A crise da dívida pública na zona euro provocou abalos que ainda hoje se sentem. Não só a nível económico e financeiro, mas também político e social. Políticas de protecção social sem um sistema económico capaz de as sustentar a longo prazo deram força a incentivos estatais para um crescimento baseado em dívida privada. Às duas dívidas, pública e privada, somou-se uma disfunção económica, com um consumismo desenfreado e investimentos artificialmente canalizados para certos sectores em detrimento de outros, mais produtivos. O resultado inevitável foi a aprendizagem generalizada de que as dívidas não são sustentáveis. Da crise económica à descredibilização política foi um passo.
Com a crise financeira e económica, os Estados tiveram de proceder a cortes que quando não incidiram nos salários ou nas pensões se centraram no custo e na qualidade dos serviços públicos. Os efeitos não foram imediatos, mas sentiram-se. De forma gradual cada um de nós sente na pele um decaimento na qualidade dos serviços públicos, seja nas conservatórias, nos departamentos de finanças, nos transportes públicos, nos tribunais, nas escolas, nos hospitais.
A complicar o cenário, a guerra civil da Síria trouxe para a Europa uma vaga de imigração recorde e colocou o tema da identidade no topo das preocupações. A pandemia Covid-19 obrigou os Estados a gastarem ainda mais quando tinham decidido gastar menos, além de ter alimentado mal-entendidos e feito crescer desconfianças perante o poder político. Para dificultar o já de si complicado cenário, a invasão da Ucrânia pela Rússia tornou evidente que os estados europeus têm de aumentar os gastos em defesa. Algo difícil porque a economia não cresce e há anos que a UE preferiu a regulação à inovação. A margem para o Estado social tornou-se exígua e se a Europa não tiver uma fase de forte crescimento económico nos próximos anos, o mais certo será um declínio acentuado do nível de vida.
Os desafios são de tal ordem que a fronteira esquerda/direita já não se cinge à maior ou menor intervenção do Estado. A identidade, a cultura, o sentimento de pertença à comunidade e a definição do que esta é impôs divisões impensáveis há poucos anos. Como consequência, parte da direita assumiu preocupações sociais que eram património da esquerda. A defesa dos trabalhadores, a relevância do investimento público, o papel interventivo do Estado não são só bandeiras de Donald Trump. No Reino Unido, o partido conservador está a assumi-las; em França o Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen já as adoptou; o mesmo podemos dizer relativamente a Giorgia Meloni, em Itália. Mais preocupada com as guerras culturais e com as questões de identidade do que com a economia, esta direita quer um Estado mais presente na vida dos cidadãos, desde que com o discurso e a orientação política adequada.
Nos últimos anos, o PS conseguiu viver acima destes dilemas, mais devido à habilidade política de António Costa que à suas qualidades governativas. Mas os socialistas convenceram-se que não. Persuadidos que eram especiais, não ligaram ao que se passava por esse mundo fora. Pelo contrário, deram-se ao luxo de alimentar o fenómeno. Alheados da realidade não se aperceberam que a viragem à direita não trouxe apenas o Chega. Foi mais que isso: tornou impopular a própria agenda da esquerda. Tirou-lhe o discurso social e de defesa dos trabalhadores. Agora que despertou, o desnorte é visível no PS, com Pedro Nuno Santos a usar o tom declamatório para esconder a tibieza das palavras. A reviravolta do PS nas políticas de imigração compreende-se porque os ventos mudaram. A hesitação sobre as presidenciais é só mais um sinal de um estado de espírito. Desfasado da realidade, o PS sente que perdeu o pé e arrisca-se a ser a próxima vítima de um processo que já vai longo.