1. “Nada acontece até ser contado” dizia Virginia Woolf que muito contou e bem contou. Tinha razão: o contar pode transformar um quinhão de vida num acontecimento. E se desistirmos contar, que outro destino para o não contado que um poço vazio? Penso muitas vezes nisso. Penso de cada vez que venho ao de cima de qualquer coisa que de imediato me sinaliza que há que contar. Contar sem que importe definir o fio – intuição? impulso? — que nos conduziu. Importa antes que o desatar do fio tenha trazido consigo aquilo que de tão misterioso altera a natureza das coisas, fazendo delas um “acontecimento”. E tanto faz que ele seja privado, pertença apenas a alguns, ou a todos: o que conta é o poder transformador do contar.

O escritor holandês Cees Nooteboom de quem leio agora um diário (“533 dias”, Siruela, Espanha) também se interrogava sobre isso mesmo: “como descrever algo que para o mundo nunca contaria como um acontecimento mas para nós, sim?”

Não preciso porém de recorrer à história dos 533 dias que Nooteboom passou na sua amada casa da ilha de Minorca para classificar de “acontecimento” uma noite inclassificável que testemunhei há dias e merece ser contada.

Passando eu agora a voluntária mensageira dessa noite.

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