“Porque é que agora temos tantos fogos todos os anos”?
Esta pergunta foi-me feita recentemente e a resposta é relevante para a percepção pública sobre a problemática dos incêndios no nosso país, até porque para muita gente pode ser surpreendente: Não temos mais, pelo contrário, cada vez temos menos.
Mas então se cada vez temos menos, mas todos os verões temos este triste espetáculo nos jornais e televisões, trata-se de uma manipulação jornalística?
Também não, e para o tentar aqui explicar, volto à citação inicial de Jorge Bacelar Gouveia, proferida há dias numa televisão a respeito de um estudo da SEDES que contrapunha a diminuição estatística da criminalidade com o aumento de cobertura deste tema em capas de jornais. Acertivamente disse que a criminalidade geral pode ter diminuído, mas a criminalidade violenta aumentou, e é isso que é notícia.
Vejamos o que se passa com os incêndios olhando primeiramente para um exemplo, a Serra do Açor no centro de Portugal, e depois partindo daí para o país todo.
Ora na Serra do Açor, em bom rigor nos concelhos de Arganil, Góis e Pampilhosa da Serra, nos últimos 40 anos não tem ardido nem mais nem menos: por cada década ardem uns 50 mil hectares.
Não obstante, a forma como tem ardido tem-se alterado substancialmente: se há 40 anos tínhamos em 10 anos, 7 com incêndios, na primeira década deste século os incêndios concentraram-se em 4 anos, e a partir de 2005 deixou de haver história, até que em 2017, num único ano (na verdade numa única semana), arderam de uma só vez os mesmos 50 mil hectares.
Isto não é nenhuma novidade para quem se interessar um bocadinho por conhecer o fenómeno dos incêndios – ao diminuir o número de incêndios, aumenta o seu tamanho — e ali, no histórico de fogo da Serra do Açor é cristalino: arde de uma vez aquilo que há 40 anos ardia em 19 incêndios espraiados por 7 anos.
Umas zonas do país já têm (sobretudo a região central do país entre a Chamusca, Nisa, Serra da Estrela até Coimbra) e outras para lá caminham, este mesmo padrão de fogo: cada vez menos incêndios (o ano passado foram 6500, em 2005 foram 35 mil), mas alguns deles enormes.
De volta então à questão inicial: temos incêndios todos os anos?
Sim, todos os anos e até todos os meses. Por exemplo em Janeiro deste ano foram 104, em Março foram 344, em Maio 453.
99,9% dos portugueses desconhece que estes incêndios ocorreram. Porquê? Porque foram pequenos e rapidamente apagados sem causar estragos de maior, pelo que não chegaram às capas de jornal ou aos telejornais.
Todavia, neste novo padrão de fogo, não é só o tamanho do incêndio que muda: assistimos a autênticos monstros de fogo, imparáveis (muitas vezes só acabam apenas quando já não há mais nada para arder ou quando chove) e destruidores (ceifando vidas humanas, animais, destruindo casas, outras infraestruturas, ameaçando investimentos, turismo, ambiente, etc.).
E isso é, naturalmente, notícia!
Tal como no caso da criminalidade, temos menos, mas mais graves. E embora se crie a ilusão de que há mais fogos, na verdade o que o aumento da cobertura mediática nos mostra é o aumento da gravidade do fogo.
Interpretar isto pode ser complicado, mas é muito útil: não se trata de um problema de quantidade, trata-se de um problema de padrão de fogo: não havendo mais incêndios, mas sim menos, não ardendo nem mais nem menos, mas sim o mesmo, há contudo custos e destruição cada vez maiores em consequência deste padrão.
E porque é que isso é importante? Porque não podemos evitar que arda, que arda o mesmo, mas podemos alterar este padrão catastrófico: podemos escolher quando arde e como arde.
Podemos queimar controladamente de inverno, deixar arder vigiadamente de inverno, apoiar queimadas pastoris e substituir o consumo do fogo por consumo de gado ou de limpeza por atividades como a resinagem ou a caça ou a conservação da natureza. Podemos antecipar a queima, evitando o monstro que inevitavelmente chegará se não o fizermos. Parafraseando Stephen Pyne, paradoxalmente para resolvermos o problema do fogo precisamos de mais fogo. Daí a importância de entender tudo isto: perceber que há uma escolha possível que teimamos em não fazer preferindo perseguir uma impossibilidade (a de não ter fogo, porque isso, é impossível).