Segundo consta, os rapazes estão a ir à igreja. Por exemplo, no Reino Unido há quem fale de um salto de 4 para 21%. Já pensámos nisto: um em cada cinco jovens passa o Domingo devoto? Calcula-se que desde meados do Século XX, no optimismo ocidental pós-Guerra, não acontecia algo assim. O punk nos anos setenta dizia que “the kids are alright”, apetece dizer hoje que “the kids are righteous”. Mas falamos de rapazes porque os números femininos são outros e bem diferentes.
Num artigo provocador chamado “Why Young Man Are Coming Back To Church”, J. T. Reeves simplifica a tese: como os rapazes empobreceram, é deles o Reino dos Céus. Afinal, o Século XXI decretou a masculinidade como tóxica, a escola infantilizou-se, o convívio próximo com homens foi escasso, os desportos ensinaram que o importante é participar, a pornografia tentaculizou tudo, e as miúdas estão muito à esquerda. Apesar de esta ser uma reflexão americana, tem que chegue para nós.
É difícil um rapaz sobreviver à dissonância cognitiva que é ser ensinado que ele é o vilão ao mesmo tempo que sente a vítima. Não caio no elogio reaccionário da figura do incel nem me comove a canonização desesperada da esquerda por grupos oprimidos — ambas as estratégias são artificiosas. Nessa medida, a interpretação política do facto de os rapazes estarem à rasca é o que me interessa menos. Sou pastor, não político.
O fenómeno tem-me tocado. Jovens alimentados a YouTube e descrentes nas ideologias dominantes visitam pela primeira vez uma igreja evangélica, num misto de medo e fascínio. Uma certeza trazem: uma casa de oração protestante não será uma câmara de eco do espírito dos tempos. Isto não significa que esse gesto se projecta a longo prazo mas confirma que os rapazes estão mesmo à rasca—sabes que estás aflito quando ir a uma igreja evangélica te parece uma opção.
Há aspectos menos interessantes neste fenómeno. Muitos destes rapazes não vão além da outra face da moeda: julgam que a solução para se sentir fraco é sentir-se forte. Também já vi isto a acontecer: depois do impacto social que é tornarem-se evangélicos, desejam níveis mais agressivos da guerra cultural. São atraídos então por um misticismo de Fight Club. Tornam-se calvinistas duros, católicos radicais, hiper-ortodoxos—o mais red pill que conseguirem. Mas mesmo com essa medicação, o coração ainda dói.
Que um jovem que apanhava por ser fraco faça musculação não me parece a resposta. A solução para uma cultura fraca não é uma cultura forte. Esse impulso é tão pagão como estéril. O equívoco é bem visível nos novos Rambos que a internet consagrou, supostamente prontos a resgatar o Ocidente da sua miséria espiritual mas incapazes de salvarem a sua própria alma. Os rapazes não vão deixar de estar à rasca por se tornarem radicais de direita ou de esquerda.
Se o Reino dos Céus é dos pobres de espírito, há espaço sobretudo para os rapazes que não enriquecem com os ganhos das guerras culturais. Isto não significa que não há combates ideológicos para travar mas que o maior deles não se vê com olhos que se impressionam com força e fartura. Ainda bem que os miúdos estão à rasca e vêm às igrejas. O que vai mantê-los dentro delas não é a vitória da cultura que defendem, mas a adoração daquele que triunfou morrendo.