Na gíria futebolística brasileira, convencionou-se denominar “várzea” aquilo que é amador, ou seja, o contrário de profissional. O conceito extrapolou o ambiente esportivo e passou a abarcar tudo o que é considerado mal concebido, desorganizado, improvisado, desprovido de rigor. Passados 130 anos desde a sua proclamação, a República Federativa do Brasil pode ser considerada uma imensa várzea. E o governo de Jair Bolsonaro tem se mantido fiel a essa tradição “varzista”.

Próximo de completar três meses de mandato, Bolsonaro parece ainda não ter percebido que a campanha eleitoral acabou faz tempo. Com o país atolado na pior crise económica de sua história – herança maldita das gestões criminosas lulopetistas –, Bolsonaro precisa de descer do palanque e começar a governar. Cabe ao chefe do Executivo assumir o papel de principal articulador político do governo, aquele que logra construir consensos que incluam os diversos grupos de interesses representados no Congresso Nacional. Apenas assim poderão ser aprovadas as reformas necessárias à retomada do desenvolvimento do Brasil.

Ao longo destes quase três meses, o maior adversário do governo Bolsonaro tem sido o próprio presidente, que não perde oportunidades de inverter prioridades. O twitter de Bolsonaro tem sido uma máquina de disseminar polêmicas improdutivas. Os seus tweetts têm negligenciado a negociação política levada a cabo por ministros competentes, profissionais, e privilegiado o combate ao marxismo cultural, alvo predileto do núcleo amador (radical seria o adjetivo mais preciso), associado ao filósofo Olavo de Carvalho, alçado gloriosamente ao posto de guru bolsonarista pelos filhos do presidente.

Para regozijo daqueles que anseiam pelo naufrágio do bolsonarismo, os importantes ministérios da Educação e das Relações Exteriores têm sido fonte de repetidos constrangimentos. Encabeçadas por “olavetes”, essas pastas sintetizam a incompetência e falta de traquejo no novo governo. O que sobra em entusiasmo voluntarista falta-lhes em experiência executiva. Para afagar o ego de aliados ideológicos, Bolsonaro converteu aquelas pastas em campos de guerra cultural.

No Ministério da Educação (MEC), Ricardo Vélez Rodríguez encontra-se enredado na disputa por primazia entre “olavetes”, burocratas e militares – estes, reserva moral e técnica do governo. Após demitir ocupantes do primeiro escalão do ministério – um mesmo cargo chegou a ter três ocupantes em menos de uma semana –, o próprio ministro teve sua cabeça pedida por Olavo de Carvalho, que fora o padrinho da sua nomeação. Resta ao presidente, hesitante em arcar com o desgaste da demissão prematura, acionar a guilhotina. Nos bastidores, fala-se da volta do ex-ministro da Educação de Michel Temer, José Mendonça Filho, do Democratas.

Fato é que as propostas para a educação avançadas por Bolsonaro no discurso que fez na Câmara dos Deputados, em fevereiro, foram colocadas em plena execução. Sem surpresa, a entrada em vigor de um projeto estruturado foi completamente omitida pela imprensa militante. Entretanto, tão constrangedor quanto a usual indiferença da comunicação social, senão mais, foi a atitude mesquinha dos “olavetes”. Por pura vaidade e disputa de espaço dentro do MEC, o guru bolsonarista, em duas tweetadas, inconsequentemente fritou os únicos profissionais realmente competentes para gerir a desratização ideológica da educação no Brasil. Agora não conseguirão fazê-lo, são amadores, típicos jogadores de várzea.

Até que se resolvam as suas brigas intestinas, o ministério deverá continuar paralisado. Talvez fosse o caso de lembrar ao ministro que o Brasil figura nos últimos lugares dos rankings do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), e que, já em nível universitário, verbas públicas continuam a financiar investigações bizarras, sem qualquer proveito ou aplicação social, mero entulho ideológico a acumular poeira nas prateleiras das bibliotecas.

