberdades, perseguir opositores ou subverter o regime — o povo, cansado de ouvir sempre o mesmo alarme, poderá não reagir a tempo e não acreditar até que seja demasiado tarde.

Um exemplo internacional e trágico desta distorção está na guerra da Ucrânia. Vladimir Putin justificou a invasão do país em 2022 com a necessidade de “desnazificar” da Ucrânia, alegando que o governo ucraniano estaria dominado por forças fascistas. Esta alegação, infundada à luz da realidade — visto que a Ucrânia é uma democracia com um presidente judeu e eleito democraticamente — foi usada como cobertura ideológica para um ato de agressão militar brutal. Surpreendentemente, houve em Portugal vozes da esquerda que ecoaram esta narrativa, como as de Paula Santos na recusa em participar na recepção de  Volodymyr Zelensky no parlamento, quando afirmou ““personifica um poder xenófobo e belicista rodeado e sustentado de forças de cariz fascista e neonazi”

Quando a palavra “fascismo” é usada como justificação para silenciar, invadir ou destruir, ela deixa de ser um alerta moral e torna-se um instrumento de opressão. E quando a esquerda, que se quer herdeira do antifascismo, se alia ou fecha os olhos a esse uso cínico do termo, perde não só a razão, mas também a autoridade moral.

A luta contra o fascismo é demasiado importante para ser desvalorizada por excessos retóricos. É essencial que os partidos políticos — sobretudo os que se dizem herdeiros da resistência ao autoritarismo — usem essa palavra com responsabilidade, reservando-a para os casos em que se justifica verdadeiramente. O perigo do lobo continua a existir. Mas para que o possamos combater, é preciso que o aviso seja credível. Caso contrário, o dia em que o fascismo bater mesmo à porta pode ser o dia em que ninguém escute.