Só quem nunca foi militante ou membro de um partido é que não compreende Sérgio Sousa Pinto. Bater com a porta é, muitas vezes, o único caminho para quem se cansa de assistir, de perto, ao triunfo do amiguismo e da mediocridade. O problema não é do PS ou da liderança de Pedro Nuno Santos. Antes fosse. O drama é que até partidos que enchem a boca para falar de mérito cedem, mais cedo do que tarde, a esta lógica que está na base do empobrecimento da Democracia.

Os processos de elaboração das listas de deputados continuam a ser, infelizmente, momentos de vergonha alheia em que os partidos se despem e mostram aquilo que ninguém quer ver. Se o espetáculo é triste para quem está de fora, imaginem o incómodo para quem, de dentro, não consegue fazer de conta que não conhece o rapazola que chegou para assessor e em poucos meses abancou num lugar elegível. É o elevador social de São Bento a funcionar. O mérito indiscutível de estar no sítio certo, à hora certa, a dizer que sim a quem já não sabe ouvir um não.

Os partidos detestam gente livre e as lideranças fracas, como aquelas que desfilam hoje pelo palco político, abominam todos aqueles que não são capazes de controlar. É assim da esquerda à direita, dos grandes aos mais pequenos, dos partidos do regime aos novos que anunciavam vir fazer diferente. A Democracia trocou a inteligência pelo chico-espertismo, a cultura pelo faz de conta, o espírito crítico pelo lambe-botismo, a independência pela cobardia e os livros pelo tik tok.

No lugar dos Sérgios aparecem aquelas que se estão borrifando para a guerra, o conservador que se quer sentar na bancada dos progressistas, o outro que chega a deputado sem nunca ter aberto a boca, o tipo das malas e o rapaz dos reels. O vazio ocupa espaço em São Bento e sobram, ao longe, como vindos de uma realidade paralela, os ecos de Carlos Guimarães Pinto ou Rui Tavares. Valha-nos ainda isso: a resistência de alguns, o inconformismo e uma certa imunidade perante o empobrecimento do debate político.

A Democracia não se constrói sem partidos. Se é óbvio que o caminho não passa pela sua diabolização, também é claro que a esperança não se compadece com silêncios cúmplices de quem faz de conta que não percebe o que está a acontecer. Os novos partidos têm uma responsabilidade acrescida no virar de página que se impõe. Não vale bater no bloco central e cultivar, internamente, os mesmos métodos que PS e PSD impõem na hora de escolher os seus representantes. Antes de ser sobre partidos, a política é sobre pessoas, sobre as mais capazes e livres para discutirem o bem-comum.

É aqui que entram os membros ou militantes dos partidos. O fosso que se sente entre eleitos e eleitores a nível nacional é semelhante ao ambiente que se vive dentro das estruturas partidárias. Basta ver, por exemplo, a percentagem de participação nas votações internas. Na Iniciativa Liberal, Rui Rocha foi eleito por pouco mais de 700 membros num universo 7.200, menos de 10%. Calma. O problema não é Rui Rocha nem a Iniciativa Liberal. É mais ou menos assim em todos os partidos. E o que é que tem isto a ver com o empobrecimento do debate parlamentar? Tudo. Se as bases se demitem de participar e exigir, as lideranças não hesitam em facilitar. Escolhem-se os métodos mais simples, fecham-se os núcleos de poder com amigos e aliados como se não houvesse gente válida fora do círculo, afastam-se os que pensam um bocadinho ao lado e garante-se o cacique necessário para que o poder se perpetue.

Perante tudo isto, há quem me pergunte o que faço num partido. Barulho, porque a Democracia morrerá em silêncio.