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Os irmãos Sobral

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Sendo o Dia dos Irmãos a 31 de Maio, a vitória a 13 de Maio tinha que ser para uns irmãos. Foi uma vitória capicua, uma vitória reflexa. E não foram uns irmãos quaisquer. Foram os irmãos Sobral.

 

Hoje, que é Dia dos Irmãos, lembro-me certamente do meu único irmão, que morreu mais cedo do que devia. Lembro outros irmãos que me tocam: os meus pais e tios, os meus primos, os meus cunhados, os meus sobrinhos, os meus filhos, os meus netos. Uma cabazada de irmãos, em diferentes patamares. Desde uns que nos iluminam só com a saudade até a outros que nos brilham com energia e esperança. Todos são luz. Todos guardam esse precioso bem, a cumplicidade. Não a dos bandidos, bem entendido. Mas a da gente que cresce em conjunto e desde cedo aprende a partilhar, a dividir, a somar.

Porém, hoje, 31 de Maio, Dia dos Irmãos, a melhor evocação que consigo fazer é a dos irmãos Sobral: a Luísa Sobral e o Salvador Sobral, que, de modo tão absolutamente improvável, ganharam para nós o Festival da Eurovisão e nos deram uma alegria desconhecida. Não é ser um feito raro – mais que raro, único. É ter sido uma coisa improvável: uma coisa totalmente improvável que, de repente, nos aterrou nas nossas vidas pela mercê de dois irmãos.

Hoje, a Luísa e o Salvador Sobral são certamente os dois irmãos mais famosos em Portugal. Provavelmente também os dois irmãos mais famosos na Europa (e na Austrália), depois de terem sido seguidos em directo, através da Eurovisão, por mais de 200 milhões de telespectadores. E, na embalagem com que simplificamos habitualmente estas coisas, não teremos dúvida de que, hoje por hoje, são os irmãos mais famosos do mundo.

Há muito que não ligava ao Festival da Eurovisão, nem ao nosso Festival da Canção que, quase sempre, o precedia. Como espectador, foram muitos anos, não digo “a virar frangos”, mas a coleccionar desapontamentos. A verdade é que, mesmo quando os nossos temas tinham qualidade reconhecida e os trauteávamos (ainda houve vários), não tínhamos a menor sorte na Eurovisão. Aquilo era para outros.

Depois, o Festival da Eurovisão entrou em declínio, explodiu o número de países participantes e, quase sempre, nem chegávamos à final. Chegámos a estar excluídos nalguns anos. Pareceu-me, em geral, uma coisa cada vez mais liofilizada, de que quase nada útil e memorável podíamos reter. Uma xaropada sem interesse. A RTP também foi variando, ano após ano, o figurino da escolha nacional, às vezes de forma infeliz. A última coisa que nos passaria pela cabeça é que pudéssemos ganhar. Uma “representação digna”, com certeza – viria na linha das famosas “vitórias morais”, antigamente também no desporto. Mas vencer? Nem pensar.

Neste ano, houve qualquer coisa no novo figurino da RTP que me despertou o interesse. Espreitei, displicente, as duas semifinais. Gostei de três temas: o “Gente Bestial”, do Jorge Benvinda (sou um fã dos “Virgem Suta”, não tem que saber); a “Primavera”, de Celina da Piedade; e o “Amar pelos dois”, de Salvador Sobral. Mas aquela que achei que teria alguma hipótese “lá fora”, foi o “Don’t Walk Away”, de Pedro Gonçalves – este é que, pensei, os júris e os televotos iriam valorizar. Quanto a nossa final ditou o resultado, mandando os irmãos Sobral representar-nos a Kiev, achei bem, mas fiquei à espera da sova do costume. Para a tal “representação digna” para ser imolada na habitual “actuação muito honrosa”, teria preferido que tivesse vencido o “Gente Bestial”. Já disse: sou fã dos “Virgem Suta” e o Jorge Benvinda marcaria certamente com o seu estilo único os palcos europeus. Mas o “Amar pelos dois” também estava bem. No meu diagnóstico conhecedor de treinador de bancada, o “Don’t Walk Away” é que poderia galgar qualquer coisa – o resto seria a tristeza da praxe.

Nem as reportagens de Kiev, fazendo eco da boa recepção da crítica à composição da Luísa Sobral e ao estilo do Salvador Sobral, abalaram o meu pessimismo doutorado. Lembro-me de inúmeros festivais desde a minha juventude, em que a nossa imprensa noticiava grandes elogios à nossa canção, para depois tudo terminar em consecutivos baldes de água fria, por vezes gelada. Para mim, o destino estava marcado: nem íamos à final.

É com a semifinal de 9 de Maio que o meu ânimo muda. Para dizer a verdade, nem vi. Gosto de me poupar a desgostos sempre que posso. Vi, depois, retrospectivamente, pelo YouTube, a actuação do Salvador Sobral. Havia, de facto, ali, qualquer coisa mais. E passei a acreditar mais nos relatos e testemunhos da imprensa. Era capaz de não ser a mesma coisa, a mesma crendice-porque-tem-de-ser de outros anos atrás.

Chegado o 13 de Maio decisivo, sentei-me diante da televisão quase uma hora depois de começar. Foi um dia de emoções fortes, consecutivas. De manhã, estive em Fátima, pelo Centenário e com o Papa. A seguir, mudar de “chip” de Francisco para o Jonas. Rumei ao Estádio da Luz, para vibrar com os 5-0 do jogo e a conquista do primeiro tetra. E, acabada a função campeã, mudar de novo o “chip” da bola para a música.

