Cara Helena Matos, a propósito do seu último artigo publicado no Observador, intitulado “Omara, a bebé subnutrida. Por culpa de quem?” permita-me que, na qualidade de Diretora Executiva da UNICEF em Portugal, partilhe consigo algumas reflexões.

A primeira é a de que a UNICEF, como agência das Nações Unidas, trabalha para a paz, para a cooperação e para o desenvolvimento. A nossa missão particular é ajudar – todas as crianças – onde quer que estejam. Por esta razão, a questão política – ou do regime político no qual vivem – não é uma variável de escolha.

Esta questão não se confunde com a crítica pública realizada quando os direitos humanos, e em especial os das crianças, são violados. Claro exemplo, é a condenação aos recentes e violentos ataques perpetrados por grupos armados contra civis nas cidades de Tchoma Bangou e Zaroumadareye, no Níger, perto da fronteira com o Mali e Burkina Faso. Ainda segundo uma estimativa não oficial, morreram pelo menos 100 pessoas, das quais 17 eram crianças com menos de 16 anos, algumas delas terão sido queimadas vivas e sabemos que pelo menos 11 foram separadas das suas famílias, para além dos ferimentos e da marca que a violência deixa em cada uma delas.

Convido-a a ler a declaração completa da Senhora Henrietta Fore, para que fique clara a realidade de tantas crianças e o compromisso inequívoco da UNICEF com os seus direitos.

A segunda, é a de que nossa presença nos países em desenvolvimento existe em cooperação com os governos, para que possamos garantir que as infraestruturas, a capacitação e os recursos são preferencialmente locais, beneficiando diretamente as suas populações no médio e longo prazo. Falo de centros de saúde, de escolas seguras, de programas de vacinação, de instalação de bombas de água, de formação a professores e técnicos de saúde e poderia falar de tantos outros exemplos.

Mas para fazer tudo isto, precisamos de financiamento. A UNICEF é inteiramente financiada por donativos (públicos e privados) voluntários. É por esta razão, que a campanha que refere é tão importante.

Porquê sempre África, é outra das perguntas que faz. Respondo: em 2019, em África existiam mais de 250 milhões de pessoas subnutridas. A prevalência da subnutrição em África é o dobro da média mundial: 19,1% (a média é 8,9%).  São milhões de crianças às quais chegamos – temos que chegar – para minorar os efeitos da fome, para que possam crescer de forma saudável, para que possam aprender, para que possam ter perspetivas de futuro e serem cidadãs de pleno direito como todas as outras.

Também perguntou quem é a Omara. A Omara é uma bebé de oito meses de idade, do Níger, que sofre de subnutrição. No Níger, para além da violência, estimamos que 15% das crianças com menos de cinco anos sofrem de subnutrição. A UNICEF é a principal organização a responder às necessidades das crianças subnutridas neste país. O escritório da UNICEF no Níger está gravemente subfinanciado. Devido à falta de recursos, 50% das crianças que sofrem de subnutrição aguda grave (uma condição com risco de vida) não receberam tratamento.

Espero ter esclarecido. Fico satisfeita que não tenha ficado indiferente à nossa campanha. Precisamos que ninguém fique indiferente. Neste momento, os recursos são poucos para as necessidades de tantas crianças, substancialmente agravadas pela pandemia do coronavírus.

Queremos que a vida e destino de milhões de crianças em África, na Ásia, na América, na Europa e na Oceânia, que não têm acesso a luz, a água potável, a alimentação, a habitação, a vestuário e a educação, mude. Crianças, cujos direitos mais básicos não são assegurados e que veem as suas vidas interrompidas pela subnutrição, pela violência, por casamentos forçados, por mutilação, pela guerra ou pela doença.

A mobilização de recursos, em 2019, permitiu alcançar muitas crianças e famílias, estes foram alguns dos resultados:

  • Vacinámos 41,3 milhões de crianças em situações de emergência contra o sarampo;
  • Conseguimos que 17 milhões de crianças que estavam fora da escola, voltassem a aprender;
  • Instalámos acesso a água potável, beneficiando mais de 18 milhões de pessoas;
  • Instalámos serviços de saneamento básico para mais de 15 milhões de pessoas;
  • E respondemos com assistência humanitária em 281 emergências em 96 países.

Gostava muito que a discussão sobre as causas da pobreza e da miséria se fizesse mais amiúde, sejam elas políticas, económicas ou naturais. Precisamos dessa reflexão, mesmo em Portugal, onde quase 20% das crianças vivem no limiar da pobreza. Precisamos também de soluções que venham desta reflexão pública.

Para cumprir a nossa missão não podemos excluir, temos mesmo que estar em todo o lado, independentemente dos regimes políticos, da guerra ou da paz, da riqueza ou da pobreza de cada país. Temos que estar onde as crianças precisam. Essa é a nossa obrigação e para a realizar precisamos do apoio de todos.

Obrigada, Helena.