Há imensos médicos e enfermeiros que não vão a casa há muitos dias! São pessoas que, ao contrário de nós, são pais em “isolamento social”. Que vêem os filhos por vídeo-chamada. Mas que não lhes tocam! E que nos intervalos — insignificantes! — da sua actividade frenética de horas sobre horas, gravam, à pressa, mais um “vídeo de pais”. Como se essa fosse a única “prova de vida” a que têm direito para lhes dizer que os amam.

Há imensos médicos e enfermeiros que não imaginam quais são os últimos trabalhos de escola dos seus filhos. Nem as asneiras “topo de gama” que eles precisam de ver repreendidas. Nem o “desgoverno” em que os adolescentes lá de casa estarão a viver; mesmo que “desconfiem” que eles estejam numa espécie de auto-gestão escorregadia sem grande controle. Muitos, mesmo muitos, destes médicos e destes enfermeiros, estão, simplesmente, num “distanciamento” de pais. Alguns, contra tudo o que desejam, são “só” médicos e enfermeiros. Quase vinte e quatro horas por dia.

Há imensos médicos e enfermeiros que, quando não vivem numa quarentena que os afasta de quase todos, ao chegarem a casa, barafustam. E barafustam! E acham que ao cozinhado com que os filhos mais crescidos os tentem mimar, falta sal; ou seja o que for. Mas falta sempre alguma coisa! Por mais bizarra que pareça. E, contra tudo o que mais queriam, sentem-se hóspedes. Às vezes, quase um bocadinho estranhos nas suas casas. São pessoas como nós. Mas que chegam e jantam, adormecem, tomam um duche e saem a correr. Todos os dias. E chegam e jantam. E adormecem e saem. E chegam e saem. E saem sempre mais depressa! E, mesmo quando chegam, nunca “entram” até ao fim. Tão grande é o alarme em que vivem; em todos os segundos. E que, quando saem, deixam um travo amargo em todos os que esperam deles aquilo que, como pais, noutros momentos, só mesmo eles são capazes de dar.

Há imensos médicos e enfermeiros que mantêm uma relação pelo telefone. Que se acanham, até, de fazer desabafos alarmados sobre tudo aquilo que vêm. E que quase minimizam o caos diário em que vivem. Como se, mesmo quando se sentem à beira do colapso, sintam o dever de resgatar todos os pedaços de bondade que vagueiam dentro de si. E, ainda assim, cuidem. E cuidem. E cuidem!!

Há imensos médicos e enfermeiros que se separaram dos seus pais há um ror de tempo. De quem cuidam de cada vez que lhes falam, a correr, só para os sossegar. E que não sabem se, num dia destes, correm o risco de ter deitado a perder todos os gestos que não lhes deram. Para cuidarem doutros pais. Mas que se acalentam quando imaginam, secretamente, que os alimentam de vida pelo orgulho que lhes dão pela luta que estão a travar.

Há imensos médicos e enfermeiros que guardam só para si o pavor de serem eles, também, a qualquer momento, as próximas vítimas. (Há imensos médicos e enfermeiros que serão, eles mesmos as próximas vítimas!) E que, à medida que o tempo passa, parecem ficar quase indiferentes a mais uma pessoa que morre. Ao modo como morre sozinha. Sem que se despeça, sequer, de quem a ama. E que se tornam quase “mecânicos”: na forma como observam, no desalento de mais um diagnóstico ou no jeito como entubam. Ou, por absurdo que pareça, tornam-se quase indiferentes àquilo que sentem. E que guardam a sua dor para mais tarde. Mesmo que, por cada dia que passe, fiquem mais perto dum abismo de desequilíbrios que se amontoam e dos quais não imaginam como hão-de conseguir – num dia destes – regressar, pelo seu pé.

Há imensos médicos e enfermeiros que deixam um rasto de fé naquilo que representa dar tudo o que têm de melhor em si a todos os “estranhos” que lhes pedem ajuda. E que, de cada vez que dão tudo, vacilam, por dentro. Mas que dão (sempre!) um pouco mais. Sem que olhem para trás!

Dizer-lhes que são heróis vale-lhes de muito? Não. Agradecer-lhes por nos mostrarem o quanto vale a pena tentarmos ser pessoas como eles? Sim… Mas vale, sobretudo, dar-lhes o nosso isolamento. Que é, também, um jeito atencioso de cuidar deles. De os proteger! E, desse jeito, de lhes dar o nosso mais sentido e mais comovido OBRIGADO!!!