Portugal, embora não seja o único, já tem uma tendência estrutural de manter empresas zombies. Vários factores contribuem para isso, nomeadamente um regime de insolvência lento e complicado, que acaba por proteger a empresa devedora, e um sistema bancário que usou e abusou de esquemas de prolongamento de empréstimos a empresas manifestamente inviáveis, para evitar contabilizar perdas nas suas contas. Está por estudar a dimensão total da “economia zombie” em Portugal, embora um trabalho de economistas da OCDE tenha uma estimativa de 12,5% para empresas do sector da construção e serviços, numa investigação que vai até 2015.

O crescimento de empresas “mortas-vivas” voltou à actualidade na sequência dos apoios que praticamente todos os governos estão a prolongar às suas empresas.

Na Alemanha, além dos apoios que também temos em Portugal e que são mais generosos, o Governo congelou a legislação sobre insolvências que deveria regressar este mês, mas resolveu prolongar essa interrupção. Uma iniciativa que não foi consensual dentro do governo, por se recear estar a alimentar empresas que nunca vão recuperar, impedindo assim que a economia se reestruture, gerando novos negócios mais produtivos – ver aqui no FT, para assinantes.

Uma empresa zombie, na classificação dos economistas, é aquela que não gera lucros para pagar o seu serviço de dívida durante três anos consecutivos. Os estudos sobre o tema têm revelado um aumento significativo dessas empresas “mortas-vivas”. Um trabalho do Banco Internacional de Pagamentos (BIS) mostra que o peso das empresas zombie aumentou de 4% em finais da década de 80 para 15% em 2017 (o trabalho usa dados de empresas não financeiras cotadas em 14 economias).  Concluem ainda, em linha com outros trabalhos, que as empresas zombie são menos produtivas, mais endividadas e investem menos em capital físico e intangível.

Em termos gerais, uma economia de morto-vivos tende a ser menos produtiva e inovadora, condicionando obviamente o potencial de crescimento da economia. E, no quadro actual, corremos um sério risco de aumentar ainda mais o número de empresas zombies.

A crise que a pandemia está a provocar apanhou as economias europeias ainda ligadas à máquina, neste caso, o BCE. O elevado endividamento de países como a Itália, Espanha, Grécia e Portugal a par, ou na sequência disso, de taxas de crescimento económico relativamente baixas, manteve os juros praticamente em zero ou negativos.

A pandemia obriga a ligar a economia à outra máquina disponível, o Estado. Um pouco por toda a Europa e tal como em Portugal, criaram-se mecanismos especiais de apoio ao lay off, adiaram-se pagamentos de impostos e de empréstimos e concedeu-se novo crédito bonificado. Algumas dessas medidas estão a ser prorrogadas também em Portugal, como foi o caso da decisão do Governo de permitir que se interrompa o pagamento de empréstimos e juros até Setembro do próximo ano.

A gravidade da crise económica gerada pela pandemia é tal que o Estado tem obviamente que suportar o funcionamento de algumas empresas. O cenário alternativo seria uma destruição brutal da capacidade produtiva, num processo quase equivalente ao de uma guerra, o que levaria a uma recuperação muitíssimo mais lenta do que a já muito lenta retoma que se perspectiva, com efeitos sociais inimagináveis.

O Governo tem tido, em alguns aspectos, cuidado para não manter indefinidamente as empresas ligadas à máquina, tentando criar incentivos para o regresso à actividade. As medidas associadas ao lay off são um exemplo. Designado como “apoio à retoma progressiva”, já é um apoio à redução do horário de trabalho. Os outros apoios deveriam seguir a mesma lógica, de suporte à recuperação e não à sobrevivência. É o caso das moratórias de crédito e mesmo dos novos empréstimos. Devem e têm de ser concedidos numa lógica de recuperação e reduzidos ao mínimo, olhando igualmente para a viabilidade da empresa.

Corre-se o risco de matar as empresas não pela doença provocada pela pandemia, mas pela cura excessivamente baseada no endividamento. Além disso, não se consegue perceber se os apoios estão mesmo a chegar às empresas. Há demasiadas queixas de atrasos nos pagamentos ou de uma burocracia excessiva que, a corresponderem à realidade, acabarão por destruir as boas e as más empresas. E aí o risco de zombificação diminui, mas destroem-se igualmente empresas viáveis. (No hipotético caso de se estar a apoiar quem tem mais contactos, o que não é uma hipótese descabida conhecendo nós o país, as empresas que sobreviverem não serão as melhores mas as que têm a melhor rede de influência.)

Há vários riscos nestas medidas de apoio. Um é manter artificialmente vivas empresas inviáveis, com os consequentes efeitos na redução da produtividade. Um segundo risco é aumentar ainda amais o número de empresas inviáveis por se ter baseado os apoios excessivamente no aumento das suas dívidas, o que provocará igualmente uma retoma mais lenta. Finalmente, pode estar a agravar-se ainda mais o risco para a banca que mais cedo ou mais tarde terá de registar perdas no seu balanço – há empresas que obviamente não vão sobreviver.

A The Economist, por exemplo, defende que o apoio às empresas do sector do turismo, que nunca vão recuperar a facturação que perderam, deveria assumir a forma de subsídios se os governos acreditam mesmo que o turismo vai recuperar. Em Portugal seria impensável, já que o Estado não tem capacidade financeira para isso. Uma outra medida, já mais controversa, diz respeito aos apoios à actividade, que a revista considera que deveriam ir para as pessoas e não para os empregos. E é controverso já que o apoio ao emprego mantém a pessoa em actividade, reduzindo os efeitos sociais negativos do desemprego e minimizando também as perdas de qualificações. Ainda que, e em contrapartida, impeça as pessoas de procurarem outras alternativas que, de qualquer forma, neste momento não existem.

Neste momento temos as economias em respiração artificial e com transfusões de sangue. A crise financeira ligou as economias ao BCE, a pandemia ao Estado. Como vimos, ainda antes da pandemia, estava a ser muito difícil desligar a máquina do BCE, sem afundar a economia. Imagine-se como vai ser difícil agora retirar da economia não só o BCE como o Estado. As medidas têm de ser desenhadas para uma aterragem suave, sem impedir que as empresas inviáveis morram para dar lugar a outras. Um desafio enorme para um país como Portugal tão dependente do turismo e a querer virar-se para a indústria. Corremos um sério risco de ter um crescimento ainda mais medíocre se não existir a coragem de ir tirando os apoios e substituí-los por medidas de recuperação.