Custa admitir, mas André Ventura tinha razão. Durante anos, logo desde o início da sua fulgurante carreira política, o líder do Chega fartou-se de chamar a atenção para o grave problema da pedofilia em Portugal. Não havia intervenção pública em que Ventura não nos avisasse. “Cautela com os pedófilos, portugueses! São muitos e estão espalhados por aí! Há que castrá-los castrar! Pensem nas nossas crianças! Mas pensem correctamente, não pensem com lascívia, como esses pedófilos que abundam em nossa Nação!” O tema era a agricultura? André Ventura aproveitava para propor o corte de nabos a eito. Falava-se de política externa? Ventura denunciava abusos sobre as tribos de pigmeus africanos. Filas de espera no SNS? O líder do Chega sugeria que o processo de castração química fosse efectuado em Hospitais Pediátricos, para acrescentar pirraça à punição. Ventura não perdia uma oportunidade para fustigar os pedófilos.

E nós, irresponsáveis, gozámos com André Ventura. “Quais pedófilos, pá?”, zombámos. “Portugal não tem um problema de pedofilia. Onde estão os números que sustentam essa tese?” Presunçosos, do alto da nossa empáfia suportada em dados, escarnecemos da preocupação bem intencionada de Ventura. Hoje, depois do que se descobriu na semana passada, sabemos que André Ventura falava com conhecimento de causa. Os portugueses em geral, que não têm contacto com o sinistro mundo da pedofilia, até podiam achar que não existem assim tantos pedófilos no país. Mas Ventura falava com conhecimento de causa. É que, pelos vistos, no mundo onde se movimenta, a pedofilia é habitual. Se entre os amigos, conhecidos e companheiros de Ventura abundam pedófilos, é natural que o líder do Chega sinta que há um problema de abuso sexual de menores em Portugal. Se nem para arengar contra a pedofilia na Assembleia Municipal de Lisboa o Chega consegue recrutar um não-pedófilo, quantos depravados ocultos não haverá escondidos no partido? Lembremo-nos que Nuno Pardal engatou um rapaz de 15 anos numa aplicação de encontros e pagou vinte euros por sexo oral através de uma aplicação financeira. Instaladas no mesmo telefone que usava para gravar os vídeos que Ventura depois postava no Tiktok a denunciar a pouca-vergonha da política portuguesa.

Pode parecer forçado estabelecer uma ligação entre o Chega e a pedofilia, mas é indesmentível que 100% dos políticos portugueses que confessaram actos pedófilos são do partido. Ventura sempre se gabou de o Chega ser um partido fora do sistema. Depende que sistema estamos a falar. Se for do prisional, em breve vai estar bem dentro.

André Ventura é um visionário. Nós, portugueses, é que estávamos cegos. Em nossa defesa, há uma razão para não termos visto os pedófilos que André Ventura via: é que não víamos mesmo os pedófilos que André Ventura via. Ventura foi vítima da heurística da disponibilidade, um viés mental que faz com que uma pessoa ache que a probabilidade de um acontecimento ocorrer é maior do que na realidade, porque se recorda facilmente de acontecimentos semelhantes no passado. Por exemplo, uma pessoa cujo conhecimento de futebol se resume a assistir a jogos no Estádio do Bessa, conclui que a maioria de adeptos do mundo são do Boavista. Ou seja, André Ventura acha que andam muitos pedófilos por aí porque se lembra de ver muitos pedófilos por aí. Provavelmente, numa base diária. Nós, que não militamos no Chega, temos evitado o contacto com o sórdido mundo da pedofilia; Ventura, pelos vistos, não tem conseguido. Daí sentir-se na obrigação de denunciar os pérfidos abusadores.

Não consigo imaginar a dor de Ventura, que quer livrar o país dos pedófilos, mas não consegue. Eles aparecem-lhe de todos os lados! Estou convencido que é por isso que André Ventura não tem filhos. Para alguém que passa a vida a falar sobre o carácter sacrossanto da família, é estranho que o líder do Chega nunca tenha formado uma. Agora percebe-se porquê. André Ventura sabe que, se tivesse um filho, inevitavelmente, num dia em que tivesse de trabalhar até mais tarde – possivelmente para dar mais uma conferência de imprensa a denunciar a pedofilia – teria de pedir a um dos seus correligionários para tomar conta da criança. E não ficaria descansado, a pensar na hipótese de ter entregue o seu filho a um pedófilo.

Não invejo a sorte de Ventura. Deve estar desesperado, a pensar em formas de limpar o partido da influência pedófila. Talvez tenha de pedir ajuda divina. Aconselhar-se com Nossa Senhora de Fátima, que tanto o inspira. Mas é melhor ir sozinho, não levar ninguém do partido. Lembra-te, André, que tu vais a Fátima por ser onde a mãe de Cristo apareceu, mas há camaradas teus que vão por ser onde crianças ingénuas se ajoelharam.