Fiquei em casa a seguir a sorte dos Sobral. De novo, não o vi em directo, mas agora com boa desculpa: a transmissão do Festival em Kiev começou às 20:00, comigo ainda aos pulos no Estádio da Luz. Chegado a casa, rebobinei a TV-box para verificar se o Salvador Sobral tinha estado bem, como a rádio e os online relatavam. Sim, senhor. Fora fantástico! E, com a mesma confiança que trazia do Estádio, acreditei: vamos ganhar isto! Fiquei a ver tudo, renunciando a ir até ao Marquês de Pombal, que também me chamava. O Benfica já estava. O Papa já era. Agora, o tempo era dos Sobral.

Vi a transmissão que faltava e, nos intervalos, recuperei o que perdera. De facto, as apostas eram capazes de estar certas e os relatos da imprensa podiam traduzir e antecipar a verdade do sentimento geral. O “Amar pelos dois” da Luísa Sobral, cantado de modo extraterrestre pelo Salvador Sobral, era um dos dois ou três temas que se destacava claramente não só pela qualidade própria, mas por uma outra qualidade rara: não saíra da mesma fábrica de salsichas de quase todas as outras canções.

Quando a votação começou, aquele aguaceiro torrencial de “twelve points” emocionou-me até às lágrimas. Nunca tinha experimentado uma coisa assim por causa de uma canção nossa: uma música nossa, um poema nosso, a nossa língua, gestos e caras e entoações que são nossos. Nunca vivera isso. Quando acabou a votação dos júris, a minha confiança era de aço: “Está no papo!” Nem o suspense que ainda se seguiu, com o anúncio às pinguinhas dos resultados do televoto, me abalou. Quais búlgaros, quais quê! A taça era nossa! E foi.

Que grande noite, essa, a de Kiev para o mundo.

Além do talento dela e dele, de cada um dos Sobral, e de todos os que concorreram para aquela construção artística, eu creio que o segredo ali, o supremo elixir, foi o serem irmãos. Ouvindo, antes e depois, histórias de um e de outra sobre o como tinha sido, em cima do parto da Luísa Sobral, mãe recente, tocou-me a ideia de que nada teria acontecido, se não fossem irmãos, se não se conhecessem e adivinhassem tão bem, se não fossem de modo tão próximo e tão íntimo fãs um do outro. A Luísa compôs aquela canção em cima do prazo (compôs, aliás, ainda uma outra), sabendo que era para o Salvador e certamente imaginando como a cantaria. E o Salvador ouviu, entendeu e ressoou cada uma das palavras e cada um dos sons do poema e da música da Luísa como mais ninguém faria. São irmãos artistas, que cresceram como irmãos artistas. Irmãos de sonhos e de talentos também, com um apuradíssimo grau de conhecimento mútuo. É uma cumplicidade superlativa.

Essa química vimo-la, como nunca mais, num momento sublime no fim do Festival. Não, não foi naquele curto discurso fantástico, em Inglês, do Salvador Sobral em que vergasta a “fast food music”, repudiando o fogo-de-artifício e convocando o sentimento – uma crítica aos sábios dos palpites, como eu; e crítica maior às fábricas de salsichas que os alimentam. Foi logo a seguir a isso.

Na última interpretação do “Amar pelos dois”, no momento da consagração, o Salvador escolheu cantar em dueto com a irmã, a autora, em vez de sozinho. São um gesto e uma actuação de grande beleza, que já vi e revi dezenas de vezes. Mas tem um momento absolutamente ímpar, deslumbrante. Quem quiser pode ir espreitar ao minuto 4:34 do vídeo oficial no YouTube, intitulado “The winning performance of Salvador and Luísa Sobral from Portugal

É aquele momento único em que a Luísa Sobral fica um bocado a cantar sozinha e o irmão, como um garoto feliz numa festa adolescente de garagem, desprende-se do mundo, vibra, agita-se e torce por ela, rindo e apontando-a a todos como um ídolo. Isso acontece entre o minuto 4:34 e 4:48 desse vídeo. Vejam. Cortei e pus esse clip, hoje, na página Facebook do “Dia dos Irmãos”.

Vale a pena ver e rever. É um maravilhoso momento de ternura, de amizade, de companheirismo, de entusiasmo de dois irmãos de talento excepcional e coração extraordinário. E toca, marca, que, ali, naquele palco da Eurovisão, em Kiev, no momento em que conquistara o maior prémio da sua vida artística, Salvador Sobral não tivesse nada mais importante para mostrar a 200 milhões de telespectadores do que a sua irmã, “uma das melhores compositoras que já conheci e do mundo”, como a havia apresentado.

Um especialista em numerologia descobre facilmente a explicação para o sucedido. Sendo o Dia dos Irmãos a 31 de Maio, a vitória a 13 de Maio tinha que ser para uns irmãos. Foi uma vitória capicua, uma vitória reflexa. Mas não foram uns irmãos quaisquer. Foram os irmãos Sobral. Muito obrigado.

Quem realmente disse tudo, quando torcia por nós no dia decisivo, foi Caetano Veloso: “Ele é bom demais!” A Luísa também.

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