O desempenho do Ministério das Relações Exteriores não sugere impressão mais auspiciosa. Pelo contrário, pouco tem contribuído para melhorar a imagem mundial do Brasil e do seu presidente. Somente agora, após quase três meses de mandato, é que se cogita finalmente substituir embaixadores ligados ao lulopetismo. Segundo Bolsonaro, importantes representações diplomáticas apresentam o seu governo no exterior como racista e homofóbico.

Olavo de Carvalho, que vive em Richmond, Virgínia, já adiantou que aceitaria chefiar a embaixada nos EUA. A julgar por tal declaração e pelo apadrinhamento dos dois referidos ministros, além de ideólogo do governo, o filósofo seria também especialista em loteamento de cargos. Seu aluno, Ernesto Araújo, o ministro das Relações Exteriores, é admirador assumido de Donald Trump e de sua política antiglobalista. Araújo justificou o alinhamento gratuito do Brasil com os EUA como ato de defesa dos valores civilizacionais do Ocidente. Incomum na tradição diplomática brasileira, alinhamentos automáticos têm geralmente frustrado os interesses do país.

Alarmada com essa mudança de comportamento por parte da diplomacia brasileira, a China, o maior parceiro comercial do Brasil, ainda está em compasso de espera. No entanto, mesmo a indefinição chinesa causa prejuízos. Beijing travou o primeiro desembolso para a composição de um fundo para cooperação econômica bilateral que pode chegar a US$ 20 mil milhões. Trata-se de uma verdadeira lástima para o Brasil, país que necessita desesperadamente de investimento externo para dinamizar a sua economia.

Em qualquer disputa comercial entre os EUA e a China, será geralmente o Brasil o maior perdedor. O gigante sul-americano tem pés de barro. Impotente, assiste à sua relevância regional escorrer-lhe por entre os dedos. A atual crise venezuelana evidenciou o oceano existente entre a autoimagem do Brasil e os seus recursos efetivos de poder. Diante de um conflito comercial entre EUA e China, a fragilidade do Brasil aconselha que fique de fora da briga. E que não aposte todas as suas fichas no mesmo lutador. Os EUA sabem como ninguém defender os seus interesses e não dependem do Brasil para nada. Na verdade, é poderoso concorrente global do agronegócio brasileiro.

Os principais constrangimentos ao governo Bolsonaro estão localizados no seu entorno imediato (filhos e “olavetes”), e no próprio presidente, que às vezes parece lutar contra moinhos de vento. Não adianta insistir no discurso de campanha: “no meu governo não haverá toma lá dá cá da velha política”. Isso é perda de tempo. O presidente já deveria ter adotado a política como estratégia de se fazer política. A democracia demanda articulação, composição, construção de consensos. Apenas regimes autoritários prescindem de negociação.

Ser profissional em política significa sobretudo administrar os inevitáveis conflitos entre os diversos grupos de interesse. A figura antípoda ao gestor público técnico é aquela do ideólogo, seja à esquerda seja à direita. Tipos como Jean Wyllys, Márcia Tiburi e o Olavo de Carvalho fazem do Brasil uma imensa várzea. Em comum, além da intolerância, consideram-se autoexilados. Se a moda pega, serão mais de 200 milhões de autoexilados.

Os bolsonaristas devem se acostumar com a ideia de conversar com os variados espectros da política brasileira. Afinal, são 30 partidos legitimamente representados no Congresso Nacional. Negociar com esta miríade de forças exige mais do que habilidade transacional, requer antes de tudo uma disposição política essencialmente realista e pragmática. O ambiente no qual o jogo está sendo disputado não é aquele idealizado pelo presidente e seus seguidores, mas uma várzea repleta de amadores. Mas nem mesmo em jogos de várzea vale chutar a bola para fora do campo.

Jornalista e doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Pesquisa os desafios do multilateralismo liberal no presente contexto de transformação da ordem mundial.