Serão os avós do novo milénio diferentes dos outros avós? “Regra geral”, não!
É verdade que os avós são macios e adocicados. E fofos, quentes e aconchegantes. É verdade que abrem um sorriso de boas vindas – luminoso e acolhedor – sempre que um neto vai na sua direcção. E que dão a ideia de ter tempo. E são benevolentes e compreensivos. E que se adaptam aos netos como mais ninguém. Aos seus ritmos. Ao seu brincar. Ao faz de conta. E aos seus caprichos.
E que não são intransigentes com a sopa. E, muito menos, miudinhos com as horas de dormir. E, quando passeiam, são bondosos e são pausados. E ternurentos.
E é verdade que fazem duma colher de sopa um aviãozinho carregadinho de paciência. Que dão comida à janela, à procura dos pardais, se for preciso. Que contam, com os olhos, histórias sobre histórias que se atrapalham umas nas outras. E que adormecem, num instantinho, quando, à procura do João Pestana, vão com um neto até à sesta.
Mas é, também, verdade que, apesar dos avós serem assim, estes avós, com muito tempo, seriam reformados. Sem constrangimentos de agenda. Reconhecendo nos netos a “tempestade perfeita” que os fariam reconciliar com a vida e acertar o passo com o amor. Se bem que, apesar dos tons de algodão doce que colocamos sobre os avós, nem todos são atentos e são presentes. E nem sempre reclamam por mais tempo de avós. Serão, assim, avós mais “encolhidos”.
É claro que há, ainda, outros avós – muitos menos, claro! – que medem forças com os pais o tempo todo. E se melindram por quase tudo. Para quem a sua função de avós escorrega, muito mais do que devia, para uma aragem de vaidade. Que puxam os netos para os conflitos que alimentam com os pais deles. E que competem com os pais em campeonatos intermináveis de: “eu é que sei”. E, à boleia disso tudo, é verdade que, quando se está com eles, a vida não é nem amena nem gostosa.
Mas sempre houve bons e maus avós. Avós super-presentes. E avós que se escondem nas suas desculpas para serem omissos. Avós de voz fogosa e ensolarada. E avós tremelicantes. Avós que sabem sossegar e que são um porto de abrigo para queixumes e lamúrias. E avós trapalhões e agitados. Avós fortes. E avós de porcelana. Avós com o coração do tamanho do rosto. E avós desenxabidos e distantes. Isto é, os avós do novo milénio não têm formatos tão diferentes assim dos avós de todos os tempos. São, como acontece desde sempre, pessoas de coração grande que tentam compensar com os netos os erros que os terão entaramelado com os filhos. Por mais que acabem por ser avós mais velhos (porque o primeiro filho de cada casal tende a ser sempre um bocadinho mais tardio). São, muitas vezes, avós pouco dados à reforma. Têm, uns mais do que os outros, alguns recursos financeiros. São, socialmente, mais mexidos, mais intervenientes e mais envolvidos com as suas agendas. Têm programas próprios, que preenchem com os amigos. Viajam, quando podem. E existem para lá da vida dos filhos e da dos netos. Isto é: gostam de ser avós. E rejubilam, sempre que são convocados para ser avós. Mas precisam da sua vida para que sejam melhores avós. Por outras palavras, têm mais recursos, mais informação, menos tempo, menos sintonia com algumas práticas parentais dos filhos mas a mesma vontade de ser avós!
Mas, no novo milénio, há um conflito de parentalidade mais ou menos silencioso entre os avós e os pais. Muitas vezes, os avós ficam divididos entre a sua paixão pelos netos e a forma como se incomodam quando eles se perdem em birras, ou são desafiadores e agitados. Ou quando os pais colocam sobre os netos decisões que, há uma geração atrás, nunca seriam senão dos pais. Ou quando os netos têm nãos muito espaçados, muito amolfadados e excessivamente delicados. E requerem uma atenção permanente e exclusiva. Ou, sobretudo, quando têm os netos mas só com orientações “rígidas” que deixam os avós repartidos entre o desejo de serem só avós e um formato “novo milénio” de o ser, que os deixa magoados, tensos e mal-humorados. Como se, por vezes, os avós não pudessem ser só avós. E, mesmo quando entendem repreender e advertir os filhos para algumas modernices parentais, vivessem com o medo de, com isso, “perderem” os filhos e os netos.
