No fio da navalha. Imersos nas nossas vidas do dia-a-dia nem nos damos conta, mas é assim que o país vive: sem que se dê conta, no fio da navalha. Pior que isso: convencido que  é o paraíso na Terra, enganado relativamente à dívida pública, ao preço do excedente orçamental que o governo espera conseguir à custa de cativações na saúde, à custa de um Estado Social decadente apesar dos altíssimos impostos que, parte do país, efectivamente paga. Apesar de não haver margem para um tropeção, uma derrapagem. Uma imagem dessa indiferença é a quase agressão do primeiro-ministro a um idoso não ter tido consequências eleitorais. Se para a maioria do país é indiferente o que um primeiro-ministro ameaça fazer a um idoso, um elemento frágil da sociedade, por que motivo se indignará com as crianças que não recebem os tratamentos adequados nos hospitais?

A indiferença medra porque essa maioria perde o que lhe resta se exercer o seu direito à indignação. Longe vão os tempos de Mário Soares em que a indignação não apresentava custos sociais. Medra porque a esquerda está em crise, perdeu causas, não apresenta qualquer destino para o país, vive de enganos, ilusões e sorte. Ironia das ironias, até o seu sucesso é uma ilusão. Mas medra acima de tudo pois a direita (apesar de nos dia de hoje ser intelectualmente mais bem preparada que a esquerda) não se entende.

Este é, aliás, o primeiro desafio da direita política portuguesa. Entender-se, agregar-se, coligar-se, fundir-se num só partido, apresentar um só programa político abrangente e coerente. Desde que António Costa fintou o resultado das legislativas de 2015 que se tornou óbvio que a direita só regressa ao governo se se unir. Tive oportunidade de escrever precisamente isso a 7 de Outubro de 2015, logo após o resultado eleitoral e quando se antevia uma união das esquerdas para impedir a direita de governar.

Só unida a direita tem condições para ceder ao populismo e não morrer com ele. Se PSD, CDS e Iniciativa Liberal cederem ao discurso populista do Chega, perdem o valor que têm e serão substituídos por André Ventura. Não ceder ao populismo não é o desafio mais difícil da direita pois não é o seu eleitorado que o Chega de André Ventura ameaça. À semelhança do que sucedeu em França (e está a acontecer nos subúrbios de Lisboa e no Alentejo) o eleitorado com mais tendência de ser cativado pelo Chega é o do PCP e também o do BE.

Mas a direita não se une nem resiste ao populismo se não resolver a questão presidencial.   Dos três este é o desafio mais complicado porque originará muita divisão. Na verdade, apoiar a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa é o passo natural para partidos como o PSD e o CDS. Sucede que, também como já referi aqui, a direita não deve apoiar a recandidatura do actual presidente, não por se sentir defraudada com a forma como Marcelo exerceu o seu cargo, mas porque a direita que sair dessa união indispensável para derrotar a esquerda não tem nada a ver com Marcelo Rebelo de Sousa. Não só não tem nada a ver com ele como Marcelo, caso seja reeleito com o apoio da direita, minará essa própria direita. É assim que, quando me dizem que é impossível derrotar Marcelo Rebelo de Sousa em 2021 respondo que o importante para a direita não é vencê-lo, mas libertar-se dele. Libertar-se da sua tutela, dizer ao eleitorado que Marcelo é de esquerda e que as reformas que PSD, CDS e Iniciativa Liberal se propõem fazer não passam pela visão que o actual presidente tem do país. A somar-se a isto, ao PSD e ao CDS coloca-se o risco de apoiarem um candidato do regime, e que se revê numa governação socialista com o apoio do PCP e do BE, contra outros candidatos da Iniciativa Liberal e do Chega. Perante uma eleição à partida já decidida, estes dois novos partidos têm espaço para crescer competindo entre si à semelhança do que fizeram o PCP e o BE nos últimos anos. PSD e CDS devem estar cientes deste risco que poderá ser atenuado se, a par com a Iniciativa Liberal, apresentarem um candidato próprio que, além de lhes permitir libertarem-se da figura tutelar de Marcelo, reduza o espaço de progressão do Chega.

São estes os três desafios que a direita enfrenta no próximo ano e meio. Sei que são difíceis de encarar e, mais ainda, de ultrapassar. No entanto, o futuro da direita e do país depende da forma como os encararemos, Se não formos bem-sucedidos daqui a 18 meses poderemos ter de assistir a algo que muitos receiam e poucos estão prontos a enfrentar, até porque não sabem como o fazer.