Vou directo ao assunto: o pré-programa eleitoral do PS tem propostas boas e outras menos boas, mas António Costa não lançou o documento para que as centenas de propostas fossem todas escrutinadas publicamente – se realmente pretendesse escrutínio, não as diluiria em 134 páginas. O líder do PS comunicou as suas propostas porque queria afirmar uma mensagem. E, neste caso, essa mensagem é, sobretudo, um álibi: a inocência do actual PS perante os erros que os socialistas cometeram no passado recente.

Percebe-se a estratégia. Olhando para o que foi esta legislatura, há três fantasmas que têm atormentado o PS e faz sentido que Costa confie ao programa eleitoral e ao cenário macroeconómico a missão de os espantar. Primeiro, o vazio de alternativas às políticas de austeridade, agora preenchido por centenas de propostas que satisfarão gregos e troianos. Segundo, a proximidade de discursos entre PS e Governo, agora desligada pela aposta dos socialistas em mais investimento público. E, terceiro, a falta de credibilidade do PS em matéria de economia e finanças (face ao legado de políticas de endividamento dos Governos Sócrates), e cujo currículo dos economistas que elaboraram o cenário macroeconómico tentou eliminar. Ou seja, tudo no programa eleitoral e no cenário macroeconómico do PS se restringe ao objectivo de blindar António Costa enquanto candidato, libertando-o das grilhetas que o fragilizam na opinião pública.

Note-se que não estou a criticar. Os programas eleitorais são instrumentos de campanha política, que servem para colocar os candidatos na agenda mediática, disfarçar as suas fragilidades e ajudá-los a ganhar votos nos debates e nas acções de campanha. Dito de modo simples, são um guião para ganhar eleições e não um manual para a governação. É mesmo assim que funciona. Daí que devam ser lidos em função dos seus objectivos e que seja uma ingenuidade isolar e elogiar ou criticar uma proposta em concreto – como a de levar ao Parlamento a aprovação de grandes obras públicas que, boa ou má, tem como real propósito redimir o PS dos pecados de Paulo Campos.

Ora, a crítica começa aqui porque é precisamente neste ponto que reside uma contradição na estratégia do PS. Por mais que António Costa insista nas palavras ou nas propostas, é difícil acreditar em rigor orçamental quando se olha para os protagonistas do PS e se vê figuras políticas como Paulo Campos, responsável pelo aeroporto de Beja, por inúmeras PPP e por uma factura anual de centenas de milhões de euros. Ou se ouve Ferro Rodrigues, defensor da reestruturação da dívida, assinalar que defende as mesmas políticas de há 4 anos atrás. Ou se escuta João Tiago Silveira, na apresentação do programa eleitoral do PS, garantir a seriedade destas propostas, tendo sido também ele quem deu a conhecer ao país, em 2009, o extravagante programa eleitoral de José Sócrates.

Os exemplos são demasiados e levam-nos ao problema que António Costa (ainda) não quis resolver: a credibilidade das propostas do PS também depende das caras que lhes estão associadas. E, portanto, tudo termina num dilema. Para levarmos a sério as propostas do pré-programa eleitoral, das duas uma: ou acreditamos que as pessoas mudam, ou aceitamos que tais propostas só fazem sentido com outros protagonistas. Num tempo em que não se confia em políticos nem nas suas promessas eleitorais, António Costa tem de escolher entre livrar-se dos discípulos de Sócrates ou convencer os portugueses de que Paulo Campos já não é Paulo Campos. É essa a prova de fogo da credibilidade das suas propostas. O resto são só álibis.