A tempestade causada pelo alastrar da Covid-19 está a afectar a economia mundial, em alguns casos de uma forma absolutamente surpreendente. Antes de mais é preciso perceber que se trata de um fenómeno inesperado, pelo menos para a maioria dos cidadãos, com caracteres nunca vistos na nossa vida moderna. Trata-se de uma crise mundial, transversal e que atinge o bem mais precioso para o ser humano, que é precisamente a sua vida, assumindo, quase, um patamar democrático (no sentido estreito da palavra).

Este patamar de democraticidade implicará que, ao contrário das anteriores crises económicas que conhecemos, não serão só os trabalhadores que vão sofrer com esta pandemia, os investidores também vão sofrer através da queda cotações e consequente redução do valor dos activos, mas também através do rendimento auferido em função da redução dos dividendos.

São já bastantes as empresas, designadamente na Europa e nos Estados Unidos, que anunciaram cortes de dividendos ou que os suspenderam. Exemplo disso é o sector bancário do Reino Unido, que respondendo a uma solicitação da Autoridade Reguladora, concordou colectivamente em não fazer nenhum pagamento de dividendos ou dividendos intermediários em 2020 nem realizar recompra de acções, para preservar o capital.

Os casos em que as entidades reguladoras sectoriais, nomeadamente os bancos centrais, tem alertando, e mesmo impedindo a distribuição de dividendos, vem-se alastrando pelo mundo inteiro, chamando sempre a atenção para o enorme risco causado pela distribuição de dividendos e pelo pagamento dos bónus de gestão, numa altura em que o futuro parece ser completamente imprevisível. Dada a perspectiva sombria, as empresas e os bancos deveriam conservar o máximo de capital possível. É isso que os reguladores do Reino Unido e da Europa estão a fazer, pressionando as instituições supervisionadas.

Naturalmente que as equipas de gestão e administrações querem manter seus accionistas felizes. Portanto, naquilo que promete ser uma das mais profundas crises económicas de todos os tempos, algumas das maiores instituições empresariais e financeiras mantêm o plano de continuar a pagar dividendos – uma prática que esgota o capital capaz de absorver as perdas, o qual, muito provavelmente, será necessário para passar pela presente crise.

O facto de muitas empresas se encontrarem completamente alavancadas por dívida, será um dos aspectos mais importantes no risco da distribuição de dividendos. Sabendo que a médio prazo, isto poderá levar ao descalabro de toda a estrutura financeira, podendo causar um efeito de dominó sobre a economia.

Poderemos, assim, estar perante uma tempestade perfeita, onde para além dos efeitos directos do Covid-19, sobre a actividade das empresas, aquelas que viram a sua estrutura de negócio menos envolvida no turbilhão, poderão vir a ser arrastadas para o desastre, causado por este efeito dominó.

Em Portugal, também já há exemplos desta política de alerta, por parte das entidades reguladoras, apesar de irem comentando de uma forma mais ou menos tímida este aspecto. Naturalmente que em Portugal a situação é bastante sensível, pelo facto de ter ultrapassado, há pouco tempo, uma grande e destruidora crise económica, em que muitas empresas ainda sofrem dos danos ocorridos e que se revelam nos passivos financeiros muito elevados . Assim deverá, este tema ser colocar no palco central, de forma a evitar que uma segunda vaga da crise, venha a provocar ainda danos para além dos que se avistam no futuro próximo.

Por outro lado, os processos de insolvência em Portugal aumentaram 27,8% nos primeiros dois meses de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019, isto ainda antes do início da crise provocada pela Covid-19, pelo que este número não releva grandes auspícios para o que poderá vir a acontecer. Com o disparar da taxa de desemprego a par do uma queda abrupta do PIB, que de acordo com a maioria dos analistas, será sempre superior dos 3,4%, Portugal poderá, ainda mais, mergulhar numa crise, da qual sairá com muita dificuldade.

Até ao momento, o Banco de Portugal já informou que considera que os bancos portugueses devem seguir as recomendações do BCE e suspender dividendos, tendo o BCP, Caixa Geral de Depósitos e Santander já o efectuado, ao passo que o BPI aparentemente manterá a sua posição inicial de distribuição de dividendos. Se na banca o caminho parece ser um, já no sector energético o sentido aparenta ser o contrário com a Galp, EDP Renováveis e REN a optarem pela distribuição dos dividendos, faltando apenas a EDP tomar uma decisão.

Tal como foi referido anteriormente, trata-se de uma crise transversal e “democrática” em que todos nós vamos sofrer, apesar das diferenças de intensidade subjacentes, pelo que todos os agentes económicos deverão ter a absoluta consciência deste facto, agindo da forma mais responsável e com o objectivo principal de ser assegurada a nossa coesão social e a sustentabilidade económica.