Antes de ser pai, a dúvida que mais me ocupava não era logística, financeira ou sequer emocional. Era a capacidade de educar. Perguntava-me se saberia passar valores sólidos e consistentes. Hoje, quando a minha principal função na vida é ser pai, essa dúvida não só permanece como se tornou mais urgente. O que consigo transmitir? Que tipo de cidadãos estou a ajudar a formar? A pergunta é pessoal, mas o problema é colectivo.
Vivemos num tempo em que a informação não tem fim. E, apesar desse excesso, tropeçamos todos os dias no mesmo tipo de notícia: professores agredidos por pais ou alunos, discussões vazias em competições desportivas, pais a defenderem injustiças evidentes em grupos de WhatsApp. Há uma linha comum em quase todos estes casos: nunca é culpa dos filhos. Eles surgem como figuras intocáveis, imunes ao erro. E muitos pais sentem que o seu papel é defender, ocultar, atacar – tudo, menos admitir.
Chamo à nossa geração de pais – “E se ele não gosta de mim?”. A pergunta não dita apenas o comportamento; define a medida do nosso sucesso como pais. Queremos ser vistos como os melhores, mesmo que isso seja apenas uma percepção dos filhos e não a realidade. Este reflexo tem consequências sérias. Estamos a criar jovens pouco preparados para o que a vida exige e, pior, com pouca capacidade de coexistir com os outros. A hiperprotecção do erro, da falha ou da simples preguiça está a bloquear o desenvolvimento natural dos nossos filhos.
Há sinais evidentes. Uma mãe a pedir que o jogo da apanhada seja considerado perigoso. Pais a acompanharem filhos a entrevistas de emprego. A estranheza de não existirem grupos de WhatsApp nas turmas universitárias. Parece exagero, mas são factos reais que mostram a distância entre o que consideramos normal e o que é saudável. Não escrevo isto por arrogância; escrevo porque também devo ser justo na crítica.
Apesar de gostar de pensar com base em ideias filosóficas, encontro muitas respostas na observação simples do mundo animal. Uma progenitora prepara a cria para a dureza da vida com instinto e pragmatismo. Nós, pelo contrário, perdemos o sentido prático da educação. E fomos um pouco mais longe: transformámos a vida dos nossos filhos numa extensão da nossa. Protegemo-los não para o mundo que eles vão enfrentar, mas para aliviar os nossos medos, inseguranças e frustrações.
A verdade é simples: os nossos filhos não são nossos. Estão de passagem pela nossa vida. E é nessa passagem que temos a responsabilidade de os ajudar a ser melhores pessoas — não necessariamente pessoas mais cómodas, ou que dão menos trabalho. Pessoas capazes de decidir, de distinguir o bem do mal, de compreender o mundo para lá do algoritmo que lhes serve conteúdos.
Recordo-me de uma colega que dizia: “prefiro que ela chore agora do que eu depois”. Sempre me revi nessa ideia. O problema é que, hoje, parece que já não queremos que eles chorem agora, nem queremos chorar depois. E isso, pura e simplesmente, não é possível.