Pedrógão Grande ardeu há 3 anos. E, depois desse inferno de chamas, sobrou um deserto onde pouco se passou. Existem casas destruídas que permanecem inabitáveis e muitos dos que viram as suas vidas arrasadas continuam sem o acompanhamento devido. A averiguação das insuficiências na resposta do Estado, feita pela investigação jornalística, foi ruidosa e destapou até encobrimentos — mas as investigações formais foram quase sempre longas e inconclusivas. Ninguém sabe ao certo como foi efectuada a gestão dos fundos de apoio e dos donativos, apenas que várias suspeitas de corrupção se instalaram. E apesar dos grupos de trabalho e das garantias de prioridade política, os primeiros pacotes legislativos ditos urgentes só agora foram publicados. Entretanto, a natureza fez o seu caminho: a floresta cresceu, sem um planeamento que possa assegurar que se fez o possível para evitar nova tragédia. Este é um balanço que envergonha.

O caso de Pedrógão Grande é trágico e uma cicatriz que marcará para sempre a memória nacional. Mas, noutra escala, é também apenas mais um exemplo rotineiro de como o Estado português falha no mais básico — nas apostas estratégicas que ficam no papel, na prevenção dos riscos, na resposta às crises, na defesa dos mais desprotegidos e frágeis, no escrutínio das decisões políticas e na procura da verdade. Este não é um problema sectorial do ordenamento do território, das florestas e dos incêndios. Isto é o retrato de um país: sem reformas e com a displicência permanente no modo de governar e administrar os assuntos da vida pública, seja na Saúde, na Educação, na Economia ou nos apoios sociais. Exige-se muito pouco e recebe-se ainda menos.

Curioso como, passados 3 anos, Pedrógão Grande ainda nos lança avisos. Hoje, quando vivemos sob a ameaça de uma pandemia, o balanço do que não se fez após os incêndios é, de certa forma, um olhar sobre o nosso presente e o nosso futuro. Apregoa-se um “milagre português” no combate à Covid-19 com a mesma irresponsabilidade com que, há 3 anos, se dizia em Pedrógão Grande que todo o possível havia sido feito. O resultado de então é conhecido e igualmente mau será o desta emergência sanitária. As desigualdades na saúde acentuaram-se, com milhares de diagnósticos por realizar, mas nem por isso o Estado reforçará o acesso a cuidados médicos. As desigualdades na educação ampliaram-se, para enorme prejuízo dos socialmente desfavorecidos, mas nem por isso as escolas multiplicarão apoios efectivos. E, com sectores da economia arruinados, as condições de vida de milhões de portugueses dependentes dos seus negócios deteriorou-se dramaticamente. As vítimas são sempre as mesmas — os mais pobres, mais frágeis e mais dependentes das instituições do Estado. Todos se agarram às variadas promessas de apoios, como náufragos se penduram em bóias. Mas muitos vão mesmo afogar-se. Aqui não há milagres.

Este afundar de Portugal não acontece por fado, mas por convicção. É próprio de um país que prefere o conforto das mentiras (como o “fim da austeridade”) a o enfrentar da verdade. Próprio de quem, perante adversidades, bate palmas aos que promovem o unanimismo, inventam “milagres” ou afirmam “que se fez tudo o que era possível fazer”. Próprio de quem apupa os que, nos momentos de decisão, fazem perguntas, questionam opções, exigem resultados e fiscalizam o seu cumprimento. Próprio de quem se viciou no mito de excepcionalismo português, que descobre em cada um de nós o “melhor do mundo” e esquece que a nossa prosperidade depende muito mais da força das instituições democráticas.

E agora? Agora, mesmo em tempo de proclamado “novo normal”, a rotina de sempre impor-se-á. Tal como um carro que acelera imparável rumo a uma parede, o país assiste impávido à iminente destruição das chances de uma vida melhor para tantos portugueses. Daqui a 3 anos, quando esse balanço também for feito, voltaremos a envergonhar-nos.