Anunciado e implementado novo estado de emergência, é interessante fazer uma reflexão em relação a tudo aquilo que passámos e continuamos a passar enquanto sociedade. Quando em Março deste ano começaram a surgir notícias das primeiras medidas de contenção ao novo coronavírus, tive oportunidade de partilhar com aqueles que me são próximos a minha preocupação, sobretudo em dois pontos que me pareciam essenciais. Por um lado, a meu ver, uma falta de visão holística por parte dos grandes líderes mundiais, focada no curto prazo e pouco na sucessão de consequências negativas que aquelas medidas viriam a ter. Por outro, o pânico que se instalara a nível global.

Tomar grandes decisões motivadas exclusivamente pelos resultados no curto prazo, raramente traz consigo boas consequências colaterais. O foco excessivo em determinado fim acaba por justificar os meios para o alcançar, impedindo a contemplação adequada de todas as externalidades associadas e, no caso das medidas tomadas para prevenir a propagação da Covid-19, fica a ideia, que mesmo que o dano final acabasse por ser maior do que se tivesse havido uma maior leveza nas abordagens feitas, esses danos seriam sempre justificáveis pela maior necessidade de conter o vírus. Não invejo a posição de nenhum líder político no presente, muito menos em março deste ano, até porque hoje, sabendo que a taxa de assintomáticos é substancial e que a probabilidade de estes assintomáticos virem a transmitir a doença é consideravelmente reduzida, há mais ferramentas para tomar decisões ponderadas. No entanto, fica a questão: até quando estaremos dispostos a matar sectores pilares da economia, condenar centenas de milhares de pessoas ao desemprego, condicionar acesso a serviços de saúde não relacionados com a Covid-19, assumir que se deve ter medo de um gesto afável como um abraço ou aperto de mão, tudo em nome de uma doença que, por mais que não nos queiram fazer ver, é isso mesmo.

Alterámos o nosso estilo de vida de forma drástica. Abdicámos de coisas que dávamos como garantidas no nosso dia-a-dia. Abdicámos de ir trabalhar e nos desenvolvermos enquanto pessoas. Abdicámos de conhecer novas pessoas e até nos tornámos receosos a fazê-lo de outro modo que não através de um ecrã. Passámos a recear cumprimentar os nossos pais, avós, filhos. Por um lado, é o sinal positivo de que, enquanto sociedade, temos a capacidade de nos adaptar a novas realidades, mesmo que isso implique uma forte alteração na nossa cadeia de pensamento. Por outro, penso no facto de não mostrarmos a mesma capacidade de mudança de paradigmas perante uma crise climática que decorre actualmente, com consequências mais diretas e graves à vida de cada um, ou perante a morte de milhares de pessoas no Mar Mediterrâneo por fugirem de guerras às quais são alheias, com a conivência de uma Europa que insiste em ser mais parte do problema do que da solução. Será que as crises climática e de refugiados já estariam ultrapassadas se tivessem tido o mesmo marketing que a Covid-19?

Associado a este pânico veio um segundo efeito de uma comunicação deste género. A polarização de opiniões, fruto da propagação de informação intelectualmente desonesta, levou a que a Covid-19 e as medidas de contingência atingissem uma espécie de pedestal sagrado, impensável de ser debatido. Pior, todo aquele que demonstrasse uma opinião diferente àquela propagada pelos media, era visto como irresponsável que não mede consequências do que diz ou faz. Ninguém tinha o direito de pôr em causa aquilo que se passava. O debate construtivo, característica absolutamente essencial numa sociedade democrática, estava impossibilitado. Mais de meio ano depois, pouco mudou.

O medo é a arma mais poderosa que o ser humano desconhece. Leva-nos a tomar acções que nunca achámos possíveis, pôr em causa valores até então intocáveis, ou redefinir por completo aquelas que cada um considera como suas necessidades maiores. E foi esse medo que se impôs a uma velocidade estonteante por vários pontos do mundo, incluindo Portugal. A fortemente politizada Covid-19 tomou proporções drásticas. A comunicação social sensacionalista e tendenciosa, qual veneno da sociedade moderna, assumiu um papel fulcral nesta propagação de medo. Durante meses e meses, os jornais, televisões e rádios não falaram de outro assunto. Durante meses a fio foram divulgadas informações falsas como sendo verdadeiras (como não lembrar a recomendação de não uso de máscara no início da pandemia), foi enfatizada a necessidade e obrigação social de nos mantermos longe de um vírus que, inevitavelmente, chegaria até nós, fomos bombardeados com um protagonismo avassalador com informação de número de infetados, hospitalizados, mortos. Nada mais importava. A Covid-19 nunca foi tratada como a doença que é e a linha que separa a proteção da população e o alarmismo público foi, a meu ver, gravemente ultrapassada.