Não se pode falar da imigração sem que um oligarca levante a vozinha beata para nos lembrar que precisamos dos imigrantes. Precisamos? Precisamos. Precisamos de cuidadoras, de empregadas domésticas e de estafetas e condutores das plataformas de transporte e distribuição. O Terceiro Mundo é hoje o que há 70 anos eram as aldeias da nossa província para as classes médias e empresários urbanos: uma fonte de mão de obra barata. Sim, desse ponto de vista, precisamos dos imigrantes.

Mas convém lembrar uma coisa aos oligarcas: é que os imigrantes também precisam de nós. Precisam da economia de mercado, do Estado social e do Estado de direito que aqui desenvolvemos e que não se desenvolveram na maioria dos países de onde os imigrantes vêm. Precisam, uma vez aqui, das nossas escolas, dos nossos hospitais, da nossa polícia, das nossas empresas. Precisam, portanto, que nós consigamos preservar o que tornou as nossas sociedades atractivas como destino de migração.

É isso que, acima de tudo, está em causa perante as migrações súbitas, descontroladas e maciças a que, por decisão dos seus governantes, o Ocidente se sujeitou na última década. Os riscos são muitos. O fluxo migratório, promovido pelas redes de tráfico humano, é suficientemente grande para não ser improvável que ultrapasse a possibilidade de acolhimento. Não estamos livres de ver as nossas metrópoles desfiguradas pelas manchas de pobreza e de violência que caracterizam as cidades do Terceiro Mundo.

A integração, porém, não é apenas uma questão de logística, de haver empregos, casas, escolas e hospitais. É também uma questão política, de haver vontade de iniciar os migrantes no respeito às nossas instituições, valores e costumes. Na nossa sociedade politicamente polarizada, nem todos têm essa vontade. A extrema-esquerda woke espera usar os migrantes na guerra à democracia liberal, à economia de mercado e à memória histórica. E entre a imigração, há correntes políticas, como o radicalismo islâmico, dispostas a colaborar nessa subversão.

As marchas contra Israel nas grandes cidades ocidentais são um exemplo do que pode a conjugação entre o wokismo e o jihadismo. Desde 1945, o Ocidente tentou libertar-se das ideologias anti-semitas e dos preconceitos populares que as amparavam. Mas a extrema-esquerda não esqueceu a propaganda soviética contra Israel, e os radicais islâmicos podem confiar em que muitos migrantes vêm de países onde o ódio aos judeus é oficialmente estimulado, e que não têm inibições a esse respeito. Eis como uma grande conquista civilizacional – o fim do anti-semitismo no Ocidente – está a ser revertida. Hoje, os estudantes judeus são ameaçados nas universidades americanas, e as sinagogas ardem na Austrália, como arderam na Alemanha nazi.

A imigração, se descontrolada e sem integração, pode ser apenas um meio de importar para as sociedades ocidentais os sarilhos que atormentam as sociedades de origem dos imigrantes. Imagino a desagradável surpresa que muitos somalis devem ter tido na Suécia ao descobrir que os gangues armados de Mogadíscio tinham aproveitado o caos migratório para se instalarem em Estocolmo. Quem fugiu da Somália não foi certamente para a reencontrar na Escandinávia.

Só uma imigração ordenada e explicitamente dependente do respeito às instituições e valores das sociedades ocidentais pode salvaguardar o modo de vida ocidental para benefício de todos, os que estão e os que chegam. Sim, precisamos dos imigrantes – tanto como eles precisam de quem, no Ocidente, acredita nos princípios que o constituem.