Há demasiadas zonas sensíveis entre os melhores avós que a Humanidade já produziu e os melhores filhos do mundo. Como se os avós do novo milénio fossem empurrados para dilemas que serpenteiam o seu coração. Vejamos alguns:
- Para efeito daquilo que trazem à educação dos netos, são avós. Excelente! Que cometeram os seus erros de pais (há sempre quem os lembre…) Mas são avós que têm opinião, claro, sobre a educação dos filhos e a propósito do desenvolvimento dos netos. Que se acanham, muitas vezes, de a assumir. Tais são as fontes técnicas a que os pais recorrem para criarem alternativas à educação que tiveram. E tal é a forma enfadada com que são corrigidos, quando se trata de as discutirem com os seus filhos. Em relação ao sono, à alimentação, à educação ou ao brincar de cada neto.
- Sempre que é preciso condescender com as cercas sanitárias que os seus filhos entendem fazer aos seus netos, quando eles nascem, ou quando se trata de lhes imporem agendas mais restritivas, que impeçam que os avós estejam com os netos sempre que queiram, são avós com um bom senso que vai para lá do que devia ir. Mas quando é necessário prescindirem da sua vida para que sejam avós em dedicação exclusiva, é bom que estejam sempre mais disponíveis para os compromissos dos filhos.
- Quando se trata de permitir que os netos corram e se sujem, são avós repreendidos porque deixam que os netos façam tudo. (Por mais que os pais dos netos procurem escolas que levem a que os seus filhos estejam num contacto permanente com a Natureza e cheguem a casa com lama até à cabeça.) Mas porque não colocam capacetes de esponja nos netos, quando eles andam pela casa, são tidos como avós desatentos, negligentes ou pouco rigorosos com o perigo.
- Quando se trata de saber quem paga a conta do restaurante, os avós são pais, que chamam a si as suas responsabilidades (o que é aceite, sobretudo, pelos filhos). Mas a propósito da sua opinião em relação aos (maus) modos educativos dos seus filhos, já são “só” desactualizados;
- Quando se trata de gerir datas de aniversário, gestos de empatia para com alguém da família ou iniciativas de “team building familiar”, são complementos de agenda preciosos e imprescindíveis. Mas como pais com olhares privilegiados para legendar um comportamento amedrontado dum neto, um gesto que ele tenha que escorregue para a insolência ou a forma como os filhos gerem a sua autoridade para com ele, estão presos ao passado.
É evidente que nunca houve tantos e tão bons avós. Mas é, também, verdade que a relação entre os avós do novo milénio e os millenials faz lembrar uma crise de adolescência tendo os netos no centro de todas as tensões. Os millenials são pessoas muito mais inseguras do que podem parecer. Mais mimadas do que supõem. E mais egocêntricas do que eles próprios imaginam. E, por isso tudo, a relação entre os avós do novo milénio e os seus filhos millenials é, muitas vezes, cheia de mal entendidos.
É natural que os millenials reclamem para si o desejo de serem melhores que os seus pais. Afinal, até reproduzirem alguns dos erros parentais que criticaram nos pais, todos os filhos têm um bocadinho “a mania” de ser melhores pais que os pais que tiveram. Não que isso signifique que os seus tenham sido maus. Mas porque querem ser melhores! Compreende-se e aplaude-se que seja assim. Mas com sensatez, por favor!
Afinal, pais mais educados e mais informados têm a obrigação de ser melhores filhos! Que sentido tem magoarem os avós quando eles podem, em tantos aspectos, ser melhores nalgumas coisas que os próprios pais? Por acaso é mau o contraditório entre os pais e os avós em relação ao crescimento dum neto? Porventura são demais as pessoas que o amem, de coração aberto, mas à sua maneira? Será que quem ama não escuta, não pensa, não aprende, nem se corrige? Será que parentalidade e sabedoria não podem casar com pontos de vista diferentes que concorrem com equilíbrio? E será que os millenials não deveriam estar, antes, preocupados em ser atentos, cuidadosos e delicados como bons filhos, para que, só depois, consigam ser bons pais? E não deveriam, sobretudo nisso, separar-se dos erros que os seus pais fizeram com os pais deles?