“O silêncio é de ouro”, crescemos a ouvir dizer. Mas, na sociedade do ruído em que hoje vivemos – e apesar de se saber que o ouro atinge, por estes dias, máximos históricos – o dito popular parece ter perdido todo o valor. É suposto falar, toda a gente, a toda a hora, ocupar o vazio, sob pena de deixar que outro tome conta do espaço, “controle a narrativa”.

É complicado, desde logo porque, se estiverem todos a falar ao mesmo tempo, ninguém se entende. E depois: se estamos todos a falar, quem resta para nos ouvir?

À entrada para a segunda volta das eleições presidenciais, uma parte da intelligensia nacional exige que a outra se pronuncie. Fale agora, ou seja, talvez, fascista para sempre. Mas o pronunciamento, neste caso, a “fala”, já tem dia e local para acontecer: num domingo de Fevereiro, daqui por pouco mais de duas semanas, nas urnas, em forma de cruz num boletim de voto. Que todos “falem”, se “pronunciem”, é, nesse sentido, a natureza mais elementar da democracia.

Não é então bem de “falar” que se trata; não é “pronunciar-se” que esta metade exige à outra que faça, mas que grite, alto, estridentemente, imediatamente, tão autoritariamente como gritam e esbracejam as forças que querem travar.

O problema não é, portanto, só de palavras, nem sequer de decibéis; começa por ser um problema de números – e de sobranceria. Pelo facto de o líder de um partido dar “indicação de voto”, isso não significa a transferência automática daqueles que nele votaram para o outro que agora “indica”. E só uma forma muito paternalista de olhar o mundo poderia pensar assim, tratar o cidadão como ovelha dum rebanho que irá para onde a mande o pastor.

Claro que há em tudo isto muito silêncio cínico e calculista, mas o realismo é talvez das mais incómodas chatices de viver no mundo real. Não é por todos termos a sensação de já ter visto este filme que estamos num filme. Mais do que o grito ou o gesto pronto, perfeito para a câmara e a economia narrativa, importa ter a noção de como a nossa palavra ou o nosso gesto podem chegar ao lado de lá e se sequer chegam ao lado de lá. Não falar por falar, saber o que se vai dizer e como se vai dizer, e sobretudo, ouvir. Saber que o ruído irrita. Que lições de moral não solicitadas ao nosso semelhante irritam. Que ser prontamente descartado como estúpido ou antidemocrático irrita. Insistir em tentar não dar espaço para falar, dialogar, queixar-se, discutir, irrita. E que irritação sobre irritação nunca acalma; cresce. Empola.

A questão não é, portanto, ir a correr garantir que o mundo inteiro sabe o que nós pensamos – e muito menos achar que, ao fazê-lo, estamos a iluminar o caminho a alguém. É perguntar, dizer com explicação anexa, estar preparado para a réplica, para ouvir e continuar a conversa, saber que amanhã vamos continuar aqui a ter de conviver, lado a lado, queiramos ou não, não importa quão sonoras sejam as nossas proclamações.

Estes dias devem ser tudo menos um “fale agora ou cale-se para sempre”. Irmos todos para um lado do campo anunciar ao país que somos nós os democratas deixa o outro completamente livre para os que o querem comandar. Juntar em exército os descontentes, apontar o dedo ao “sistema” – “estão a ver? Todos iguais. Todo do mesmo lado. Farinha do mesmo saco. Só eu sou a cura.”

Mais escuta e menos proclamações. Pensar no que se vai dizer, antes de se dizer. Lembrar, por exemplo, aos que acham que vão “dar um murro na mesa” e mudar de vida, que não é com um Presidente da República que se faz isso – muito menos o português. Ou então, sim, no pior dos casos, recuperar o apreço ao valor dourado da quietude e fazer como já recomendava, na Grécia Antiga, o velho Pitágoras: “Se o que tens a dizer não é mais belo do que o silêncio, então cala-te.”